Pousei a chávena na mesa e ouvi o telemóvel tocar. Número desconhecido, mas o toque era inconfundível insistente, como quem acha que tenho obrigação de atender. Olhei para o ecrã e percebi logo: era ele. Vítor. O ex-marido que, há cinco anos, trocou-me por outra e foi ser pai por lá.
Não atendi de imediato. Fiquei à janela, a ver as crianças a brincar no pátio, a matutar: para quê? Para quê agora?
O telefone calou-se. Passados dois minutos, volta à carga.
Suspirei e atendi.
Olívia, olá a voz do Vítor saía baixinha, quase a pedir desculpa. Preciso de falar contigo. Com urgência.
Sobre o quê? sentei-me no parapeito, encostei o telefone à orelha, pronta para outra ladainha. O Vítor tinha sempre um jeitinho de pedir as coisas que até parecia mal recusar.
Podemos encontrar-nos? Não quero falar disto ao telefone, percebes
Não percebo nada, respondi sem me descabelar. Diz já, ou então esquece lá isso.
Silêncio. Depois, aquele suspiro de cigarro a mais.
A Sónia tem cancro. Fase terminal. Os médicos dizem dois, três meses, se tanto.
Sónia. Aquela por quem ele foi embora. Aquela que lhe deu o filho. Senti um frio na espinha, mas não era pena era só o pressentimento de que vinha aí tropeço.
Lamento imenso disse, com a voz neutra. Mas não entendo porque me ligas.
Olívia Preciso mesmo da tua ajuda. Não sei a quem mais recorrer.
Fiquei calada. Uma gralha poisou num ramo da oliveira em frente, a olhar-me como quem diz: não te metas.
Por favor, Olívia, vê lá se podemos encontrar-nos. Eu explico todo. É sobre o Martim. O meu filho.
O teu filho, corrigi mentalmente. Nunca meu.
Está bem, acedi, seca. Amanhã. Na pastelaria ao pé do Rossio, às três.
Desliguei e fiquei ali, no parapeito, a olhar para o nada. O chá arrefeceu, o pepino do vinagrete ficou murcho. No frigorífico, uma foto antiga eu e o Vítor na praia da Comporta, de braço dado a rir. Sempre achei que devia deitar fora, mas acabava por não ter coragem. Ou, se calhar, só não queria admitir que já não era aquela mulher.
No dia seguinte, cheguei à pastelaria antes da hora. Pedi um chá, sentei-me junto à janela, à espera. O Vítor apareceu dez minutos depois encolhido, grisalho, com entradas no cabelo. Sentou-se à minha frente, fez um aceno à empregada e olhou-me como quem já pede desculpa antes de abrir a boca.
Obrigado por teres vindo murmurou.
Diz lá agarrei a chávena para aquecer as mãos. Não tenho muito tempo.
Não sei bem por onde começar
Pelo motivo de me teres chamado, se fazes favor.
Ele suspirou, esfregou a cara com as mãos.
A Sónia está mesmo em estado terminal. Não ajuda mais nada. A mãe dela já faleceu, do pai não se sabe. O Martim vai ficar sozinho. Tem cinco anos.
Não disse nada. Cá dentro, alguma coisa ficou apertada, mas não deixei transparecer.
Queria pedir-te gaguejou, olhos postos na mesa. Que nos ajudasses. Financeiramente. Para os tratamentos, para o apoio. Juro que depois te devolvo tudo, mas agora não tenho nada.
Quanto? perguntei.
Uns cem mil euros. Talvez mais.
A chávena tremeu-me na mão, entornei um bocadinho na toalha.
Cem mil euros? Achas que sou algum banco, Vítor?
Podias vender o apartamento da Rua das Flores. Sempre disseste que não te fazia falta, que não vivias lá
O apartamento da Rua das Flores. T0 antigo, dado pelos meus pais quando casei. Depois ofereci-o ao Vítor um presente de aniversário, quando achava que íamos crescer juntos. Ele ficou com as rendas. Agora queria era vender.
Estás a falar a sério? encarei-o. Queres que venda o apartamento que eu própria te dei?
Eu sei que parece horrível, mas
Não, cortei. Não, Vítor. O presente era isso mesmo não uma obrigação.
Ele ficou branco como cal.
Mas a Sónia vai morrer! O Martim vai ficar órfão!
O Martim tem pai, levantei-me, peguei na mala. És tu. Essa é a tua responsabilidade, não a minha.
Olívia, espera
Não esperei. Saí, telefone na mão, a tremer ligeiramente. Terei feito bem? Ou serei só uma egoísta de primeira?
Em casa, liguei à Marina. A minha amiga da faculdade, a única que não me fez sermões depois do divórcio nem me mandou aguentar pelo bem da família.
Ele pediu-te para vender o apartamento? repetiu ela, incrédula. Olívia, o homem está completamente doido.
Marina, eu sei que a Sónia está a morrer. E a criança é pequena
Que tem isso a ver contigo? Não lhe deves nada. Nadinha.
Mas sinto-me horrível confessei. Como se recusasse um pedido de socorro.
Tens todo o direito de dizer não, mesmo que custe, disse a Marina, firme. Não tens de salvar ninguém dos próprios erros.
Atirei-me para o sofá e fechei os olhos. Palavras do Vítor em eco, imagem daquela mulher que vi uma vez, com ele e o carrinho do Martim: cabelos loiros, sorriso despreocupado. Na altura, só pensei: roubou-me o marido. Agora, vai-se embora e eu devia dar a mão?
Não. Não devia.
Dois dias depois, o Vítor volta a ligar. Desta feita, nem pediu encontro veio logo, desesperado.
Olívia, sei que tens ressentimento. Mas pensa no Martim. Ele não tem culpa.
Não tenho ressentimento, disse serena. Só não quero meter-me nisto.
Tenho outro pedido gaguejou. Se a Sónia morrer podias ficar com o Martim uns tempos? Ser tua guardiã. Até eu me organizar.
Nem percebi logo.
Desculpa?
És mulher, já criaste a Ana. O Martim vai precisar de mãe. Eu sozinho, não consigo
Vítor, interrompi, gelada. Queres que eu seja mãe do teu filho? Daquele que tiveste quando andavas a trair-me?
Olívia, eu sei que soa mal
Não disse, definitiva. Não, não e não. Esquece-me disso. Apaga-me dos teus planos. Não faço parte da tua segunda temporada.
Desliguei, fiquei sentada no chão, encostada à parede, o coração aos pulos.
Como ousa?
À noite chegou a Ana. A minha filha, vinte e oito anos, gira, inteligente, publicitária de topo, a viver num T2 moderno da Baixa. Vemo-nos pouco, mas sempre com carinho.
Mãe, o pai ligou-me disse ela mal entrou. Contou da Sónia, do Martim.
Assenti, pus água a ferver para chá.
E então?
Disse que tu recusaste ajudar. Que ficaste fria.
Virei-me para ela. Estava de braços cruzados a fitar-me, incrédula.
Fria? Isso é novo.
Mãe, como podes ser assim? Ele é só um miúdo. Não tem culpa.
Tens razão, conferi-lhe chá. Mas não faz dele minha responsabilidade.
Mas podias pelo menos dar uma ajuda!
Ana, não vendo o apartamento. Nem vou ser mãe emprestada. Isso é novela do teu pai.
És mesmo egoísta disse ela, num sussurro triste.
Magoei-me, mas não me justifiquei.
Talvez, respondi. Tenho esse direito.
A Ana saiu sem beber metade do chá. Fiquei sozinha nessa quietude de igreja destelhada.
Os dias seguintes foram uma tortura. O Vítor não parava: telefonemas, mensagens ora a chorar, ora a ameaçar. Dizia que ia a tribunal, que ia contar à Ana o quão má mãe eu era.
Eu lia e apagava.
Uma noite, a própria Sónia apareceu-me à porta. Pálida, miúda, com lenço na cabeça. Deitou-me um olhar cansado.
Posso entrar? pediu em voz baixa.
Deixei-a entrar. Ficámos na cozinha, ela a olhar a chávena de água.
Não lhe peço que goste do Martim acabou por dizer. Só peço dê-lhe uma hipótese. Quando eu já cá não estiver, ele vai precisar de alguém.
E o pai dele? perguntei.
O Vítor não se aguenta sozinho. Você sabe.
Sabia. O Vítor era encantador, mas sempre fraquinho. Só sabia pedir.
Não consigo, disse-lhe. Desculpe, mas não consigo.
A Sónia assentiu, levantou-se devagar. Antes de sair, virou-se.
Você é uma mulher muito forte disse. Sempre lhe invejei isso. O Vítor contava tanto Mas agora vejo que essa força vem de um frio cá dentro.
A porta ficou fechada. Eu, plantada no corredor, incapaz de mexer um dedo.
Frio cá dentro.
Não dormi. Fiquei no sofá a olhar para o tecto, com o Martim, o Vítor, a Sónia a rodopiar na mente. Lembrei-me de ser tolerante em tempos, de dar de mim por tudo. Até ao dia em que fui traída e percebi que sacrificar-me não servia de nada.
Mas terei razão?
Levantei-me, fui à janela. Escuridão lá fora. Só candeeiros e um cão a ladrar ao longe.
Tenho o direito de dizer não, os conselhos da Marina martelavam-me nos ouvidos. Mesmo que me julguem. Mesmo que custe.
Não tenho de viver enredada pelos erros dos outros. Não sou figurante em dramas alheios.
De manhã, liguei ao Vítor.
Vemo-nos hoje. No mesmo sítio.
Veio com ar esperançoso. Sentou-se, entrelaçou as mãos.
Sabia que ias
Não fales atalhei. Ouve bem: não vendo o apartamento. Foi dado por amor, não por dever. E não vou ser mãe do teu filho. Este filme não é meu.
Mas
Foste tu que escolheste, continuei, tranquila. Foste tu que foste embora. Foste tu que criaste esta situação. Agora aguenta-a. Não me cabe salvar ninguém do próprio passado.
O Vítor ficou lívido.
Queres que o Martim sofra?
Quero que pares de pôr o miúdo como moeda de chantagem, disse, firme. Tens família, amigos. Procura ajuda noutro lado. Mas não de mim.
És cruel, murmurou ele. De pedra.
Levantei-me, peguei na mala.
Pode ser, respondi. Mas esta é a minha vida. E não vou deixar que entres nela outra vez.
Saí da pastelaria e caminhei, de cabeça erguida, leve. Não olhei para trás.
Passaram duas semanas. O Vítor nunca mais ligou. Nem a Ana me procurou. A Marina continuou a passar cá, a beber chá, a falar de tudo, menos do Martim e da Sónia.
Voltei à minha vidinha. Trabalho, janta, livros. À noite, sentava-me à janela e olhava o pátio, as crianças.
Às vezes, pensava no Martim. Será parecido com quem? Mas os pensamentos iam e vinham, como nuvens. Não me prendia a eles.
Um dia, de manhãzinha, recebi mensagem da Ana: “Mãe, desculpa. Percebi. Tens razão.”
Sorri. Respondi: “Obrigada, filha. Gosto muito de ti.”
Sentei-me junto à janela, chávena na mão, a olhar para o meu T2. Pequeno, luminoso, aconchegante. Era o meu espaço. A minha vida.
Não fui heroína. Não salvei ninguém. Não me imolei.
Mas não me perdi. E isso, para mim, já era uma vitória.
Suave, sem clarins. Mas real.
Dei um gole de chá e abri um livro. O sol aparecia lá fora, o mundo girava.
E finalmente, deixei de me sentir culpada por ter escolhido a mim mesma.







