O irmão do meu marido veio “passar uns dias” cá em casa e acabou por ficar um ano – tivemos de o pôr…

Tens de perceber, a vida dele está atravessar um momento difícil. Foi posto fora de casa pela mulher, perdeu o trabalho… Não o vou mandar dormir à Estação do Oriente, não é? O Sérgio olhava-me com ar culpado, a retorcer o pano da cozinha nas mãos. Parecia um miúdo que tinha acabado de partir a loiça favorita da mãe, quando na verdade só falávamos da visita do irmão dele.

A Mariana pousou os sacos das compras no chão e soltou um suspiro pesado. Os sacos iam cheios, o dia de trabalho tinha sido um caos fecho de trimestre, auditoria das finanças e, para ajudar, estava-lhe a dar nas costas. Discutir problemas do cunhado o Amílcar, que em quinze anos de casamento vi três vezes era a última coisa que me apetecia.

Sérgio, isto é um T2, não é um albergue da Misericórdia, resmungou ela, a tirar os botins. O Amílcar tem casa própria em Santarém. Porque não vai para lá?

Ele está a arrendá-la, para pagar o empréstimo da garagem que comprou ao filho. É um rolo, nem eu percebi bem. Diz que precisa de se agarrar a Lisboa, ver se arranja emprego decente. Pede só uma semana, Mariana. Ou dez dias, vá, enquanto vai a entrevistas.

A Mariana foi direita à cozinha, serviu um copo de água. O Sérgio veio atrás dela, olhos de cão abandonado. Bom marido, nunca levantava problemas, trabalhador, sempre a tentar agradar a todos. Só tinha um defeito: não conseguia dizer não à família, especialmente ao Amílcar, o eterno desamparado da casa, que toda a vida ficou com estatuto de menino especial.

Pronto, acedi, a pensar que não tinha energia para discutir. Uma semana então. Mas avisa-o: nesta casa há regras. Levantamo-nos às seis, dormimos às onze. Nada de noitadas ou amigos cá dentro.

O Amílcar chegou logo no dia seguinte ao jantar. Entrou pela porta com um saco enorme aos quadrados, a cheirar a balneário e vagão velho, como se as malas tivessem vindo sentadas ao lado de marinheiros. Era um tipo largo, barulhento, bem mais expansivo que o Sérgio.

Olha a dona da casa! trovejou ele, quase me abraçando (ela desviou-se por pouco). Agradeço a hospitalidade, prometo que quase nem dou por mim! Só preciso de um canto para o esqueleto e uma ficha elétrica, hã-hã.

Os primeiros três dias até correram bem. O Amílcar dormia no sofá da sala até ao almoço, depois saía à caça, dizia ele, para tratar de entrevistas e voltava para jantar. Mas, ao jantar, comia por três. Deu-me por mim a reparar que o tacho de sopa, que costuma durar três dias, voava num. As almôndegas para dois jantares desapareciam antes do pequeno-almoço.

Haja estômago! ria o Amílcar, a limpar o molho da frigideira com pão. O ar de Lisboa abre o apetite, fogo.

A Mariana não comentou, apenas pensou que tinha de começar a comprar mais comida. Afinal, estava lá um convidado, não ia andar a fazer contas ao prato.

No fim da semana, quando o prazo combinado já cheirava a fim, a Mariana perguntou ao jantar:

Amílcar, correu bem a busca de emprego? Já há alguma coisa?

O Amílcar fez cara de enterro, largou o garfo e falou sério.

Olha, Mariana, isto está impossível. Dizem cem mil euros por mês, horários flexíveis, mas depois é vendas piramidais ou entregar panfletos por dez tostões. E eu sou técnico, formação a sério, não posso enfiar-me em qualquer coisa. Mas há hipótese numa empresa boa disseram que ligavam segunda-feira. Fico só mais uns diazinhos à espera?

Mais uns dias, é? a Mariana olhou para mim. Fiquei calado, a remexer na salada.

Claro, não me vão pôr fora ao fim-de-semana, pois não? O Amílcar sorriu esperançoso. Podemos ir ao Benfica-Sporting, Sérgio, há quanto tempo não fazemos uma dessas?

Concordámos. O que eram mais dois dias?

Pois bem, segunda virou terça, terça virou quarta e a tal empresa nunca mais. O Amílcar começou a ficar em casa o dia inteiro. A Mariana chegava do trabalho e era sempre a mesma cena: sofá aberto, TV aos berros, migalhas e copos espalhados, e aquele cheiro pesado a desodorizante barato e cerveja velha.

Ligaste para os empregos hoje, Amílcar?

Liguei, mas a responsável está doente. Disseram para esperar mais uma semana. Ó Mariana, acabou-se a maionese? Ia fazer uma sandes e não encontro nada no frigorífico…

Aquele nós já me soava a facada. Não disse nada, mas comecei a ficar saturado. O Amílcar já tratava a casa como dele: usava o champô caro do Sérgio sem permissão, enrolava-se na manta especial da Mariana, mudava para futebol quando ela queria ver o jornal.

Passou um mês. A chuva lá fora virou lama, e cá dentro, o ambiente era igualzinho.

Uma noite, já farto, sentei com o Sérgio na cozinha enquanto ele consertava a torradeira.

Temos de conversar. A sério.

Sobre o Amílcar?

Sobre ele. Passou um mês e nada mudou. Não trabalha, nem procura trabalho. Mora no nosso sofá como se tivesse comprado quota. Eu já não posso atravessar a sala de robe que ali está sempre um estranho estendido. Isto vai acabar quando?

Mariana, já falei com ele. Diz que quase consegue. Só que lhe falta sorte. Eu não vou correr o meu irmão para a rua, percebes? A mãe não nos perdoava. Lembras-te sempre do que ela dizia? A família é para se ajudar.

A tua mãe, felizmente, vive em Braga e não vê a confusão em que estamos. Sérgio, estamos a gastar o dobro nas compras, as contas da água e luz dispararam ele até toma banhos de meia hora! Que ao menos contribuísse!

Não tem dinheiro, murmurou ele. Fiquei a saber há dois dias. Bloquearam-lhe os cartões por causa de dívidas ao banco.

A Mariana sentou-se, quase tonta.

Portanto, dívidas? E tu sabias?

Descobri agora. Diz que assim que arranjar emprego, paga logo.

Temos de aguentar mais um pouco. Foi o lema cá de casa durante meses.

A primavera veio e foi. O Amílcar não arranjou trabalho na construção queixava-se de uma hérnia; mas nos copos e no sofá ninguém lhe ganhava. Comecei a notar que o álcool da garrafeira desaparecia. Quando dei pela ausência da garrafa de aguardente antiga, oferecida ao Sérgio pelos cinquenta anos, foi a gota dágua.

Eu não toquei em nada! berrava o Amílcar. Fazes de mim ladrão? Se calhar foste tu a beber às escondidas, ou o Sérgio…

Não admito que fales assim com a minha mulher! tentou o Sérgio intervir, sem convicção.

Mantém a tua mulher na linha, pá! bufou-lhe na cara. Um copinho de licor custa assim tanto? Quando estiver bem, compro uma caixa!

Nessa noite, a Mariana deu-me o ultimato: ou o Amílcar saía até ao fim da semana, ou pedia divórcio e vendia o apartamento. O apartamento era de ambos, mas o sinal tinha sido dos pais dela, e era a Mariana que quase sempre pagava o crédito, porque era diretora financeira.

O Sérgio ficou apavorado. Foi falar com o irmão à varanda, fumar atrás de cigarro, e o Amílcar calou-se mais por medo do que respeito.

Parecia que ia finalmente embora: disse que já tinha arranjado um quarto em Odivelas, que mudava em duas semanas mal recebesse o primeiro ordenado de segurança, trabalho novo que arranjou.

Respirámos de alívio. Duas semanas passavam num instante.

Mas ainda estávamos a meio dos catorze dias, quando o Amílcar regressou a casa com o braço engessado.

Caí na escada, disse, cabisbaixo. Torci o pé e fraturei o braço.

Olhei para aquele gesso branco e percebi logo: acabou-se o trabalho de segurança. E de mudar de casa, nem falar.

Não me pões na rua assim, pois não? perguntou ele, olhos de desafio. Estava escrito na testa: descobriu o truque para ficar por cá.

O verão foi um pesadelo pegado. O Amílcar, a pretexto da doença, exigia assistência: Mariana, corta-me o pão, não consigo, Mariana, ajuda-me a lavar as costas. Na última, a Mariana respondeu-lhe de tal maneira que ele nunca mais pediu, mas a tensão aumentou.

O Sérgio refugiava-se no trabalho, arranjando serões e extras para não estar em casa. A Mariana começou a demorar-se mais nos cafés e no jardim, só para adiar a chegada a um apartamento ocupado pelo Rei Amílcar.

Assim se passaram seis meses. O gesso já tinha ido, mas o Amílcar continuava com dores e recuperações. A casa era dele: mudou móveis na sala, levou amigos estranhos lá para dentro quando não estávamos (uma vizinha contou-nos). Quando se queixávamos, respondia mal:

Têm que me ajudar! Sou irmão, há que cumprir a moral. Vocês têm um T3! (de facto, era só T2, mas ele fazia das contas à maneira dele). Não vos estou a incomodar no quarto!

A minha paciência rebentou em novembro, passados doze meses desse inferno.

Nesse dia, a Mariana sentiu-se mal no trabalho e voltou mais cedo. Assim que abriu a porta, ouviu música a altíssimo volume e gargalhadas femininas.

No hall havia botas de mulher sujas, uma gabardina barata. Na sala, uma cena digna de telenovela: comida toda nossa na mesa, uma garrafa de vodka começada e o Amílcar bem acompañado por uma loira pintada, ambos a fumar e a jogar as beatas para o tapete.

Olha a dona! murmurou o Amílcar, arrastando as sílabas. Estamos aqui a animar o ambiente. Apresento-te a Esmeralda, minha musa!

Na Mariana algo fez clique, uma frieza até então desconhecida.

Rua, disse ela, baixinho.

Quê? Mariana, não faças ondas. A Esmeralda vai já embora, olha que…

Rua, já. Os dois. Têm cinco minutos.

Estás maluca? gritou ele, inchando como um galo. Para onde queres que vá a esta hora? Esta casa também é do meu irmão! Tu nem conta tens! És cá uma…

E avançou para ela, a ameaçar. Mariana nem pestanejou, foi buscar o telemóvel.

Vou chamar a polícia.

Chama! gritou ele. Não me podem expulsar! Sou visita! O Sérgio deu-me autorização!

A Mariana ligou.

Polícia? Preciso de patrulha, por favor. Estranhos em minha casa, ameaças, álcool, não estão registados. Sim, sou proprietária. Aguardo.

A Esmeralda, ao ouvir polícia, limpou a olhos e fugiu apressada. O Amílcar ficou sentado, acendeu outro cigarro, a sorrir de lado.

Vai, chama quem quiseres. Quando o Sérgio cá chegar, ias ver…

No entanto, a Mariana foi à cozinha, telefonou ao Sérgio.

Chamei a polícia. O teu irmão trouxe cá uma mulher, fizeram uma festa, ameaçou-me. Se vieres defender, não voltes. Amanhã avanço com o divórcio.

O silêncio dos dois lados, depois ouvi um Sérgio exausto.

Estou a caminho. Faz o que achares certo. Já não posso mais.

Em dez minutos chegaram dois agentes. Um olhou para a sala, a fumarada, o Amílcar afundado no sofá.

Quem é o dono da casa?

A Mariana mostrou documento e caderneta predial. Tenho metade, e o meu marido a outra. Este indivíduo não está cá registado, recuso-me a tê-lo cá, é agressivo. Quero que saia.

O agente dirigiu-se ao Amílcar.

Documento, por favor.

Sou irmão do Sérgio! Tenho direito, fomos convidados!

A morada no seu BI é Santarém, não Lisboa. E a senhora proprietária não autoriza a sua presença. Tem que sair.

Não me podem pôr fora! O Sérgio já cá vem e confirma!

Quando ele vier, decidem. Entretanto, a senhora exige a sua saída, está visivelmente embriagado e há queixas de barulho dos vizinhos. Ou sai pelo próprio pé ou vai à esquadra passar a noite.

O Amílcar olhava para os polícias, para a Mariana, braços cruzados. Percebeu que ali já não havia desculpa. Se com o Sérgio sempre passava, com a polícia não fazia efeito.

Pronto, está bem… Fiquem lá com o apartamento, resmungou. Não me esqueço disto.

Demorou vinte minutos a fazer as malas, a rosnar, a bater móveis, a tentar riscar o chão de propósito. Os polícias vigiaram tudo.

Ao sair, o Sérgio apareceu. Parecia dez anos mais velho.

Sérgio! Diz-lhes! Esta tua… manda-me embora! Sou teu irmão!

O Sérgio olhou-o de frente. Deu com os olhos em mim, depois nos copos vazios, nas beatas, na garrafa.

Vai embora, Amílcar.

Como? Vais pôr-me na rua por causa dela?

Um ano a viveres às nossas custas. Mentiste-me. Maltrataste a Mariana. Transformaste a nossa casa num pardieiro. Aguentei-te porque és família. Mas hoje acabou. Vai para Santarém, ou para onde bem quiseres. Não te dou nem mais um euro.

O Amílcar ficou sem fala. Não esperava força daquele Sérginho.

Vão-se lixar! Família de traidores! Não quero saber de vocês!

Pegou na mala e saiu. Os polícias acompanharam-no até ao rés-do-chão.

A Mariana agradeceu aos agentes.

Feche bem a porta e mude as fechaduras, aconselharam. Gente assim gosta de voltar.

Assim que a porta bateu, o silêncio da casa foi ensurdecedor. O Sérgio abriu as janelas da sala para sair fumo e cheiro, e começou a apanhar bitucas do chão.

A Mariana aproximou-se e pousou a mão no ombro dele.

Desculpa, murmurou o Sérgio, de cabeça baixa. Devia ter feito isto há muito tempo.

O importante é que acabou, respondeu ela.

O fim-de-semana foi de limpezas: deitaram fora o sofá do Amílcar, impossível de recuperar, mudaram a fechadura, arrumaram tudo. O Sérgio tratou disso sem esperar pedidos.

O Amílcar ainda tentou ligar de números anónimos a pedir dinheiro, a fazer-se de vítima, mas o Sérgio desligou e bloqueou tudo.

A pouco e pouco, voltámos a sorrir em casa. A Mariana voltou a gostar de chegar, pois já cheirava a jantar e sossego, não a suor alheio. E o Sérgio percebeu a lição mais dura de todas: família é quem te respeita e cuida, não quem te espreme e usa.

Por vezes, só ao atravessar o inferno da convivência, aprendemos a defender as nossas fronteiras e a saborear como deve ser o nosso canto.

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O irmão do meu marido veio “passar uns dias” cá em casa e acabou por ficar um ano – tivemos de o pôr…