O dia em que a avó casou-se com o filho do homem que a deixou plantada no altar.
A minha avó, dona Guilhermina, tem 89 anos e acabou de se tornar a protagonista do maior escândalo que a aldeia de São Martinho já presenciou desde que o tio Anselmo afanou o dinheiro da festa das colheitas. Já por aqui vimos de tudo casamentos desfeitos, zaragatas no baile dos finalistas, até aquela vez em que o telhado da igreja desabou em pleno domingo mas isto, ISTO, ultrapassou tudo.
Tudo começou quando a avó conheceu um senhor muito distinto no centro de convívio local.
Um verdadeiro cavalheiro, menina dizia-me ela, enquanto pintava a boca com um batom cor de chá. E ainda conduz.
Ó avó, ele tem 91 anos. Achas mesmo que devia estar a guiar?
Ora, deixa de disparates. Ao menos tem carro.
O romance foi relâmpago. Ao fim de três semanas lá veio o pedido com anel. Pronto, não era ouro, mas conta a intenção.
Caso-me no sábado anunciou ela no almoço de família.
A minha mãe quase se engasgou com o bacalhau.
No sábado?! Isso é já daqui a cinco dias!
Pois é. Já não vou para nova. E se bater as botas na sexta?
Comprámos um vestido tom pérola, elegante, mas sem exageros. Reservámos o salão paroquial, encomendámos o bolo. Uma das tias tratou dos ramos, tudo em papel crepom, muito jeitoso.
Chegou o grande dia. A avó estava resplandecente de vestido, com o colar de pérolas verdadeiras herdado da bisavó, e um sorriso que eu julgava desaparecido desde a Expo 98.
O salão à pinha. Música de fundo. O padre folheava o seu missal. Tudo parecia perfeito.
Só que o noivo é que não vinha.
Esperámos vinte minutos.
Depois quarenta.
Ao fim de uma hora, o primo Fausto foi a casa dele.
Voltou sozinho, cara de quem tinha visto o diabo.
Diz que não consegue.
O salão começou a murmurar. A avó ficou branca.
Como assim não consegue?
Diz que tem medo. Que já é velho, que pode adoecer e ser um peso. Que é melhor assim.
A avó ficou sentada, a segurar o ramo de rosas brancas.
Foi então que as portas se abriram. Entrou um homem de uns sessenta e tal, bem vestido, cabelo grisalho mas farto, ar furibundo.
Onde está a noiva?
E você, quem é? perguntou um tio.
Sou o filho do homem que acabou de abandonar esta senhora.
Todos ficámos de boca aberta.
O homem aproximou-se da avó e tirou o boné.
Venho pedir desculpa em nome da minha família. Isto foi imperdoável.
A avó espetou-lhe o olhar.
Quantos anos tem, rapaz?
Sessenta e sete.
Casado?
Viúvo. Há quatro anos.
Filhos?
Três. Todos criados e espalhados pelo mundo.
Trabalha?
Estou reformado. Recebo pensão e tenho uma casinha.
A avó pensou. Levantou-se com o seu bengaleiro e foi na direção dele.
Diga-me, tem medo dos compromissos, como o seu pai?
Não. Estive casado trinta e cinco anos. Foram os dias mais bonitos da minha vida.
E o que pensa do matrimónio?
Que é a melhor coisa do mundo. E que o meu pai é um tonto por deitar esta hipótese fora.
A avó olhou-o de alto a baixo, depois virou-se para nós todos.
O salão está pago. A comida está paga. O padre está cá. O bolo custou-me cento e vinte euros
Avó, tu não estás a
Senhora, aceita ser minha esposa?
O salão explodiu. Risos, gritos, uma tia verteram vinho no vestido, outra começou a filmar tudo sem perceber o que estava a acontecer.
Mas eu você
O senhor veio cá defender a minha honra. Além disso já estou vestida. Não vou desperdiçar este vestido para ir ao supermercado. Então sim ou não?
Ele desatou a rir riso mesmo bom, daqueles que abanam o peito.
A minha falecida dizia sempre que um dia eu ia fazer uma maluquice. Chegou o dia. Bora lá.
E casaram-se.
Ali mesmo.
O padre teve de se sentar uns minutos a respirar fundo. Uma das primas chorou tanto que ficou borrada de rímel. A minha mãe não sabia se ria, chorava ou desmaiava.
Mas casaram.
Na festa, enquanto trinávamos o bolo, que ainda tinha o nome do primeiro noivo tapado com uma folha de papel e escrito por cima com caneta, perguntei à avó:
Avó, tu casaste-te com um homem que conheces há duas horas?
Ela só sorria.
Com 89 anos não há tempo a perder. Ele tem bons modos, uma reforma razoável e ainda conserva a vesícula. Achas mesmo que ia desperdiçar isto?
Mas ele é 22 anos mais novo!
Claro. Vai durar mais que eu. Alguém tem que tratar dos meus gatos.
Já passaram três semanas. O que a deixou no altar ainda lhe tentou ligar para pedir desculpas. O novo marido atendeu, ouviu e desligou.
Já se percebeu que ele cozinha melhor que a avó (embora ela nunca o vá admitir), dança como ninguém e leva-a a todas as consultas naquele Renault velhinho, mas impecável.
Ontem vi-os no jardim. Ele empurrava a cadeira dela, ela resmungava:
Devagar! Isto não é o Grande Prémio do Mónaco!
Como quiser, minha rainha.
O ex-noivo mandou como prenda de casamento uma batedeira. A avó decidiu que dava mais jeito numa quermesse e rifou-a no bingo dos reformados.
Agora digam-me: que avó se casa com o filho do homem que a deixou plantada no altar e que filho se casa com uma mulher que, cinco minutos antes, devia ter sido a madrasta?







