O dia em que ele me disse: “Sem mim, tu não és ninguém…”

O dia em que ele me disse sem mim não és ninguém…
já eu andava há meses a planear sair.
Sempre que discutíamos, apontavas-me à porta e gritavas: se não gostas, vai-te embora para o inferno!
Estou farta de viver com medo, com a mala feita, como se fosse uma hóspede na minha própria casa!
Já arrendei um apartamento e hoje mesmo vou-me embora.
Achas que eu não tinha para onde ir?
Que ia suportar o teu delírio de grandeza a vida inteira?
Estás muito enganado, Rodrigo.
Fica tu sozinho no teu lindo apartamento!
E a caixa dos cabos que estava na prateleira de baixo?
Rodrigo fica plantado no meio da sala, mãos na cintura, como um juiz que apanhou o culpado em flagrante.
Olha à volta à procura de sinais de invasão no seu território.
Beatriz está sentada no sofá, a escrever no portátil.
Nem levanta os olhos.
Sente o olhar dele nas costas: pesado, frio, como ferro molhado.
Antes esse olhar fazia-a encolher e desculpar-se.
Hoje só lhe provoca um desprezo gelado, como algo lá dentro já tivesse desligado.
Deitei-a fora, Rodrigo.
Eram só coisas partidas, cabos velhos, carregadores que já não usamos há anos.
Responde com calma enquanto clica em enviar.
Deitaste fora?
Repete ele baixinho, com aquele tom que já anuncia sarilhos.
Aproxima-se devagar, tapando a luz do candeeiro.
Quem te deu autorização para decidires o que quer que seja NESTE apartamento?
Que eu saiba, o teu nome não está no contrato de compra.
Ou achas que és dona só porque pagas alguma coisa?
Beatriz fecha finalmente o portátil.
No olhar não há raiva nem tristeza.
Só desprezo frio.
O mesmo que ele usava quando julgava controlar tudo.
Em cinco anos ela já lhe reconhecia a expressão.
Era lixo.
Diz, olhando-o de frente.
Pedi-te três vezes.
Arruma aquele canto.
E as três disseste já vou.
Pois esse já vou chegou agora.
O já vou acontece quando EU quero!
Explode Rodrigo, com a cara a ficar vermelha, e dá um pontapé na mesa de centro.
Neste apartamento mando EU.
Estás aqui porque eu quero.
Estas são AS MINHAS paredes, AS MINHAS janelas, O MEU chão!
O teu papel é não estorvar e lembrares-te do teu lugar.
Vai de um lado para o outro, roçando as paredes com os ombros, como se medisse o território.
O apartamento, herança da avó no centro de Lisboa, era o seu troféu, a sua trincheira.
Em todas as discussões voltava sempre ao mesmo: os metros quadrados.
Era assim que tentava esmagar qualquer argumento.
Estás a comportar-te como um doido, e tudo por causa de uns cabos velhos.
Responde Beatriz, tranquila.
Já não é a mesma.
Algo nela partiu-se.
O medo desapareceu.
Comporto-me como o dono!
Grita ele, apontando para o chão.
E tu, que és só uma convidada, já te esqueceste quem te deixou entrar.
Queres que te recorde de onde vens?
Daquele quartinho partilhado onde tudo era uma confusão.
Devias era agradecer estas paredes, não andar a deitar fora as minhas coisas.
Abre o armário e ajeita uma caneca, demarcando território.
Sabes o que mais me enerva?
Cerro os lábios.
A tua falta de gratidão.
Dei-te conforto e portas-te como se merecesses.
Não tens direito a nada, Beatriz.
Só a estares calada e não tocar.
Acaba.
Diz ela, levantando-se sem pressa.
E de repente parecia maior, mais firme.
Já disse tudo!
Grita ele, apontando para o corredor.
Ou é como eu digo ou arrumas as tuas coisas e vais-te embora.
Agora mesmo, se quiseres.
Já me cansam esses teus ares de independência.
Não andei a partir o lombo com esta remodelação para uma… oportunista vir dizer-me do que preciso!
Solta o ar satisfeito.
Na cabeça dele, ela choraria, refugiava-se na cozinha, pedia desculpa.
Mas Beatriz não se mexeu.
Olhou-o como se já nada dela o afetasse.
Acabaste?
Pergunta calma.
Já.
Murmura ele, desconfortável, com um nó no estômago.
E amanhã quero cabos novos.
Beatriz acena.
Passa por ele sem medo e entra no quarto.
Rodrigo fica a ouvir o silêncio.
Não há choro, nem gritos, nem portas a bater.
Só silêncio.
E isso irrita-o mais que qualquer discussão.
Abre a porta do quarto.
Estás surda? Ainda não acabei!
Grita.
Mas trava a meio.
Beatriz está ajoelhada em frente ao armário aberto, a tirar malas e sacos grandes.
Duas mochilas e duas malas.
Cheias.
Prontas.
O que é isto?
Goza Rodrigo.
Vais de férias ou quê?
Ou para casa da tua mãe fazer birra?
Ela levanta-se, olha-o friamente.
Não vou para casa da minha mãe.
Só estou a arrumar as minhas coisas.
O som da mala a fechar bate forte no quarto.
Rodrigo cruza os braços e sorri, venenoso.
Achavas que eu vinha atrás de ti?
Que não vivia sem as tuas novelas?
Não me faças rir.
Não estou a pensar em ti.
Tenho de pedir uma carrinha para a mudança.
Responde.
Uma carrinha?
Solta uma gargalhada seca.
Força.
Mas quando voltares, rastejando, nem uma palavra.
Eu faço as coisas à minha maneira.
Beatriz pára por um instante.
Não vou voltar.
Arrendei outro apartamento há duas semanas.
Tenho as chaves na mala.
E estou a preparar-me há meses, a guardar coisas aos poucos sempre que me gritavas vai-te embora!.
Nem reparaste.
Rodrigo fica branco.
Tudo muda: já não é ele quem controla.
A sério…?
Sussurra, aproximando-se.
Ou seja, já tinhas tudo planeado…
Beatriz não recua.
Prefiro dormir num colchão no chão…
do que com quem me chama convidada.
Mas aquela noite ainda não acabou… e Rodrigo não quer deixá-la ir facilmente.
Estás a arruinar-me a vida! grita ele, agarrando-lhe o braço. Sem mim não és ninguém! Sem mim estás perdida! Sem mim ficas completamente só!
Beatriz solta-se facilmente, como quem sacode uma teia pegajosa.
Talvez me perca, mas será o meu abismo, não a tua jaula. Agarrou a gabardine e o telemóvel. Os da mudança chegam daqui a dez minutos.
Ele avança, como para lhe tirar o telemóvel, mas trava a meio. O olhar de Beatriz gelado, firme, como gelo paralisa-o. Sente algo estranho por dentro: impotência. Antes, um grito partia-a. Agora, nada.
Não vais conseguir rosna quase sem voz. Vais ter medo. Vais chorar à noite. Vais voltar. Eu espero por ti.
Não faças isso responde ela, serena. Quando deres por ti do vazio ao lado da cama, lembra-te: foste tu que me puseste fora da tua vida.
Sai para o corredor.
Ouvem-se as malas: fechos, rodinhas, pancadas suaves no soalho. Lá fora, chuvisca sobre Lisboa. No átrio cheira a rua molhada, a liberdade: o primeiro trago de ar livre.
Rodrigo fica parado, entre a porta e a sala, sem acreditar. Tudo aconteceu demasiado sereno. Quando a porta do prédio, em Arroios, fechou, o silêncio caiu pesado, como um buraco na cabeça.
Ficou sozinho.
O relógio era a única coisa viva, marcando os segundos da sua derrota.
Olhou-se ao espelho do corredor: cara tensa, olhos vazios. Quis gritar, mas não saiu nada. Nem se apercebeu em que momento se deixou cair no chão.
Só rodava uma frase na cabeça: ela não vai mesmo.
Ela voltava sempre…
Mas já não havia chaves dela em cima da mesa. O armário estava vazio.
Beatriz está na rua, debaixo da chuva, em frente a Arroios, Lisboa. As gotas escorrem-lhe pela cara, como se lavassem a vida antiga. Pára um táxi: o motorista, já idoso, com ar cansado, ajuda-lhe com as malas.
Para onde, menina? pergunta.
Para Campo de Ourique, número dezenove.
A voz dela quebra-se por um instante. Depois, mais firme:
Vou começar de novo.
O táxi arranca. Beatriz vê pela janela as luzes de Lisboa a desfazerem-se no cinzento da chuva.
Pela primeira vez em anos não pensa no que há de dizer ou justificar.
Só há calma.
Não vazio, mas leveza.
Como depois de uma operação: dói, mas respira-se melhor.
O novo apartamento tem cheiro a tinta e paredes nuas, numa rua calma de Lisboa. Pequeno, com eco nos passos.
Pousa as malas e senta-se devagar numa cadeira. O corpo treme, mas dentro dela cresce uma certeza: ali começa a sua vida.
Sem ele. Sem o apartamento. Sem o isto é meu em cada frase.
O telemóvel vibra: Rodrigo.
Não atende.
Volta. Temos de conversar.
Eu perdoo-te.
Não vais conseguir sozinha.
As mensagens não param de chegar.
Beatriz põe o telefone em silêncio.
Serve-se um chá de um termo trazido do emprego antigo, pago com euros que mal chegavam.
Lá fora, a chuva cai, cada vez mais forte em Lisboa.
Com cada gota vão-se os gritos, o medo, o controlo.
Fica o silêncio.
Mas agora é dela.
Livre.
Uma semana depois.
Rodrigo acorda no apartamento vazio de Arroios.
Primeiro o silêncio irrita-o. Depois começa a devorá-lo por dentro.
Pó nos móveis. Loiça suja. Coisas que ninguém mexe.
Põe-se a escutar o vazio, à espera de passos que nunca chegam.
Liga a amigos. Manda mensagens. Ninguém responde.
Compreende o que não queria aceitar: numa cidade enorme, ela simplesmente desapareceu.
E com ela, o controlo.
Senta-se no sofá onde ela costumava estar.
No chão está uma caixa velha com cabos.
Abre-a.
Só cabos quebrados.
Lixo.
Por esse lixo perdeu tudo.
Entretanto, Beatriz volta do trabalho em Lisboa.
Cansada, mas serena.
Tira o casaco, põe água ao lume e liga a música.
Sem gritos. Sem ordens. Só uma canção qualquer sobre liberdade.
Aproxima-se da janela.
A chuva continua a cair na cidade, refletida no vidro.
Mas já não parece cinzenta.
Agora é só chuva.
E ela pode andar debaixo dela para onde quiser.
O telemóvel acende-se: uma mensagem não lida de Rodrigo.
Vais arrepender-te.
Apaga sem abrir.
Escreve nas notas:
Nunca te arrependas.
Guarda.
Sorri.
Acende um candeeiro pequeno.
E começa a pintar a nova vida: uma Lisboa molhada, o asfalto brilhante e uma mulher com uma mala a caminhar, sem saber o que vem aí.
Viva.
E livre.

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