O marido voltou diferente
Trouxeste pão?
Ele olhou para mim como se eu tivesse perguntado algo noutra língua. Não era bem incompreensão. Foi uma pausa. Longa, desconfortável, fora do normalidade do nosso dia-a-dia.
Que pão? disse finalmente, sem qualquer entoação de pergunta.
O normal. Pão saloio da Padaria do Zé, como fazes sempre.
Ele pousou o saco no chão, olhou à volta da cozinha como se entrasse ali pela primeira vez.
Não passei pela padaria.
Acenei com a cabeça e virei para o fogão. Não era nada, repeti baixinho para mim. Deve estar cansado. Esteve fora a semana inteira, conferência em Braga, hotel, comida diferente, outro ar. Claro que estava cansado.
Mas nunca se esquecia do pão. Em vinte anos, todas as vezes que voltava de viagem mesmo as mais curtas trazia sempre o pão da Padaria do Zé, na esquina da Rua das Flores. Nunca ficou combinado assim. Não era hábito por necessidade. Era só a maneira dele de voltar a casa.
Mexi a sopa e continuei calada.
O meu marido chama-se António. Tenho cinquenta e oito, ele sessenta e um. Vivemos em Coimbra, num T2 no quarto andar que comprámos em 2001, quando a Mariana era pequenina. A Mariana cresceu, mudou-se para Lisboa, telefona-nos todos os domingos. Eu sou bibliotecária numa escola, o António reformou-se há três anos mas começou a dar umas aulas de construção civil no politécnico. Vivemos calmos, sem grandes discussões. Isto é importante não havia nada que explicasse o que aconteceu depois do regresso dele.
Jantámos em silêncio. Ele comia devagar, de olhos postos no prato. Eu pensava que a qualquer momento ia levantar os olhos e falar da viagem, dos colegas, do elevador do hotel que não funcionava, do quanto tinha saudades de uma sopa caseira. Ele falava sempre no primeiro jantar depois de voltar.
Como correu em Braga? perguntei.
Normal.
O seminário foi interessante?
Foi.
Deixei a colher pousada na mesa.
António, estás bem?
Olhou-me, olhos normais, cinzentos, só um pouco cansados.
Estou, só cansado.
Arrumei a mesa. Ele foi para a sala, deitou-se no sofá com o telemóvel, como se nada se passasse. Só não tínhamos pão. Nem conversa. Nem uma coisa qualquer, que não sabia nomear.
Atribuí a primeira noite a cansaço. E a segunda.
Na sexta-feira, reparei finalmente na primeira coisa verdadeiramente estranha.
Estava a beber café à janela, a olhar para o pátio. Ele saiu da casa de banho, passou pela cozinha, tirou um copo de água. Depois pegou num frasco de feijão frade, abriu-o, cheirou e pousou na prateleira. Não disse nada. Mas o António nunca quis saber de feijão frade. Nunca gostou. Na primeira vez em que jantámos, disse a rir que feijão frade era alimento de quem não sabia inventar, que era comida de gente sem imaginação. Rímos os dois. Desde então, fazia-lhe arroz de tomate, grão, até lentilhas mas feijão frade, nunca.
E agora, cheirou-o. Como se quisesse experimentar.
Apetece-te feijão frade? perguntei, tentando soar o mais neutra possível.
Não respondeu, e foi para a sala.
Fiquei a olhar para o frasco.
No sábado, recebi chamada da Mariana.
O pai já voltou?
Voltou, na quarta.
Está bem?
Hesitei, por um instante.
Está cansado da viagem, mas está tudo bem.
Pronto. Mãe, em outubro levo o Alexandre aí, temos férias.
Claro, venham. Vai saber bem.
Não lhe disse nada. O que havia eu de dizer? Que o pai não trouxe pão e cheirou feijão frade? Não é coisa de se dizer.
Mas eu sentia que algo não estava como devia ser. Nem pela lógica, nem pela razão era um sinal, no fundo do peito, sem explicação racional.
No domingo, sugeri um passeio. Costumávamos ir ao Parque Verde ao domingo. Não era regra, mas éramos clientes habituais. Ele gostava de um banco à beira-rio, comprava um copo de sumol no quiosque, queixava-se das costas na caminhada, eu dizia que tinha de fazer alongamentos, ele refilava, ríamos. Pequenos rituais.
Vamos ao parque? perguntei.
Largou o telemóvel.
A que parque?
Ao Parque Verde. Está bom tempo.
Igual. Mais uma pausa. Geralmente dizia logo vamos ou deixa só buscar o casaco. Não havia motivo para pensar.
Está bem disse por fim.
Fomos em silêncio. Não forcei conversa, observei. Ele olhava os lados de maneira neutra, sem a calma habitual de domingo, nem especial interesse. Como alguém num caminho estranho, a tomar notas.
À entrada estava um velhote com um cão, um cocker castanho e gordo.
Olha, o Chico disse. Chamávamos todos os cockers rechonchudos de Chico, porque uma vizinha nossa, Dona Rosa, tinha um assim há anos. Era piada nossa.
Ele olhou para o cão. Nada.
Chico, repeti mais baixo.
Bonito cão disse, apenas, educado, neutro.
Mais adiante, parei junto a um arbusto, fingi olhar as bagas. O coração acelerado.
Ele não se lembrava do Chico. Ou fingia. Mas para quê fingir?
No quiosque, já não havia sumol, pronto, verão tinha acabado. Ele sentou-se no banco, olhou a água.
Aqui é agradável disse.
Costumamos vir cá.
Sim?
Virei-me.
António. Vimos aqui há uns dez anos, ou mais.
Ele acenou, calmo.
Pois. Só quis dizer que é agradável.
Algo em mim apertou e não voltou ao normal. Não percebi logo o que era, só à noite, a ouvir a respiração dele. Não dissera lembro-me ou claro. Só pois. Como se fosse factos de outros.
Não dormi bem. Recordava ter lido qualquer coisa sobre isto quando alguém próximo muda muito depois de um choque, parece-te um estranho. Tem nome médico, não lembrava qual.
Mas não houve choque. Foi uma conferência de construção. Uma semana em Braga.
Às três da manhã fui beber água, olhei pela janela. O bairro sossegado, luzes intermitentes. Pensei: espera. Talvez resista só mais um pouco.
Voltei à cama. Ele de costas, dormia. Pousei a mão nas costas, leve, como sempre. Não se mexeu.
Segunda liguei à minha amiga Dora. Somos amigas desde a faculdade, mora noutra ponta da cidade, trabalha no centro de saúde. A Dora não têm paciência para floreados. E eu aprecio isso.
Ó Dora, posso passar aí?
Aconteceu alguma coisa?
Não sei. Talvez nada. Preciso só de conversar.
Vem às cinco, estou em casa.
Na casa da Dora está sempre um cheiro a bolo, mesmo quando não fez nenhum. Sentei-me na cozinha, chá nas mãos, contei tudo: pão, feijão frade, o Chico, o pois.
A Dora ouviu sem interromper. Depois ficou em silêncio.
Carla, pode ser depressão. Ou princípio de problema de memória. Vocês já não são novos
Dora, ele tem sessenta e um.
E? O senhor Almeida, do terceiro, começou com sessenta e dois.
Ele sempre foi a pessoa com melhor memória que conheci. Datas, nomes, tudo.
Tudo muda um dia.
Olhei para a chávena.
Dora, não é só esquecimento. Ele olha para mim Estás a ver aquele olhar quando conheces uma pessoa e queres ser simpático? Às vezes parece isso.
A Dora partiu um bolo.
Dormiste bem?
Não.
Pronto. Carla, estás a ficar obcecada. Ele está cansado da viagem. Às vezes a vida pesa. Dá-lhe uma semana.
Consenti. Talvez ela tivesse razão.
No regresso pensei no feijão. Pequenos gestos, mas não eram dele.
Ele estava em casa. Sentado à mesa com papéis. Fiquei a arrumar as compras.
Estive na Dora.
Hum.
Trouxe bolo. De couve, o teu preferido.
Nunca fui grande fã de couve.
Fiquei paralisada.
António.
Sim?
Sempre gostaste de bolo de couve, foi o que me disseste quando te conheci. Dizias que a tua mãe fazia sempre.
Olhou-me firmemente.
Fazia de maçã.
Silêncio.
A mãe dele, Dona Isabel, morreu há doze anos. Conheci-a bem, fui muitas vezes lá. Fazia bolo de couve e ovo, toda a gente sabia. Era especialidade dela.
António, a Dona Isabel fazia de couve disse baixo. Eu lembro-me.
Pronto, também fazia. Faz muitos anos já encolheu os ombros e voltou aos papéis.
Fui para a sala. Fiquei à janela a ver a rua. Tudo igual.
Eu lembrava o cheiro da cozinha da Dona Isabel, a toalha florida, ela orgulhosa do bolo.
Peguei no telefone, liguei à irmã do António, Margarida, que vive em Aveiro. Não somos próximas, mas falamos às vezes.
Carla! Então, está tudo bem?
Margarida, lembras-te dos bolos que a vossa mãe fazia? Que recheio?
Claro, couve e ovo. Porquê?
Nada, queria só lembrar a receita. Obrigada.
Desliguei. Percorri a sala devagar. Sentia-me ridícula por causa de um bolo.
Talvez fosse da memória dele. Ouvi falar em problemas de neurologia, idade, o que estivesse. Marcar médico. Falar com ele.
Ao jantar perguntei:
Tens tido dores de cabeça?
Não.
Dormes bem?
Sim.
Não queres ir ao médico só para ver se está tudo bem?
Largou o garfo.
Para quê?
Para veres a tensão, já não o fazes há muito.
Meço em casa. Está boa.
Fico preocupada.
Olhou de lado, longamente.
Achas que estou mal?
Preocupo-me só.
Carla, estou bem. Chega disso.
Voltou a comer. O António sabia fechar o assunto assim, sem levantar a voz, só marcando o limite. Habituara-me a isso. Não insisti.
Mas agora analisava-o por dentro: sentava-se como sempre? Parecia-me mais encurvado. O garfo na mão direita, sim, era destro. Sempre foi.
Arrumei loiça, fui à casa-de-banho, olhei-me ao espelho. Uma mulher de cabelo curto, grisalho, nunca mais pintei. As rugas nos olhos que o António chamava de rugas risonhas, porque vinham do riso, não da idade. Disse a mim mesma: estás a imaginar coisas. As pessoas mudam. Especialmente depois de algo que não vemos.
Deitei-me.
Acordei no meio da noite com o silêncio. Não respiração, silêncio mesmo. Estendi a mão, não encontrei ninguém. O lado dele frio.
Fui à cozinha. Luz acesa. Ele escrevia num bloco, à mão, estranho, porque o António só pegava na caneta para assinar papéis.
António?
Levantou os olhos, tranquilo.
Não consigo dormir.
Que escreves?
Ideias.
Posso ver?
Pausa.
É pessoal.
Olhei-o. Sustentou o olhar.
O António nunca dizia é pessoal. Nunca em vinte anos.
Está bem, e voltei para a cama.
Ouvi-o acabar, depois desligou e voltou para junto de mim.
De manhã, o bloco já não estava na mesa.
Procurei. Nem sei explicar porquê. Abri gavetas da cozinha, sem sinal. Procurei na mesinha de cabeceira dele, coisa que nunca tinha feito. Quase vazia. Uns óculos velhos, uma moeda, papéis com números de telefone. Mas nada do bloco.
Levou-o consigo.
Fui trabalhar. Na biblioteca era sempre calmo, cheiro a papel e um pouco de pó, um consolo. Arrumei livros, ajudei a Leonor, a bibliotecária nova, a encontrar revistas. Dia normal.
Ao almoço, na copa, só pensava: como é que sabemos que alguém mudou? Não falo da idade; assim, de verdade. O que é perder alguém sem que essa pessoa saia de casa?
Chama-se despersonalização, lembrei-me do termo e já não sabia onde tinha lido. Quando quem vive connosco se torna outro. Pode ser doença ou só a vida crise depois dos sessenta, quando os filhos saem de casa e ficamos frente a frente com a dúvida: quem somos nós dois agora?
Mas eu conhecia o António.
Cheguei antes dele. Quando entrei, estava à janela da cozinha a olhar para fora.
António, que fazes?
Olho.
Para quê?
Só olho.
Qualquer um acharia estranho, mas nele ainda mais. Sempre foi de mexer, não de olhar.
Como foi o teu dia? perguntei.
Normal. Aulas, como sempre.
E os alunos?
Os alunos.
Fui buscar frango ao frigorífico e comecei a cozinhar.
António, conta-me da conferência em Braga.
O quê?
O que quiseres. Ficaste lá uma semana.
Pausa.
Fiquei no hotel, normal. Seminário no politécnico. Fomos ver um prédio novo. Só.
E colegas? Quem foi?
Uns do politécnico, outros de fora.
O Mané, foi?
Manuel, o colega dele há três anos, pescavam juntos. O António falava dele.
O Mané? Não, não foi.
Vai sempre a essas coisas
Não desta vez.
Virei-me para o fogão. Pronto.
À noite, escrevi mensagem à mulher do Manuel, que conhecia por causa dos piqueniques.
O Manuel regressou bem de Braga?
Ela respondeu: O Manuel não foi, ficou em casa, não o deixaram ir dessa vez. Aconteceu alguma coisa?
Disse que confundi, pedindo desculpa.
Guardei o telefone. Deitei na cama, de olhos abertos.
Ou não sabe se o Manuel esteve em Braga, ou estava a esconder algo. Para quê?
Será que nem foi a Braga? A ideia assustadora entrou-me na cabeça e não saiu.
No dia seguinte, sugeri comprarmos cortinados novos, ida à Casa da Linha, na Baixa, onde tínhamos um velho ritual: ele odiava ver tecidos, resmungava escolhe o que quiseres, depois comíamos croquetes na pastelaria de esquina. Ritual pequeno, só nosso.
Vamos hoje? perguntei.
Onde?
Casa da Linha, comprar cortinados.
São precisos?
Estes já viram melhores dias.
Vamos então.
Fui arrastando, analisando padrões, perguntando opinião, ele respondia distraidamente.
Vamos comer um croquete depois?
Onde?
A pastelaria ali ao lado, conheces.
Olhou-me confuso.
Não sei de pastelaria nenhuma.
Sorri. Não quis mostrar o aperto.
Vais-te lembrar. Anda cá.
Fomos, Levei-o ao talho da esquina, o cheiro a massa frita vinha da porta, há mais de vinte anos igual. Nome no letreiro: Pastelaria Central.
Vês?
Olhou o letreiro.
Ah, nunca reparei.
Comemos croquete, ele olhou para fora, perguntou se eu estava com frio, normal.
De repente fitou o letreiro, como quem quisesse fixar.
António disse baixinho tu lembras-te de mim?
Olhou-me surpreendido.
Como assim? És a Carla, minha mulher.
Eu sei o nome. Pergunto da nossa história. O que tivemos.
Que se passa, Carla?
Nada, mudaste
Toda a gente muda.
Disseste exatamente como pensei outro dia, mas costumavas dizer as pessoas não mudam.
Calou-se. Acabou de comer o croquete.
Talvez eu esteja a mudar também.
Voltámos de autocarro, fui a olhar a janela, a pensar como é terrível sentir que a pessoa a teu lado não é bem a mesma, e como isso acontece. E que quase nunca há explicação.
Na quinta de manhã, quando ele saiu para dar aulas, fui àquela divisão que chamávamos gabinete. Só um pequeno escritório improvisado, onde ele guardava livros e papéis.
Não queria mexer mas sentei no cadeirão, abri a primeira gaveta.
Estava lá o bloco.
Peguei. Folheei. Páginas em branco, depois listas. Letra miúda, redondinha não a do António, que era grande, inclinada, mal se lia.
Listas. Carla. Esposa. 58 anos. Bibliotecária. Filha Mariana, Lisboa. Café sem açúcar. Sobretudo quer mudar cortinas. Dora, amiga, centro de saúde. Bolo de couve. Parque Verde ao domingo. Chico, cocker. Piada comum.
E mais: Dona Isabel, mãe. Couve ou maçã. Confirmar.
Fiquei sem ar.
Parecia o caderno de alguém a estudar uma personagem. A tomar apontamentos para não errar.
Fechei o bloco, pus no mesmo sítio. Sentei-me na sala, coração atabalhoado. Talvez fosse um caso raro, algum estado dissociativo, li algo assim em psicologia: pessoa bloqueia, perde as noções, tenta remontar as pontas. Talvez vergonha, receio de assustar-me.
Mas o que não entrava era a letra: não era dele.
As pessoas mudam letra? Depois de um AVC, talvez. Mas não havia outros sinais.
Voltou às sete. Tinha feito jantar, estava calma, só porque precisava da normalidade.
Faltaste ao trabalho? perguntou.
Tinha dores de cabeça. Agora passou.
Acenou, foi lavar as mãos. Normal.
Ao jantar olhei-o: a carcaça era igual, mas dentro? Quanto de António ali estava?
António disse.
Hum?
Conta-me como nos conhecemos.
Ergueu os olhos, sem pressa.
Fomos apresentados por amigos, num aniversário. Levaste um vestido azul.
(Isto era verdade. Vestido azul, aniversário da Sara, 23 setembro de 1997).
Depois encontrámo-nos mais duas vezes e começámos a namorar.
Parou.
E pronto.
Olhei.
E depois?
Casámos. Mariana nasceu. Comprámos a casa.
António. Quando me pediste em casamento, para onde fomos?
Carla
Só diz.
Ficou silencioso.
Não me lembro dos detalhes. Foi há muito tempo.
Disseste sempre que lembravas cada minuto. Até na boda dos vinte e cinco anos.
Silêncio.
António. Para onde fomos naquele dia?
Olhou-me muito tempo. Não vi zanga, nem embaraço. Parecia só cansaço ou cálculo.
Carla, porque perguntas isto agora?
Porque quero saber se tu te lembras.
Estou cansado. Não tenho de lembrar tudo.
Não é tudo.
Para mim, é detalhe.
Levantei, tirei os pratos, sem acabar de jantar. Ficou quieto.
O tal dia, fomos ao Mondego, pegou-me ao colo por causa da lama, pediu-me em casamento junto ao rio. Ele adorava contar isso. Aquela pessoa que ali estava não sabia.
Nessa noite contei tudo à Dora, bloqueio, letra, rio Mondego.
Ela respondeu: Carla, marquem médico. Isto pode ser do lado dele, ou teu. Fala comigo amanhã.
Guardei telemóvel, olhei o teto na penumbra. António respirava, sossegado. Pensei em pessoas que não se vão embora só deixam, debaixo da mesma pele, de ser as mesmas.
Na sexta, decidi falar abertamente. Contar do bloco, do telefonema, das dúvidas. Dizer-lhe que precisava de respostas. Não era acusação, precisava só da verdade.
Ele estava na cozinha a fazer chá.
António…
Sim?
Preciso falar contigo.
Olhou-me de frente, calmo.
Eu sei.
Parei.
Sabes o quê?
Que sabes alguma coisa. Vi que estiveste no gabinete.
Fiquei quieta. Não pedi desculpa. Esperei.
Senta-te pediu.
Sentámo-nos. Ele segurava a chávena nas duas mãos.
Não é fácil explicar começou.
Tenta.
O que tu pensas é o mais simples. E, em parte, é verdade.
Em parte?
Não lembro tudo. Não como tu pensas. Falham-me coisas. Grandes.
O Mondego disse.
Levantou o olhar.
O quê?
Estivemos lá quando me pediste para casar. Recordas?
Mudou-lhe o rosto, quase impercetível.
Não.
E o Chico, lembras?
Pausa.
Não.
E a tua mãe, Dona Isabel?
Lembro da cara, do tom de voz. Das coisas não.
Fiquei a olhar. Ele olhava o chá.
António. Quando começou?
Não sei. Foi aos poucos.
E não disseste.
Não soube como.
Apontamentos. Para não falhar.
Sim.
A letra é diferente.
Demora na resposta. Largou a chávena.
Eu sei.
Como se explica isso?
Não respondeu. Olhou a mesa.
António. Olha para mim.
Levantou os olhos. Cinzentos, normais.
Tu és o António? O meu António?
E pela primeira vez pareceu-lhe doer de verdade. Ou estar perdido. Ou outra coisa que não conheço.
Carla disse baixinho. Não sei como te responder.
Fitei aquelas mãos na chávena, as dobrinhas na boca, os cabelos cinzentos.
É uma resposta sincera?
É a mais sincera que consigo dar.
Chovia lá fora. Chuva miúda de Coimbra. Ouvia as pingas na janela.
O que faço com isto? perguntei ao ar.
Não sei respondeu ele. Pela primeira vez pareceu verdade.
Levantei-me, fui buscar um café, sem açúcar, olhei a rua encharcada.
Atrás, levantou-se também, aproximou-se.
Carla…
Sim?
Lembro-me da tua voz. Desde sempre. Da maneira como fases as frases. Isso lembro.
Não me virei.
É pouco.
Eu sei.
A chuva não parava. Um carro buzina e ficou tudo sossegado novamente.
Preciso de tempo murmurei.
Está bem.
Não prometo como será.
Percebo.
Virei-me a olhá-lo. Ele olhava-me como se tivesse muito para dizer, sem saber como. Ou sem coragem.
Diz-me só uma coisa pedi.
O quê?
Queres ficar aqui?
Ficou uns segundos quieto. A chuva batendo nos vidros.
Quero respondeu. Quero.
Olhei-o. Aquele homem, que morava na minha casa, sabia o meu nome, escrevia a nossa vida num bloco, não lembrava o Mondego, mas segurava a chávena tal qual o meu António.
Então vai comprar pão disse. Saloio. Na Padaria do Zé.
Acenou. Vestiu o casaco, foi até à porta.
Carla…
Sim?
O Mondego. Vais contar-me um dia?
Demorei a responder.
Talvez, disse.
A porta fechou-se. Fiquei à janela com o café. Ouvia-lhe os passos pela escada. Quatro andares, dezasseis degraus por lanço. Eu costumava contar.
Dezasseis.
Saiu para a rua. Vi-o ao longe, subiu a gola do casaco por causa da chuva. Homem vulgar num dia vulgar de chuva.
Dobrou a esquina para a Padaria do Zé.
Fiquei a segurar a chávena, sem saber o que pensar. Nem o que sentir. Dentro de mim só silêncio, finalmente, não paz, nem alívio só uma pausa depois de tanto ruído, onde já não precisava fingir que não procurava respostas.
Telefone vibrou. Dora.
Estás bem? perguntou logo.
Não sei.
Falaram?
Sim.
E então?
Olhei a esquina do quarteirão. Ele já lá não estava.
Dora, conseguías viver com alguém que não lembra quem é?
Pausa.
Ele disse-te isso?
Mais ou menos.
Carla, leva-o ao médico. Isto resolve-se noutro sítio, não na cozinha.
Eu sei.
E agora?
Pousei a chávena no parapeito.
Agora foi comprar pão.
Que pão?
Saloio. Da Padaria do Zé.
Dora ficou em silêncio.
Assustas-me.
Está tudo bem, Dora. Falo contigo depois.
Guardei o telemóvel, peguei na chávena, bebi um golo. Morno, mas bom.
Dezasseis degraus. Nunca me esquecia.
Vinte minutos depois a porta bateu abaixo. Passos na escada. Dezasseis degraus novamente.
Mantive-me quieta.
A chave virou no canhão.
Aqui está disse ele. Saloio, foi o último.
Olhei. Estava ali, de pão na mão, cabelo molhado e colado à testa.
Põe na mesa pedi.
Pôs.
Olhámo-nos.
Queres chá? perguntei.
Quero.
Fervei água. Trocou o casaco molhado pelo cabide, sentou-se. Fiquei de costas, sentia o silêncio, sem ser pesado. Só silêncio.
Carla, disse baixinho, contas-me o que aconteceu no Mondego?
A chaleira começou a zunir, baixo, cada vez mais forte.
Fiquei ali a pensar.
Agora não disse. Talvez mais tarde.
Está bem respondeu.
A chaleira começou a apitar.
Às vezes precisamos aprender a viver dentro de perguntas para as respostas poderem, um dia, chegar.
