O filho da Galina casou-se pela segunda vez há um mês

O filho da Dona Manuela casou-se pela segunda vez há um mês e trouxe para casa da nova avó a filha da sua nova esposa, uma linda rapariga de treze anos chamada Efigénia. Trouxe-a para passar uma semana inteira.

Antes de ir embora, a mãe da Efigénia sussurrou discretamente à sogra:

Veja, Efigénia nunca esteve numa aldeia. E o feitio dela não é dos mais fáceis. Compreenda, é uma idade complicada. Por favor, seja firme com ela. Se houver algum problema, ligue-me que eu venho buscá-la.

Mas o que quer dizer com se houver algum problema? perguntou Manuela sem entender.

A nova nora limitou-se a sorrir, deu-lhe um beijo na face, entrou no carro com o marido e foram-se embora.

Geni, vai buscar água, se faz favor pediu logo Dona Manuela, entregando-lhe um balde vazio.

Buscar onde? perguntou a rapariga, confusa.

Ao fontanário.

O que é isso?

O fontanário é uma torneira que está lá fora, mesmo à frente do portão. Pões o balde debaixo da bica, premis o manípulo, enches com água e levas para dentro.

Avó Manuela, está a brincar comigo? os olhos de Efigénia abriram-se de espanto. Em minha casa, a água tira-se da torneira na cozinha. Vocês têm torneira, não têm?

Sim, temos sorriu Manuela. Mas há uma semana que dela não corre água.

Porquê?

Porque o Sr. Esteves, o canalizador, teve de fechar o abastecimento na nossa rua. Disse que tem de trocar uma válvula qualquer. Por isso, por agora, temos de ir ao fontanário. Sempre lá há água.

Não Efigénia pousou o balde no chão. Eu não vou fazer isso. Torneira deve dar água, ponto final.

Muito bem encolheu os ombros a avó. Então agora vais lavar-te aqui. Levou a Efigénia até um grande barril recolhedor de água da chuva, debaixo da caleira. Tira um punhado de água da chuva e lava-te assim.

A sério, avó? admirou-se ainda mais a rapariga. Esse barril está cheio de bichinhos!

São larvas de mosquito. Não mordem explicou Manuela.

E para lavar os dentes, também uso esta água?

Claro. No lavatório não temos água.

Está bem, eu vou resmungou Efigénia, pegou no balde e, contrariada, dirigiu-se ao portão.

Voltou passados quinze minutos, a suar, e o balde nem chegava a meio.

Porque demoraste tanto? perguntou Dona Manuela.

Não sabia como pôr aquilo a funcionar. Um senhor que vinha a passar ensinou-me.

Ainda bem disse a avó, despejando a água no lavatório e voltando a entregar-lhe o balde. Pronto, já temos água para te lavares. Agora é preciso água para o jantar.

O quê? assustou-se Efigénia. Também é preciso água para cozinhar?

Pois, a não ser que prefiras a água do barril encolheu os ombros a avó.

Não, não! exclamou a rapariga, pegando no balde e correndo ao fontanário de novo.

Foi cinco vezes à fonte. Enquanto isso, Manuela começou a preparar a comida.

Avó, porque é que não arranjam logo o cano? perguntou Efigénia, já exausta. Na cidade, quando se avaria, basta ligar e arranjam num instante.

Pois, mas aqui não é bem assim. Temos de ir à rua de cima, ao número oitenta e cinco, avisar. Só que lá têm água e o Sr. Esteves nunca tem pressa.

E porque não vais lá e reclamas?

Já fui mais de cem vezes suspirou Manuela. Mas o Esteves está sempre no campo ou na oficina, nunca está em casa. Diz sempre Amanhã vou. E assim vamos ficando. Ele é o único técnico destas redondezas.

Bem disse a rapariga pensativa. Que número de porta disseste?

Oitenta e cinco.

E fica para que lado?

Aquele indicou Manuela. O que te passa pela cabeça?

Eu vou lá falar com esse Sr. Esteves.

Efigénia fugiu pelo portão antes que a avó percebesse. E desapareceu. Meia hora depois, a ansiedade venceu e Manuela foi a correr à casa do canalizador.

A minha neta esteve aqui? perguntou à esposa do Esteves.

Aquela traquina, a tua? olhou para ela de lado Dona Graça.

Porquê traquina?

Ela armou cá uma confusão Primeiro exigiu que lhe desse logo o meu marido. Depois começou a dar-mos sermões, que o Esteves só pensa nele, coitado, que anda sempre num virote. Peguei na vassoura para a enxotar, sabe o que me gritou? Que se o Esteves não arranjasse logo a água para vocês, vinha cá incendiar-me o barracão! Imagine!

Meu Deus e Manuela levou a mão ao peito. Será possível a Efigénia ter dito tal coisa?

E onde está ela agora?

Sei lá! Deve estar a correr atrás do Esteves. Ele está no campo a reparar as máquinas.

Ai, Jesus! exclamou Manuela, saindo disparada pelo caminho fora na direção dos campos, onde se faziam as ceifas.

Mas nem chegou ao campo. Logo viu um trator a vir na sua direção. Ao volante vinha o Sr. Esteves e, ao seu lado, sentada e de cara séria, estava Efigénia.

Ao vê-la, o Esteves parou o trator.

É tua? gritou para Manuela, por cima do barulho do motor.

Manuela acenou com a cabeça, aflita.

E para onde a levas, Esteves? Para a GNR? Olha que ela é menor, não pode ser presa!

GNR? Nada disso. Vou trocar já o tal registro. É que esta tua mocinha, danada, pôs-se quase debaixo de um trator. Jurou que furava os pneus dos tratores todos se eu não desse água a vocês. Como se fosse possível furar pneu de trator com pregos! e, de repente, Esteves desatou a rir. Ah, se houvesse mais jovens assim na aldeia! Em poucos anos, isto mudava! Então, pirralha, queres guiar o trator?

Quero! Efigénia gritou de alegria.

Então, senta-te aqui ao volante, vamos arranjar o cano da avó! Mas com a condição de me passares as ferramentas.

Está combinado! exclamou a rapariga, agarrando-se ao volante cheia de felicidade.

Só no dia trinta de agosto é que os pais conseguiram levar Efigénia de volta à cidade, mesmo assim quase à força, porque no dia seguinte recomeçavam as aulas. Se não fosse isso, teria ficado mais as tarefas na aldeia não param no outono.

Efigénia aprendeu naquela semana que a vida no campo é cheia de desafios e exige persistência e coragem, mas é ali, longe das facilidades, que também descobrimos a verdadeira força e a importância de ajudar e de nunca desistir. Cada problema pode ser o início de algo novo basta não termos medo de agir.

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