O Livro Inacabado
Pronto, Beatriz, estou de saída! Não venhas atrás. Vou chegar tarde! Prepara-me a camisa e as calças azuis para amanhã, não te esqueças! E passa na lavandaria para ir buscar! gritou do hall o António, vestiu à pressa o sobretudo, parou um instante a olhar-se ao espelho com atenção, apanhou o chapéu e saiu, fechando a porta com força.
A porta bateu tão rijo que o vidro da janela aberta tilintou.
Corrente de ar…, pensou Beatriz Maria, desligando a água, enxugando as mãos no avental e espreitando pelo vão da porta da cozinha. Tudo como sempre o corredor inundado de sol, a terminar na entrada, as fotografias nas paredes, o papel de parede às riscas alegres duas largas, duas finas, azul suave; o casaquinho dela no cabide. E…
Beatriz Maria franziu o sobrolho.
O embrulho! O marido esqueceu-se do embrulho e era ali que estavam os pastéis! Ela própria os fez ainda o sol não tinha nascido, recheados de cebola e ovo, exatamente como o António gosta. Fez de propósito para hoje: o António ia para fora de Lisboa, e lá não se arranja comida decente, e nada como comida de casa!
Depressa largou o avental, deu um jeito ao cabelo, e já no vestido caseiro com manga curta e uma mancha de café na barra, agarrou o saquinho ainda quente ao peito como se fosse um bebé e saiu a correr de casa, felizmente lembrando-se das chaves que é que seria se ficasse trancada fora?! Desceu as escadas quase a voar, agarrada ao corrimão, liso e envernizado, serpeando entre andares quarto, terceiro, segundo…
Beatriz podia perfeitamente, como tantas donas-de-casa, chamar pelo marido da janela quando o visse sair do prédio, mas achava aquilo pouco digno. Ela mesma havia de ir entregar-lhe o embrulho, despedir-se com uma beijoca na face, ele há de acenar, pois já está na hora.
A correr, ficou ofegante, saltou pelo portal do prédio para o pátio, batendo a porta contra a parede com tal força que parecia ter dezoito anos e não quarenta e nove, idade em que os joelhos já não ajudam.
Olhou rapidamente, procurando o António no seu sobretudo cinzento e chapéu claro.
O António gostava de sobretudos compridos, abertos e a esvoaçarem ao vento, e chapéus que só ele tinha, para todas as estações. Beatriz tratava deles com mil cuidados, limpava, comprava novos quando algum se gastava. Uma palavra: zelo.
Chapéu é elegância! resmungava o António, quando o filho, Manuel, que tinha o nome do avô, se ria do pai. A vossa geração não entende nada; tudo gente de plástico e de borracha…
Onde anda o António?
Ali vai ele, a sair do portão, desaparecendo entre a luz e o ruído da rua. Se Beatriz não se apressa, o marido apanha o autocarro e…
E lá vai ela, deslizando no asfalto, acenando às vizinhas mais antigas sentadas nos bancos ao sol. Elas seguiam-na com os olhos, sorrindo, a celebrar o amor, a felicidade doméstica.
O que se passa, menina Beatriz? perguntou dona Gertrudes, vendo Beatriz afastar-se apressada.
O almoço! O António esqueceu, são pastéis por causa da viagem! respondeu Beatriz, sem olhar para trás.
Dona Gertrudes acenou, rindo: pastéis eram coisa boa; amor então, nem se fala.
Entretanto, Beatriz saiu à rua, quis chamar, mas… ficou parada, com os ombros caídos como se alguém tivesse apagado o sol e deixado o ar mais pesado. Deu-lhe uma tontura, agarrou-se ao cano de águas pluviais.
O António estava na paragem de autocarro, de lado para ela, segurando pelo braço uma rapariga nova de formas generosas, que ria e se ajeitava, enquanto António olhava para ela e ria também. Um instante depois, ela afastou-o de um safanão, olhou-o com desprezo, e ele… Ele, assustado, quase submisso, curvou-se, quis agarrar-lhe a mão para talvez beijá-la. Mas a jovem soltou-se, pareceu até dar-lhe uma resposta seca; o António, constrangido, ainda tentou agradar, deu-lhe um rebuçado do bolso; a senhora, como Beatriz pensou para si mesma, abriu a boca como quem aceita o agrado.
Beatriz mal conseguiu conter o enjoo. Meu Deus! António, homem feito, respeitado, quase idoso já e… feitos meninos pelos encantos de uma rapariga. Uma vergonha.
A rapariga levava um vestido de verão azul, salpicado de bolinhas brancas, tão pequenas que faziam doer os olhos. Uma fita azul, igualzinha no cabelo, cabelo apanhado com capricho, sandálias nos pés.
Beatriz olhou-a, sem saber o que fazer com o embrulho, aqueles estúpidos pastéis e talvez até a própria vida…
Chegou o autocarro, a multidão entrou, António ajudou a rapariga e subiu com ela, as portas fecharam-se.
Quando o autocarro arrancou, Beatriz teve a impressão de que o marido olhava diretamente para ela. E de repente sentiu vergonha: do vestido de casa, das pantufas gastas, do embrulho de papel pardo com os pastéis.
Deu meia volta, atravessou o pátio onde as vizinhas agora estavam de vestidos leves, já debaixo das árvores, quase tropeçou em dona Gertrudes junto aos canteiros.
Não chegaste a tempo, Beatriz? perguntou esta, olhando para o embrulho nas mãos da vizinha, chamando-lhe cuscuzinhas para não aprovar tal zelo da Beatriz ao marido.
Não cheguei, respondeu Beatriz, dispersa.
Vai ser um desperdício, assentiu dona Gertrudes. Mando o Armando cá, ele adora pastéis e nem gosto de ligar o forno… Estás em casa hoje?
Beatriz acenou, sem convicção.
Pronto, ele vem cá buscá-los. Espera por ele.
Dona Gertrudes ficou de olhos semicerrados e foi em direção ao trator que acabara de entrar no pátio, aos gritos com o condutor para não esmagar as pétunias dela.
Mas a Beatriz entrou em casa, subiu o frescor da escada, e o eco dos seus passos misturava-se com uma vontade de chorar que lhe enchia o peito, até se perder dentro da cozinha.
Acabou-se. Fim de lume, aconchego, confiança, fim da crença nas pessoas não, nas pessoas não, que isso é demasiado geral. Mas o marido… O marido era a sua âncora, uma confiança que um dia lhe confiaram, com o dever de cuidar, de proteger. E agora, o que seria dela?
Beatriz sentou-se pesadamente no banco da entrada; os pastéis caíram do saco para o chão. O gato, Gaspar, aproximou-se, começou a esfregar-se-lhe nas pernas, miando por comida. Ela nem se apercebeu dele. Os olhos continuavam presos à imagem do vestido azul às bolinhas, da sua dona, do António. As lágrimas deslizavam, suaves, naquele choro silencioso de quem finalmente se permite não segurar a pose, não sorrir à força, mas chorar, simplesmente, e sentir a dor…
Não sabe quanto tempo passou. Só quando ouviu a porta da rua a ranger, o Gaspar fugiu dali, assustado.
A porta rangia, e apareceu a cabeça do senhor Armando, marido de dona Gertrudes, figura robusta de nariz marcante, rosto às manchas, lábios grossos e caracóis brilhantes. Tinha ar humilde, deslocado entre aquela vizinhança; mas era dali, dizia o António: pintor, e com talento; os artistas são todos meio doidos, se não fossem, seriam normais.
Beatriz limpou as lágrimas com a mão e olhou para os olhos claros e grandes do visitante. Se ele não fosse pintor, podia ser padre, pensou, de tão serena que era a expressão.
Senhor Armando? É o senhor?
Pareço outro? perguntou com simplicidade. Vim pelos pastéis. A Gertrudes disse que lhe sobrou, temos obras na cozinha, ela trocou os móveis, já não liga o forno…
Suspirou, cabendo-se bem no retângulo de sol que o chão desenhava.
Deixa só tirar os sapatos, apressou-se, num português campónio, estão molhados, enfiei o pé numa poça, e tiro as meias também! explicou, apontando para os pés, Beatriz baixou os olhos por cortesia. Meias normais, da loja à esquina, só tinham um pequeno buraco no dedo grande.
Beatriz levou os sapatos molhados para a marquise, nem se deu conta. Armando era intransigente.
Deixa aqui, mulher! retorquiu, não quero que mexas! O corpo é meu, quem decide sou eu!
Mas ela não se importou. Não deixaria um convidado ir-se embora com os sapatos encharcados!
Quando voltou, ouviu barulho na cozinha, Armando já mexia nos copos.
Beatriz! Um chá, por favor! Que saudades de um chá escuro, com limão. Prepara, vizinha! Estou carente… E esticou os pés, largos, no caminho dela.
Já faço! respondeu ela. O pensamento era uma confusão só.
António… O marido… Como é que ele podia? Mal vira costas a casa, já enfeitiçado por outras!
Tentou racionalizar, Nada, cruzaram-se por acaso, são colegas talvez… Quando ele vier, acolhe-o, cuida dele, dá-lhe calor, e esquece essa mulher.
Armando franziu o sobrolho.
Vais dar-me chá velho? Isso está errado! Nova água, para o convidado! agarrou o pequeno bule de porcelana, espreitou, torceu o nariz. Não, querida. Vai fora!
Mas é fresco, veja tentou Beatriz, mas acenou e lá trocou a água.
Isto era fácil. O que era difícil era… António. Como viver assim?
O bule chiou, a água verteu-se, espalhou aroma a chá indiano pela cozinha.
Isso, agora sim! Mas serve-me na chávena de porcelana boa, aquela azul com filigrana dourada. pediu ele, sorrindo malicioso.
Temos serviço novo, o António trouxe de Évora, muito prático, vai ver respondeu Beatriz, mas estremeceu quando Armando bateu com a mão na mesa.
Quero das azuis antigas! Sempre bebi dessas. E quero os pastéis no prato bonito. Não naquele lascado! E enquanto como, cose-me as meias, que a Gertrudes não se rala, está com os móveis. E largou as meias no colo dela.
Beatriz, mulher instruída e respeitada, professora reformada, deixou escapar um olhar crítico. Mas, automaticamente, já se inclinava para apanhar as meias e cosê-las.
Armando, reparando na hesitação, bateu na mesa com força.
Mas que é isto, Beatriz Maria?! Já não se dá valor? Deixas que eu te mande, como uma rapariga qualquer? É o que a Gertrudes me dizia e eu não acreditava! Lembro-me de ti tão elegante, senhora de si! Passavas no pátio e até os pardais se calavam! Agora deixas que te enxugem o soalho com o teu nome? Uma tristeza!
Com um gesto largo, parecia preencher a cozinha. As chávenas tilintaram, os pastéis tombaram de lado.
Mas porque vens aqui, diz-me? Para que me amargas? Não quero ouvir mais! O António, na paragem, com outra… Corri atrás dele para lhe dar os pastéis, e eles… As lágrimas recomeçaram.
O silêncio foi total. Nem as cortinas se mexeram.
Armando suspirou.
É por isso mesmo que ele procura outras. Antigamente, eras altiva, firme, tinhas pulso e decisão, até eu te achava uma deusa, mesmo com a minha Gertrudes sempre bela, não havia mulher como tu… Agora, embrulhas pastéis, corres atrás dele, és uma mãezinha, não uma esposa! António, põe o boné! António, toma o lanche! António, vou eu buscar as batatas!… imitou-a Armando.
Beatriz primeiro sentiu-se ferida, depois quase se riu. Era exactamente assim.
Sou uma galinha, não é verdade? Não respondas, eu própria reconheço. Mas gosto de cuidar. Gosto mesmo…
Mas, Beatriz, desse cuidado depende o fogo de um homem. Nós somos caçadores, queremos paixão, não só aconchego. Os pastéis sabem bem, mas sem exageros! O teu filho saiu de casa, transferiste o afeto todo para o António. Ele procura alegria em outras, sentindo-se jovem. Percebes?
Não percebia. Ou não queria perceber. Tanta dedicação, e agora tudo parece em vão?
Reformou-se há dez anos, tornou-se fácil cuidar do António, nada de noites a corrigir testes ou stress, só o aconchego do lar. Depois, os alunos particulares até que António adoeceu, eles faziam barulho, podiam levar doenças… Ela dispensou-os.
Deixou de cantar, de pintar, porque o óleo para limpar os pincéis enjoava António. Arte posta de parte, os pincéis num fundo de gaveta.
E agora? E agora quem é você, Beatriz Maria? murmurou ao seu reflexo no vidro. Uma mulher apagada!
Manicure? Para quê, se há sopas a fazer.
Vestidos novos? Não saem, António chega sempre cansado do trabalho.
Sapatos novos? Já viste as varizes como sobem? gozou António um dia. Foram para o sótão.
As amigas pouco a contactavam, o filho vinha uma vez por mês, comia e pouco mais, ia-se embora carregado de caixas. E assim…
Então vizinha, não se afunde! Renove-se! Ainda está em flor, ainda é uma rosa! Levante-se, Beatriz! Senão, o António vai continuar a andar por aí nos elétricos da vida atrás de outras! rematou Armando, com um sorriso maroto. E os teus pastéis são um sonho! Se eu tivesse vinte anos…
E foi-se. Beatriz ficou sozinha…
…O António chegou tarde, cheiro a vinho e perfume. Meio amarrotado.
A conferência foi longa, disse da porta, entregando a pasta e esfregando as costas doridas. Serve-me chá. E faço questão de batatas, com um copo de aguardente. Beatriz, ouviste?
Beatriz não lhe pegou na pasta, pediu-lhe que se afastasse pois precisava colocar a mala em cima do aparador.
Para onde vais tu? Que história é esta? perguntou o António ao ver a esposa arranjada, cabelo apanhado, brincos, um vestido bege elegante e sandálias. Ficou atónito.
Vou de viagem de trabalho. Vais-te safando sozinho, com ou sem lágrimas, encolheu os ombros Beatriz.
E as batatas? E a camisa, quem passa?
Beatriz hesitou, pareceu que ia ceder, mas encolheu os ombros de novo.
Tu. Ou chama a outra. Se és mais feliz assim, força. Adeus, António. Chegou a minha vez.
E saiu, mala em mão, embaraçada pela pega desconfortável. Mas logo fez o eco dos saltos nas escadas, viu-se o vestido nos degraus, e o táxi que bufava na rua levou-a embora.
O António correu às escadas, quis gritar-lhe, mas só lhe saiu um grunhido, sentiu uma dor aguda nas costas e lágrimas nos olhos.
Bei…bei…Beatriz…, só conseguiu sussurrar.
Onde estás, Beatriz?… Agora, desta vez, só ela saberia relaxar-lhe as costas, tratá-lo, aconchegar…
Filipa? És tu? gemeu para o telefone, com dores. Preciso de ajuda, Filipa, dói-me tanto as costas… E ainda nada para comer! Não te importas de vir cá? Somos amigos…
Mas o telefone respondeu-lhe com tom seco que para chamar médicos era outro ramal, e desligou-lhe com toques curtos. Filipa não vai; Filipa é demasiado dona de si. Não é Beatriz. Nunca será. Um desastre…
Arrastou-se até à cozinha, viu os pastéis frios, suspirou. Não é pesadelo, é tragédia. E ele próprio fez isto acontecer…
…Beatriz Maria regressou no dia seguinte, com o médico e um ramo de rosas que ela mesma comprou. O perfume dela, misturado com um leve cheiro a tabaco. Sim, Beatriz, às vezes fumava, nos momentos de maior ansiedade.
Espere, doutor, não injete já! disse ao médico.
O marido queixou-se, sem alívio à vista.
O que se passa? perguntou o médico.
Diga-me, António, o que prometeu àquela mulher? Mulheres assim não aparecem só porque sim; para ela és demasiado velho, indagou ela, curvada sobre o rosto suado do marido.
Não sou velho! Estou na flor da idade…
Da reforma, rematou o médico. Então, o que prometeu?
Cargo. E promoção académica. Mas ela não vai ter nada! Enganei-me tanto nela, Beatriz, só tu, preciso só de ti! choramingou António. Desculpa!
Vai ter sim. És homem, cumpre a palavra. Ela fica com o cargo e o título. E tu sais do teu emprego. Arranjas outro, onde quiseres. Ah, e para a semana volto a dar aulas. O ferro de passar está na estante, as camisas na roupa suja. Não gostas, divorcia-te. Percebeste?
António concordou com a cabeça e gemeu. A dor era insuportável, Beatriz parecia nem se importar, o médico estava claramente do lado dela, e Armando, à porta, espreitava, com ar de quem tinha pena e troça ao mesmo tempo.
Percebi, matem-me lá isso, se não ainda morro aqui!
Beatriz assentiu, satisfeita. O médico tratou dele…
…Filipa estava radiante, a sua tese, feita à pressa, passou com distinção; ganhou o lugar e a promoção prometida. E lá estava o António, ingénuo e tonto, a quem devia tudo aquilo.
Filipa agora nem lhe respondia, desviava o olhar. A mulher do António deixou claro que pode tirar-lhe tudo; se Filipa se meter em problemas, ficaria sem nada. Arranjará outro.
E o António, esse, demitiu-se. Todos se espantaram, ninguém percebia. Só uma vez comentou que era pelo compromisso que tinha. Com quem, e sobre o quê, não explicou.
Na despedida, ofereceu um jantar com os colegas, levou Beatriz de braço dado, a brilhar, dançaram um tango e olhou-a como nunca olhou para Filipa. Porquê? O que tem aquela Beatriz Maria de tão especial?
Em Beatriz estava tudo. Ela era o ar mesmo que António respirava, mas ninguém dá valor ao ar só sente no vazio. Quando ficou sem ela, percebeu o que perdera. Não eram só as costas ou a companhia. Beatriz era ainda aquele livro intocado, misteriosa e doce como um morango maduro na praia de Sesimbra, como aqueles que ele levava à jovem mulher que fora. E talvez nunca chegue a ler-lhe a última página. Assim seja!
Filipa simplesmente não lhe chegou. Talvez nunca chegue a ninguém. A vida mostrará…
Moral da história: O verdadeiro valor de quem nos ama só se revela na ausência. Se não soubermos cuidar de nós para além do outro, arriscamo-nos a perder tanto o outro quanto a nós próprios. O amor cresce de liberdade, respeito e admiração, não só de rotinas e sacrifícios silenciosos. E há sempre tempo para virar a página, recomeçar.
