O cheiro de lar de idosos
Sabes a que cheiras? A lar de idosos. A cânfora e velhice. Já não suporto isto.
Clara estava encostada à janela, a observar o pátio onde a gata da vizinha atravessava cuidadosamente uma poça de água. As palavras do marido chegaram-lhe envoadas, como se fossem ditas a grande distância, e ela demorou a virar-se. Mas acabou por o fazer.
Mário estava no meio da cozinha, numa camisa lavada. Aquela azul-clara que ela tinha comprado para ele em abril, na feira do Campo Pequeno, porque ele dissera que precisava de qualquer coisa leve, que não amassasse. Ela escolhera com atenção, sentira os tecidos, perguntara à vendedora pela composição. Ele, nesse tempo, ficava no carro a ouvir futebol na rádio.
Estás a ouvir-me? perguntou ele.
Estou, respondeu Clara.
A voz saiu-lhe estável, surpreendendo-a.
Mário pousou um saco de desporto no banco. Aquele saco azul, com logótipo de uma marca qualquer, que ela conhecia bem: estava guardado no armário por baixo das botas de esqui, que não viam uso havia uns oito anos.
Vou-me embora, anunciou. Ambos sabemos que já devia ter acontecido.
Clara olhou para o saco. Depois para as mãos dele, tranquilas, sem tremerem nem fugirem aos olhos dela. A decisão era antiga nele, só verbalizava agora o que já era concreto.
Há muito, repetiu ela.
Pois, encolheu os ombros. Clara, eu não quero discussões. Somos demasiado diferentes. Tu estás sempre aqui, com a minha mãe, com cuidados, com este cheiro. Eu não consigo viver assim.
O cheiro. Ela pensou nele. Cinco anos. Cinco anos a acordar às seis porque Dona Amélia, a mãe de Mário, acordava sempre a essa hora, obrigando o corpo doente dela a viver conforme o ritmo que lhe restava. Cinco anos de óleo de cânfora, de fraldas que agora se diziam pensos absorventes, de tosses pela noite e chamadas para o INEM. Cinco anos em que o seu trabalho ficava fechada em dossiers, na sala que cada vez menos usava, por falta de tempo e porque Clara, não há quem faça, tu percebes.
Ela percebia.
Vais agora? perguntou.
Agora.
Está bem, disse.
Ele esperava outra coisa: lágrimas, talvez perguntas, talvez o velho para onde vais?. Mas Clara não perguntou. Não porque não soubesse, mas porque não importava.
Mário pegou no saco, parou um segundo à porta.
Deixo a chave no aparador.
Deixa.
Ouvem-se passos pela escada, a porta a fechar com estrondo distante. Ficou silêncio. Não aquele silêncio habitual, mas um silêncio verdadeiro, como quando se desliga o rádio depois de anos ligado. Só então damos conta do barulho constante que fazia.
Clara olhou para as chaves no aparador, para o banco vazio. O saco já não estava lá.
Voltou à cozinha, encheu a chaleira de água.
Há cinco anos, Dona Amélia teve um AVC à mesa, no aniversário de Mário. Clara fizera um bolo de cereja, Dona Amélia disse está delicioso, e logo largou o garfo, olhando-a de um jeito que Clara compreendeu de imediato. Foi ela quem chamou o INEM, acompanhou a sogra no carro, apertando-lhe a mão que já não apertava de volta.
Mário estava numa conferência de trabalho. Atendeu só à terceira chamada.
Depois, os médicos explicaram: paralisia parcial, recuperação longa, exige cuidados constantes, possível em casa se houver quem esteja. Mário, nesse momento: Tu agora tens trabalho a meia-gás, Clara. Os teus projetos… não é do que vivemos, pois não? Ela não contestou. Arrumou os dossiers numa caixa, levou-a para o escritório.
Quando a água ferveu, Clara preparou o chá e voltou à janela. A gata já desaparecera. Só a poça ficara.
Nos primeiros três dias quase não saiu de casa. Não porque não pudesse, mas porque o corpo já não sabia para onde ir. Habituada ao ritmo: levantar às seis, cuidados às sete e meia, pequeno-almoço às dez, almoço à uma, passeio à varanda às quatro da tarde, deitar às sete. Agora, sem rotinas, o corpo perdia-se.
Andava de divisão em divisão, parava perante os objetos: a cadeira de rodas encostada à parede, sacos de fraldas debaixo da cama, a caixa dos medicamentos alinhada na prateleira do corredor, escritos à mão por ela: manhã, noite, se necessário pressão. Dona Amélia partira três meses antes, dormindo. Tudo ficara, porque Mário não tocava, e Clara não tinha coragem.
No quarto dia, pegou em três sacos de lixo grandes e começou.
Fez tudo metódico, sem pressa. Fraldas, sacos de urina, tubos, luvas, pensos. Depois os medicamentos, caixa por caixa. A cadeira de rodas custou-lhe mais, lembrava-se das vezes que a empurrara pelo passeio, Dona Amélia a olhar as árvores com a atenção de quem sente o fim. Clara desmontou o que pôde e levou tudo à cave do prédio em três idas.
Demorou-se depois sob a água quente do duche.
Quando se mirou no espelho, viu algo que já não via há anos: ela própria. Não a cuidadora, nem mulher de ninguém, nem nora, apenas Clara, mulher de cinquenta e dois anos, cabelos já grisalhos, sem tintas porque quem notava?
No quinto dia, marcou cabeleireiro.
A cabeleireira chamava-se Leonor, trinta e poucos anos, mãos ágeis e seguras. Quando Clara explicou que queria cortar e fazer algo com a cor, Leonor só a olhou pelo espelho, com o mesmo cuidado de um bom médico.
O teu tom natural é bonito, disse ela. Podemos iluminar a cor, aceptar os brancos, fazer um corte leve, abrir o pescoço. Pessoa bonita pode mostrar.
Faça, disse Clara.
Duas horas sentada a esperar pelo reflexo de outra mulher. Não nova, mas a mesma, lavada do que o tempo deitou em cima dela.
Saiu à rua e o vento frio, de outubro mexeu-lhe o cabelo. Parou no passeio. Não sentia o vento assim fazia muito, muito tempo. Nunca parava: farmácia, casa, supermercado, hospital, casa.
Agora parava.
Comprou um café num quiosque minúsculo e caminhou sem destino.
O divórcio demorou quatro meses.
Mário foi ao tribunal com advogado, um homem jovem, fatos caros, que falava rápido e evitava encarar. Clara foi sozinha. Não por querer provar algo; não fazia sentido lutar pelo que não queria reter.
Na segunda audiência, Mário trouxe uma mulher.
Clara viu-a no corredor: uns trinta e cinco anos, talvez menos, cabelo loiro apanhado, sobretudo xadrez, saltos altos. Estava de lado, olhos no telemóvel. Mário falou com Clara, a mulher olhou-a de relance, rápido e sem curiosidade, como olhamos para desconhecidos na fila do supermercado.
Clara reparou nisso como curioso. Não havia altivez. Apenas desconhecimento.
Clara, disse Mário, baixo. Queria falar do apartamento.
Não é preciso.
Mas…
Mário. Olhou-lhe fixamente. Preciso apenas do meu estúdio. Era meu antes do casamento. O resto casa, carro, praias como desejares.
Silêncio.
Tens a certeza?
Tenho.
O advogado tomou notas rápidas. Mário olhou-a com uma expressão que só entendeu depois: esperava que ela argumentasse, revivesse anos, cobrasse sacrifícios, justificasse. Ela não quis. Não porque não pudesse, mas porque já não queria arrastar essa conversa.
O estúdio ficava na Rua das Flores, segundo andar, de um prédio antigo, vinte metros quadrados, tecto alto, janela para norte. Comprara-o aos trinta e quatro, logo depois do diploma, juntando três anos de poupanças. A sua secretária, folhas, plantas que sobreviveram a tudo, continuavam na janela, tranquilas.
Dormiu lá a primeira noite depois dos papéis assinados.
Deitada no sofá-cama, olhando o tecto, perguntava-se: E agora?
Não havia resposta. Estranhamente, isso não assustava.
Ligou primeiro ao atelier Linha Verde, onde trabalhara antes. A secretária ainda se lembrava dela, transferiu para o engenheiro António, que elogiou trabalhos antigos, um parque infantil, de que gostou muito. Mas depois:
Clara, passaram-se cinco anos, o mercado mudou, os programas, os clientes, precisamos de quem já esteja a par…
Percebo.
Se houver novidades, ligamos.
Sabia que não.
Segunda chamada, para um ateliê privado, onde uma colega de liceu, Sofia, trabalhava. Sofia alegre, mas em cinco minutos também veio: Outros requisitos, miúdos com ferramentas novas, a concorrência….
Terceira chamada, com poucas expectativas, para a Divisão Municipal de Espaços Verdes. Atenderam, silêncio, o quadro está completo.
Clara pousou o telefone e olhou pela janela.
Lá fora, novembro, árvores nuas, pessoas apressadas. Pensou em como cinco anos eram tanto, não só dentro dela, mas fora: outras pessoas já ocupavam o que ela deixara em pausa.
Ligou o computador, aprendeu os novos programas de design paisagístico, estudou até às tantas, chá, notas num caderno. Algumas coisas diferentes, outras iguais com novos nomes.
Em dezembro, arranjou colocação não o emprego dos sonhos, mas trabalho: a ajudar num pequeno viveiro às portas da cidade. Dona Emília, a proprietária nome que lhe conquistou um sorriso de ironia , era direta: útil ou não.
Sabe lidar com plantas?
Sei.
Então venha, salário baixo, mas trabalho vivo.
Era mesmo. Clara chegava cedo, tratava da sementeira, transplantava, ajudava clientes. Nada do que queria tanto, mas era real. Mãos na terra, cheiro a folhas húmidas, vasos alinhados a crescer.
Foi aí que ouviu falar da estufa.
Dona Emília comentou que havia uma encostada ao Jardim Botânico na cidade, abandonada, que o diretor tentava reanimar, mas sem mãos.
Clara hesitou. Pensou primeiro, depois, num domingo, pôs o casaco e foi.
Encontrou a estufa pelos fundos do jardim, meio escondida. O primeiro impacto foi o vidro. Muito vidro, imundo, sem manutenção, onde se adivinhava vegetação. Estrutura metálica enferrujada, alguns painéis trocados por madeira. Caminho cheio de folhas.
Lá dentro.
Abriu a porta pesada: calor e humidade.
Caos, mas um caos vivo. Plantas por todo lado, subiam buscando luz, caíam e enredavam-se umas nas outras, lianas agarradas a suportes, até ao tecto. Havia laranjeiras com frutos pequenos, palmeiras crescidas, orquídeas esquecidas.
Clara entrou e, devagarinho, sentiu algo no peito endireitar-se.
Vem por marcação?
Virou-se: um senhor idoso no corredor, camisola de lã, óculos. Baixo, barba branca, mãos de quem trabalha a sério.
Não, desculpe. Vi lá fora, entrei. Se não for permitido, saio.
Pode. Olhou de Clara para o interior. António Marques. Diretor, se assim se pode chamar.
Clara Ramos. Arquiteta paisagista.
Pausa.
Com intervalo de cinco anos.
Outra pausa; ele pensou, apenas.
Venha, mostro-lhe.
Andaram duas horas pela estufa. Ele explicou o que era, o que restava, o que tentaram sem sucesso. Estufa fechada há sete anos para obras temporárias. Mudou a direção, ficou esquecida.
António conseguiu licença para lá trabalhar, mas não tinha ajuda. Ia todos os dias: regava, adubava, controlava temperaturas. Sozinho.
Eu posso ajudar, disse Clara.
Não posso pagar.
Eu sei.
Olhou-a longamente.
Volte na quinta-feira.
E voltou. E outra vez, e depois todos os dias. Deixou o viveiro, Dona Emília sem protestar: Faz sentido, a tua cabeça não é de vasos pequeninos.
A estufa virou o seu projeto, o primeiro real em cinco anos.
Organizou. Fez inventário: cada planta, estado, localização, necessidades. Trabalho de três semanas, meticuloso, como antes num projeto, mas agora com vida.
Depois desenhou o espaço. A estufa era grande, quatrocentos metros, mas ali era tudo ao acaso: vasos sem lógica, sem caminhos. Clara desenhou esquemas à mão, à noite, na mesa do estúdio.
António via os desenhos e acenava.
Aqui penso zona para citrinos, explicava Clara. Juntos; é bonito, perfumado.
O cheiro do inverno, ele sorria. Lembro-me disso, vindo do frio, sente-se logo.
No centro, deixamos as palmeiras altas, para escala. Abaixo, arbustos tropicais. Com um caminho.
Caminho, sim. Para circularem.
Virão pessoas. Vai ver.
Ela dizia sinceramente. Lembrava-se: as pessoas vão onde pensam nelas. Onde o espaço convida.
O inverno passou em trabalho. Trouxe plantas de casa, pagou material com o pouco que sobrou após o divórcio. Arranjou cristal, recrutou operários. António apoiava e regava, conversava com as plantas de quem entende que falar-lhes não é loucura.
Em janeiro, Clara ligou à amiga Rita.
Rita, colega de faculdade, tentara manter contacto, mas Clara recusava sempre: A mãe do Mário, não posso. Atendeu à terceira; depois de um silêncio, disse:
Estás viva?
Viva.
Graças a Deus. Porque desapareceste, pá?
Longa história. Estás onde?
Em casa, comendo caldo verde. Vem cá.
Foi. Ficaram na cozinha. Chá, depois vinho, e Clara contou. Rita ouviu sem conselhos, só pontuando: Certo, imagino. Era tudo.
O teu Mário sabe que trabalhas na estufa?
Não faz diferença.
Só perguntei. E tu, estás bem?
Clara pensou.
Pela primeira vez em anos, sim.
Rita acenou. Não falaram mais disso.
Em fevereiro, algo inesperado.
Clara trouxe novas plantas: gerânios e um grande alecrim do viveiro, por um preço de rir. António andava na outra ponta, ela sozinha. Porta abriu-se.
Era um homem.
Uns cinquenta e oito anos, com blusão, bloco de notas. Recorte forte, olhos atentos.
Desculpe, disse. O senhor António está?
No fundo, à direita.
Obrigado. Olhou em volta. Isto está a ficar bonito. Vi há meio ano, era…
Era, confirmou Clara.
Foi você?
Trabalhámos juntos.
Mas foi ideia sua, não?
Ele fixava as plantas como alguém que percebe, vê estrutura e não só beleza.
E o senhor é?
Pedro Martins. Engenheiro. Ando a tratar das coberturas, há infiltrações.
Terceira e sétima secção, replicou Clara.
Ele fitou-a de outra forma.
Como sabe?
Venho todos os dias.
Falou com António, depois voltou:
Uma pergunta, pode ser?
Claro.
Esses limoeiros, florescem na primavera?
Se a temperatura segurar. Quando as gemas crescem, aparecem folhas muito verdes. Três semanas depois, há flor.
Percebi. Obrigado.
E partiu.
Boa pessoa este Pedro, disse António. Ajuda há dois anos. Não abandona obras.
Engenheiro de quê?
Estruturas. Especialista em recuperação de prédios antigos. Gosta deste desafio.
Clara cuidou do alecrim, recordando-se do raro elogio tão técnico ao arranjo das plantas.
Março trouxe visitantes. António e Clara abriram discretamente: aviso na porta, publicação online. Primeiro dia, sete pessoas; depois, trinta por semana. Andavam pelo caminho, cheiravam citrinos, tiravam fotos às palmeiras. Uma idosa ficou minutos no alecrim: Na terra da minha avó havia deste.
Funciona, disse António.
Funciona, repetiu Clara.
Falei com a câmara. Querem dar um lugar oficial. Pequeno, mas digno.
Que função?
Técnica superior de espaços verdes. Palavra feia, mas é o que faz.
Está bem.
Estava mesmo.
Em abril, Pedro convidou-a para um café. Nada de romântico; Conheço ali ao lado um sítio bom, está a trabalhar sem parar. Era verdade. Conversaram: filha em Coimbra, divorciado há oito anos, trabalho nómada, gosta pelas mudanças.
Porquê património velho? perguntou Clara.
Tem história. Cada local teve muitos autores, deixou marcas. É um diálogo no tempo.
Clara olhou o vidro da cafetaria.
E a estufa?
Essa ainda fala. Está viva.
Viva, repetiu baixinho.
Ele olhou-a; só atenção e respeito no olhar.
Foi mais uma hora de conversa. Pedro voltou, prometendo visitar a terceira secção do telhado.
Clara deixou-o ir, a respirar mais fundo, confortável com a presença dele.
Rita quis logo saber detalhes em maio.
E isso é coisa séria?
Rita…
Que foi? Pergunto só.
Não sei ainda.
E ele?
Não perguntei.
Ó Clara! Com cinquenta e dois anos…
Cinquenta e três!
Melhor ainda, então pergunta!
Clara riu de verdade. Sentiu-se bem por rir sem pedir licença.
Soubesse de Mário só por terceiros. Ligações fugazes, cuidadosas.
Primeiro, a vizinha Nina.
Clara, não quero misturar-me… sabes?
O quê?
Aquela Ana, a nova, foi-se embora, em maio. Uns dizem que ele queria filhos, outros que não. Não sei.
Está bem, devolveu Clara.
Depois, um ex-colega de Mário, António; ligou constrangido.
Olha, despediram o Mário há três meses. Achei que devias saber.
E porque dizes?
Silêncio.
Ele falou comigo, anda em baixo.
António, ainda bem que é teu amigo. Eu não posso fazer nada.
Desligou e foi para a estufa. Era junho, lilases a florescer lá fora, lá dentro o ar condicionado finalmente instalado. Laranjeiras cheias de frutos, palmeiras majestosas.
Agarrou no regador, percorreu o caminho pensado por ela.
Pensava em Mário? Às vezes, não muitas. Lembrava os bons momentos, os primeiros anos felizes, antes de deslizarem, como pequenas concessões: menos atenção, mais irritação, raramente como estás?. Ela própria, perdeu-se na dedicação, ficando invisível na própria casa.
Mas aquelas palavras… Cheiro a lar de idosos.
Largou o regador perto do limoeiro, focando nas folhas brilhantes, vivas.
Foram cruéis. Não são ditas para sair, mas para o outro sentir culpa.
Depois continuou.
Pedro aparecia algumas vezes por mês. Umas vezes para inspecionar, outras só para conversar com António ou Clara. Falavam de projectos, de livros, de Lisboa. Levou figos do mercado, pensei que podíamos plantar, e António ficou feliz. Clara explicou os cuidados e percebeu que Pedro ouvia mesmo, sem pressa.
Em julho, foram juntos a uma exposição de arquitetura. Pedro conhecia meio mundo, explicava histórias de cada prédio, peripécias, mudanças. Era técnico, tinha humor.
E porque só recuperação?
Desde os quarenta. Antes fazia obra nova. Depois fascinei-me pelo velho.
Porquê?
As falhas são humanas. Entendemos a pessoa do passado, o engenheiro que cá viveu. É estranho, mas bom.
Clara pensou muito nisso; talvez seja assim com tudo: em vez de julgar, tentamos compreender os erros.
Agosto foi quente. A estufa transformava-se em poiso de famílias, excursões escolares, oficinas. António radiante.
És tu dizia a Clara.
Somos nós.
Não, é tua ideia, teu plano.
Muitas vezes sentava-se à secretária agora cheia de plantas, computador, dossiers. Estava a desenhar o projeto de ampliar: o edifício ao lado serviria para aulas, oficinas de crianças. Investigou dois apoios financeiros, António leu regulamentos a preceito.
Setembro, telefonema numa sexta à tarde.
Não apagara o número de Mário, nunca pensara nisso. O telefone vibrou: Mário.
Esperou segundos.
Clara…
Estou ocupada. Precisas de algo?
Precisava ver-te.
Para quê?
Falar. Preciso.
Clara levantou-se, foi à janela. Gente com sacos, apressando-se no fim do dia.
Sobre o quê, Mário?
São tantas coisas… está complicado. Queria que me ouvisses.
Estou a ouvir.
Não, pessoalmente. Posso ir ter contigo? Onde trabalhas agora?
Pausa.
Estufa do Jardim Botânico. Horário laboral.
E desligou.
Em outubro ele veio. Numa terça de início de tarde. Clara ajeitava suportes das orquídeas. Entrou, o som dos passos dele parecia fora de lugar.
Trazia flores: crisântemos modestos, plastificados, comprados de certeza no metro por cinco euros.
Ela olhou-o cinquenta e seis anos, mais pesado, olhar cansado onde antes havia leveza.
Olá.
Olá.
Está bonito aqui.
Eu sei.
Estendeu-lhe as flores.
Para ti.
Clara fixou-se nas suas mãos inseguras. Aceitou.
Obrigada. Vem sentar-te.
Foram para pequeno canto de visita, com cadeiras de verga, mesa, revistas de jardinagem. António desapareceu com discreção.
Pareces bem, disse Mário.
Obrigada.
Mesmo. Não te via… assim.
Assim, como?
Viva. Surpreendeu-se da palavra. Antes eras só cuidados, a minha mãe, as rotinas. Agora és outra.
Sou eu.
Não… não és.
Clara não falou. Olhava para as árvores de fruto à volta.
Clara, eu sei… Fui injusto. Sei o que disse. Foi…
Foi.
Estava perdido. Pensava precisar de outra coisa, um novo ar. Afinal, só…
Tiveste medo, disse ela.
Medo de quê?
De envelhecer, da doença, da vida ser diferente do que imaginaste. Compreende-se, Mário. É humano.
Não sabia que pensavas assim.
Só aprendi, muito depois.
Passou tempo. O vento agitou folhas lá fora.
Clara… queria voltar. Eu sei que não é muito normal pedir, mas pedia que penses nisso.
Olhou-o. Sabia a resposta, há muito guardada.
Não estou zangada, Mário. Passou. O que ficou foi… compreensão. Não és mau. Escolheste como sabias.
Então há hipótese?
Não.
Porquê?
Porque escolhi de outra forma.
Escolheste o quê?
Isto, apontou à estufa. Este trabalho, este lugar, estas plantas. Eu.
Mário leu-lhe o rosto, percebeu era sincero.
E… Sei que há aqui outro homem. O engenheiro.
O António fala de mais.
Estás com ele?
Mário olhou diretamente já não é assunto teu.
Silêncio, depois aceno.
Percebi.
Fico contente que venhas. Não porque queria conversar, mas assim… fica terminado.
Foste a melhor mulher que podia ter, balbuciou. Não soube dar valor.
Sei. Clara levantou-se Tenho de trabalhar. Se quiseres ver a estufa, mostro.
Ele hesitou.
Não, obrigado. Vou indo.
Foi em direção à porta. Parou.
Clara… tu…
Adeus, Mário.
Felicidades.
Igualmente.
Porta fechada.
Clara ficou algum tempo, pegou nas flores, pôs num jarrão com água. Crisântemos duram muito se forem regados. Flores dignas.
Veio António, fingiu não saber nada.
Chá?
Sim, obrigado.
Bebiam chá, António a contar-lhe sobre as borboletas citrinas que podia trazer no verão se organizasse bem. Clara pensava que era boa ideia, as crianças iam adorar.
Outubro deslizou em novembro. Clara trabalhou no projeto de ampliação, submeteu candidatura ao apoio, recebeu luz verde. António, tão eufórico, comprou bolo, comeram-no na mesa da estufa, riram ao ver migalhas nos esquissos.
Pedro vinha mais vezes, não só em serviço.
Um dia trouxe vinho quente em termos.
É novembro, justificou-se.
Como sabe que não dispenso?
Tem ar de quem não dispensa.
Clara riu-se.
Sentaram-se nos cadeirões, virados para o parque já despido. Pedro serviu vinho especiado, cheirava a cravinho e casca de laranja.
Fala-me do projeto novo, pediu.
Clara explicou, com os esquemas, Pedro a ajudar, dava sugestões técnicas. Era conversação entre pares, igual.
Aqui pode instalar vidro duplo, disse ele. Tira condensação. Já vi numa estufa na Finlândia, clima semelhante.
E estrutura aguenta?
Posso calcular, se quiseres.
Quero.
Ele parou a fitá-la.
Clara Ramos…
Diga.
Gosto de conversar contigo.
Clara hesitou um momento.
E eu.
Do lado de fora, algo mudou neve.
Primeira do ano, ténue, desfazendo-se quase ao pousar, mas cobrindo bancos, galhos. A luz ficou suave.
Está a nevar.
Sim.
Contemplaram juntos.
Clara segurando na caneca quente, sentia o calor nas palmas. Lá fora, inverno; cá dentro, citrinos, ervas, decoravam-se as esquinas com ramos de pinheiro, coisa da época, como dizia António.
Pensou: lá fora é frio, mas aqui dentro construiu um refúgio. O mais fiel retrato do que fez por si. Encontrar um lugar onde o interior é quente, apesar do inverno lá fora.
Em que pensas? murmurou Pedro.
Em coisas boas.
Olhou através do vidro: laranjeiras pequenas, filas de orquídeas, palmeiras altas chegando ao tecto, onde derretiam flocos de neve.
Sim, em coisas boas.
Pedro não disse nada, serviu-lhe mais vinho quente.
E ficaram ali, juntos, na estufa quente, a contemplar o primeiro neve deste outro inverno das suas vidas.







