O filho não quer levar a mãe para morar com ele porque na casa só há uma senhora, e essa sou eu.

Isto não está certo! Afinal de contas, é mãe dele! Ele pode levá-la para casa! Estas palavras vêm dos familiares do meu marido. Sei que os meus próprios amigos pensam o mesmo, mas preferem não me dizer diretamente. O motivo é a situação complicada com a minha sogra.

Maria Amélia tem 83 anos, pesa mais de cento e vinte quilos e sofre constantemente de doenças. Porque não levas Maria Amélia para morar contigo? perguntou-me o meu primo há uns anos atrás É bom que a ajudes todos os dias, mas se alguma coisa acontecer à noite? Fica difícil para ela estar sozinha. O teu António é o único apoio dela.

É evidente que a avó será cuidada pelo único filho, pela única nora e pelo único neto. Nos últimos cinco anos, Maria Amélia não saiu de casa nem uma vez sequer. As dores nas pernas e o excesso de peso tornam impossível qualquer deslocação. Tudo começou há trinta anos. Naquele tempo, a minha sogra era cheia de energia, jovem, saudável e muito autoritária.

Quem trouxeste para mim? indignou-se a mãe do meu futuro marido, António. Foi para isto que sacrifiquei a minha vida inteira?

Depois destas palavras, fomos em silêncio até ao autocarro. Na altura, a mãe do meu marido vivia numa urbanização prestigiada nos arredores de Lisboa, numa casa grande e bonita. O seu marido tinha um cargo importante, então Maria Amélia viveu confortavelmente, mesmo depois de ficar viúva. Nesse dia, António correu atrás de mim e acompanhou-me. Sempre tive sorte com o meu marido: nunca seguiu cegamente a opinião da mãe, mas sempre a respeitou. Procurava tranquilizar-me, dizendo que era apenas o temperamento dela.

Após o casamento, começámos a poupar para comprar o nosso próprio apartamento. António partiu por motivos de trabalho e só regressou seis meses depois. Aos poucos conseguimos comprar uma moradia e depois acabámos de a renovar. Não visitámos Maria Amélia frequentemente. Ela aproveitava para dizer coisas desagradáveis sobre mim ao António e a toda a família. A minha nora não deixa ajudar a mãe dela! Mas como assim não deixo? E assim por diante.

Decidiu mudar-se para a cidade, mas o dinheiro que obteve com a venda da casa não era suficiente. Pediu-nos para contribuir e prometeu que o apartamento seria deixado de herança ao nosso filho, o neto. Mas no dia da escritura, mudou de ideia e afirmou que a casa deveria ficar para ela, pois uma amiga lhe disse que assim as avós não ficam desamparadas. Depois disse que só deixaria o apartamento a quem cuidasse dela na velhice. Queria ser a dona da casa! Disse que a íamos enganar e deixá-la sem nada.

Já passam quase vinte anos desde esse episódio. Todos no escritório do notário ouviram as lamentações dela, mas sentimo-nos muito desconfortáveis. Decidimos desistir. Mudou-se quase imediatamente e não permitiu sequer pequenas obras de renovação. Viveu lá cerca de um mês e logo começou a queixar-se de que tudo era velho, a cair e a avariar-se. A minha sogra culpava-me por tudo: Ela arranjou-me o apartamento errado e quis enganar-me.

Maria Amélia adorava os filhos do primo, mas ignorava o próprio neto. Fingiu até não lembrar a data do aniversário dele! Há uns anos, ficou doente. Ganhou tanto peso que mal conseguia andar na casa. Levei-lhe comida saudável recomendada pelo médico. Maria Amélia, no entanto, protestava e recusava-se a comer, dizendo que só a prima dela a alimentava bem e que eu a deixava passar fome.

No ano passado, o meu marido pediu-me para levar a mãe para nossa casa. Segundo ele, a mãe percebeu tudo e já tinha aprendido a seguir as ordens do médico.

Está bem concordei. Mas tracei algumas condições: a cozinha ficaria apenas comigo, eu decidiria o que se come e não queria que os primos dela viessem.

A sogra ficou ofendida e recusou-se a vir, pois pensava que ia chegar e mandar lá em casa. Mas, na nossa casa, há só uma dona: eu! Acabei por visitá-la, fazer limpeza, cozinhar, até dormir lá algumas noites. E a prima favorita dela só se preocupava ao telefone.

Minha sogra continuava a queixar-se ao telefone: A tua mulher não me dá doces nem enchidos. Dá-me bolos! Mas essa prima, alegando falta de tempo, adiava sempre a visita, embora vivesse três vezes mais perto do que eu. Só aparecia uma vez por mês trazendo alguma porcaria, enquanto eu cuidava dela diariamente.

Um dia, Maria Amélia ligou à prima para reclamar que o colar e a cruz tinham desaparecido. Ela lá explicou que ambas tínhamos ido visitar nesse dia, mas tinha certeza que fui eu que os tirei.

Sem dizer nada, coloquei o almoço na mesa e apanhei o colar e a cruz, que tinham caído da mesinha de cabeceira. Em casa, contei tudo ao meu marido e decidi não ir mais lá. Propus enviá-la para um lar de idosos. António concordou.

No final, fiquei a pensar no valor que temos de dar aos nossos próprios limites: cuidar é um acto de amor, mas só funciona se houver respeito mútuo. E, muitas vezes, é preciso coragem para escolher o que é melhor para todos.

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O filho não quer levar a mãe para morar com ele porque na casa só há uma senhora, e essa sou eu.