Rui, estas gatas vivem aqui desde os tempos em que ainda nem sequer nos conhecíamos. Porque razão haveria eu de me desfazer delas? perguntou Leonor, num tom frio. O que tu me pedes chama-se traição
Leonor vivia numa vila pequena, envolta em verdejantes jardins e sombras densas de plátanos centenários. No verão, as ruas desapareciam debaixo do dossel das árvores, e os canteiros floresciam desde o início da primavera até ao final do outono, perfumando o ar com notas doces. Ali, era fácil pensar na vida, na felicidade e no que realmente importa
A mãe da Leonor partira cedo, e foi a tia-avó, Filomena Rodrigues, quem criou a menina. A vida pessoal de Filomena nunca se concretizou; para uma mulher discreta, coxa de nascença, não apareceu ninguém que lhe dedicasse amor verdadeiro. Toda a ternura que lhe sobrou repartiu pela sobrinha-neta. Leonor adorava a tia e chamava-lhe simplesmente mãe Filomena.
Mãe Filó, olá! Já cheguei a casa ecoava a voz viva da Leonor, vinda do corredor, depois da escola, dos passeios, e mais tarde do instituto.
Minha filha, minha doçura! Conta-me as novidades.
Leonor aprendeu a ler cedo mãe Filomena dedicava-lhe muito tempo, lia-lhe em voz alta, sobretudo livros sobre animais, aves e insectos. Eram tradições só delas, essas noites partilhadas com histórias.
Quando Leonor tinha uns doze anos, um dia apareceu em casa com um gatinho a miar.
Mãe Filó, ele está tão triste Pequenino, sozinho, ninguém lhe quer saber e a voz dela tremia, a rebentar em lágrimas.
Leonor, filha, que tal ficarmos com ele? respondeu Filomena, abraçando-a.
Assim chegou a casa a Tica. Anos depois, foi a própria mãe Filomena que trouxe outro pequeno amigo.
Sabes, Leonor, deixaram uma caixa com gatinhos mesmo à porta do meu trabalho Nem dá para acreditar, não é? Lá no escritório, cada uma levou um suspirou, pousando os sacos no corredor.
Mãe Filó, agora temos duas gatinhas! Que maravilha!
Leonor recebeu o novo membro da família com uma alegria desmedida. Tica, inicialmente, olhou de lado para a recém-chegada, depois aproximou-se, farejou-a, pegou-lhe gentilmente pela pele do pescoço e saltou para o sofá, onde começou a dar-lhe banho, como se à sua cria se tratasse.
O tempo passou. Leonor foi assumindo cada vez mais responsabilidades: limpava a casa, cozinhava, fazia as compras. Sabia de cor os medicamentos da mãe Filomena, conhecia todos os médicos e acompanhava-a sempre ao centro de saúde. As duas estavam bem liam juntas, conversavam sobre filmes e peças de teatro, eram confidentes de tudo.
Foi numa exposição de ilustração em Lisboa que Leonor conheceu Rui. Nunca lhe escondeu nada, contou sobre a mãe Filomena e as gatas. Filomena, aquando do primeiro jantar, sentiu um ligeiro desconforto: o rapaz pareceu-lhe um tanto distante. No entanto, convenceu-se de que era só receio ou talvez um bocadinho de ciúme da afilhada.
O mais importante era a felicidade de Leonor. Por isso, deixou-a ir à sua vida. Leonor e Rui alugaram um apartamento juntos e começaram outra etapa.
Leonor passou a visitar mãe Filomena duas vezes por semana às terças e aos sábados. Ao sábado, insistia para Rui ir com ela, mas ele arranjava sempre uma desculpa para não acompanhar.
Leonor, aquelas gatas Entende: o cheiro, o pelo, as tigelas. Como é que viveste naquela casa?
Rui franzia o nariz, cerrava os lábios, enquanto Leonor se ria, tentando levar tudo na brincadeira.
Ó Rui, nem imaginas quanta alegria elas trazem!
Alegria? Que alegria é essa?
São tão engraçadas! Ficam ouriçadas quando brincam uma com a outra, ronronam, correm atrás das pantufas, adoram fitas coloridas e ratinhos de brincar. E quando adormecem encostadas ao peito, nem te digo como ronronam!
Não gosto delas, Leonor. Não leves a mal dizia ele, carrancudo. Aquela casa é só limpeza, conversas Preferia ficar em casa. Faz mas é algo saboroso para o jantar, vou ter saudades tuas
Com o tempo, mãe Filomena foi perdendo saúde. Leonor começou a passar lá quase todos os dias, depois do trabalho. Propôs a Rui mudarem-se para a casa da tia, mas ele foi perentório no não, deixando Leonor dividida entre as pessoas que mais amava.
O trabalho em casa avolumava-se: a roupa para lavar era diária, os soalho requeria lixívia, o cheiro da doença e da velhice tornava-se omnipresente. Leonor preocupava-se antevia o inevitável.
Mãe Filomena partiu suavemente, ao amanhecer. Nessa noite, Leonor ficou com ela, conversaram em sussurros, depois Leonor leu-lhe um livro em voz baixa. Ficou com a luz de presença acesa e deitou-se no sofá.
Acordou com o chilrear das andorinhas no beiral. Espreguiçou-se, lavou a cara e entrou no quarto:
Mãe Filó ó mãezinha
Pegou no telemóvel.
Rui, a minha mãe Filomena partiu a voz cheia de lágrimas despertou-o do sono.
O funeral deixou um vazio imenso na alma de Leonor. Perdera a última família de sangue. Nessa manhã, encontrou no chão do quarto um envelope. Dentro, estava o testamento da casa e uma carta.
«Minha querida Leonor:
Sei que te dói. Já ninguém te vai abraçar, nem beijar. A tua mãe partiu quando eras uma menina, e nunca tiveste pai. Fui só eu.
Adoro-te, minha menina! Não te esqueças disto. Em qualquer momento triste ou feliz, lembra-te de mim.
A casa agora é tua, sempre foi, mas agora é de verdade. É bom uma rapariga ter um cantinho seu, mesmo modesto, mesmo um pouco gasto.
Leonor, só te peço uma coisa cuida bem das minhas velhotas. A Tica e a Lira, agora ficam só contigo.
E sê feliz! Amo-te.
A tua mãe Filomena»
Leonor chorava ao reler o bilhete, uma e outra vez. Acariciava as gatas, abraçava-as, murmurava palavras doces. Sentia-as como família, tanto quanto tinha sentido mãe Filomena.
Decidiu mudar-se para a casa da tia-avó. Precisava pôr tudo em ordem, criar o seu mundo, cuidar das gatas e reconstruir-se.
Rui recusou acompanhá-la.
Leonor, fiquemos uns tempos separados. Com as tuas gatas não consigo mesmo. E ainda por cima esse cheiro os olhos azuis dele escureciam.
Custou-lhe, mas a dor do luto abafava todas as outras.
Pouco a pouco, Leonor foi encontrando paz. Brincava com as gatas, relia os seus livros preferidos, trocou as cortinas, lavou todos os tapetes. Os encontros com Rui rarearam, o tempo aliviava o peso da ausência.
Certo dia, tocou à campainha.
Rui? Olá. Entra disse ela, com um sorriso.
Leonor, senti saudades! abraçou-a com força. Que casa tão acolhedora! E não cheira mal! Já te desfizeste delas?
Leonor afastou-se de repente.
O que queres dizer com desfizeste?
As tuas gatas, as da velhota cheira mal, lembro-me disso reclamou Rui, entrando na sala.
Estão aqui? Ainda as tens?!
Tica brincava tranquila com o rabo, Lira lavava-se preguiçosamente.
Rui, estas gatas estavam aqui muito antes de te conhecer. Não sou capaz de lhes virar as costas respondeu Leonor, fria.
Vá lá, não sejas teimosa. O melhor era renovares tudo: obras, móveis, casa de banho e livrares-te das gatas.
Aproximou-se dela, fitando-a fixamente. Leonor não desviou o olhar.
Rui, isso que tu me pedes é traição.
Não sejas sentimental Podemos entregar as gatas a uma associação. Eu até pago para as manterem lá. O que interessa é que saiam!
Vas pagar?! Não entendes Eu preciso delas tanto quanto elas de mim. Esão a minha família!
Leonor, não compliques. Pensa antes em ti: carreira, casamento, filhos já não tens idade para gatos.
Decide-te. Ou vives comigo, ou com as gatas.
Rui falava seguro, quase paternalista, convencido de que a escolha era óbvia. Mas o silêncio de Leonor começava a incomodá-lo. Ela não brilhava de expectativa, nem tremia de indecisão estava simplesmente esgotada e distante.
Rui não atingia: para ele eram só gatas velhas, incómodas. Não percebia que para Leonor eram um pedaço da mãe Filomena, do passado, da casa, do coração.
E Leonor percebeu finalmente: não conseguiria viver oprimida, sob exigências e frieza. O aperto entre ambos era mais forte do que o seu amor por ele. O amor não resiste a ultimatos.
Como pensar numa família com alguém capaz de exigir o abandono de quem tivera com a mãe Filomena?
Rui, vai embora. Preciso de estar sozinha. Ainda não recuperei da morte da minha mãe Filomena e tu impões condições. Vai-te embora.
Eu vou! Mas pensa bem, não corro atrás de ninguém!
Saiu bruscamente e bateu a porta com tal estrondo que os copos na cristaleira tilintaram. As gatas assustaram-se e saltaram do sofá, e por dentro Leonor sentiu uma dor aguda.
Sentia-se triste, mas algo lhe aliviava o peito. Sentou-se no sofá, abraçou as peludas velhotas, enterrou o rosto nelas:
Minhas pequeninas! Não vos vou dar a ninguém! São a minha família! Mãe Filomena, ouves-me? Eu a-ninguém-as-vou-dar!
Alguns dias mais tarde, ao voltar do trabalho, Leonor viu Rui parado à porta do prédio, de olho nos seus cortinados de casa, esperançado.
Quando ela apareceu, ele avançou apressado. Mas Leonor, erguendo a mão num gesto firme, passou calmamente ao lado.
Não, Rui. Fico com as gatas! disse serena e subiu as escadas.
A porta fechou-se atrás dela, encerrando a história entre uma rapariga com coração e um jovem egoísta.
As gatas viveram até ao fim dos seus dias, cada ronronar, cada passada pela casa, recordando à Leonor a mãe Filomena, as memórias ternas da infância e juventude.
Família não é só laço de sangue, é o vínculo dos que amamos. É cuidar, apoiar, estar presente é amar sem condições, sem trocas frias.
E onde mora amor verdadeiro, não cabe traição. Só cabe lealdade e compreensão.
Afinal, limpo é o lugar onde não se suja, e quente o lar onde o coração arde.
E quando ao nosso lado ronrona serenamente o nosso pequeno reactor de afectos, aí sim, a casa transforma-se num verdadeiro lar.







