Cão Bia uivou a noite inteira, não deixando a dona pregar olho. De manhã, quando fui espreitar-lhe a casota, fiquei gelada de susto.
A noite tinha sido tempestuosa, como se a própria natureza despejasse sobre a terra toda a sua raiva contida. A chuva caía a cântaros, como se quisesse lavar o mundo de toda a maldade, injustiça e esquecimento.
Relâmpagos rompiam a escuridão, cegando num piscar de olhos, e o trovão estremecia tudo à volta, fazendo o chão tremer a cada estrondo.
As árvores vergavam, como se fossem feitas de borracha, os ramos fustigando os muros por entre golfadas de água a transformar os quintais em verdadeiros lagos. Tudo parecia envolto em caos e ninguém sabia como amanheceria.
Mas, com os primeiros raios de sol, tudo mudara. Nenhum vestígio da tempestade, nem um sussurro do dilúvio da noite anterior.
O céu, de um azul fresco e brilhante, reluzia como se tivesse sido acabado de lavar. O ar, limpo e transparente, carregava o perfume da terra molhada e do verde renovado das plantas.
Catarina, ainda sonolenta, espreguiçou-se e saiu para a varanda, respirando fundo aquela frescura da manhã. Parecia que o mundo tinha renascido, que havia uma nova esperança no ar.
Mas então, veio-me à lembrança aquele momento estranho durante a tempestade: a minha fiel companheira, a cadela Bia, começou a uivar baixinho. Não era latir, nem rosnar, era um uivo triste, como se pressentisse algo terrível.
Nessa altura não liguei talvez fosse medo dos trovões, um som estranho, pensei. Mas, agora, ao espreitar o quintal, senti um aperto no peito.
Bia era sempre a primeira a receber-me à porta, abanar a cauda, saltar, pedir festas. Daquela vez, nada disso. Ficava deitada dentro da casota, sem vontade de sair.
O meu coração apertou. Será que ficou doente com a trovoada? Aqueles relâmpagos podiam ter feito estragos. Aproximando-me com cuidado, chamei baixinho:
Bia, meu amor, estás bem?
Da abertura da casota, surgiu apenas o focinho de Bia, com uns olhos tristes, desconfiados. Nem saiu, nem saltou apenas me olhava, encolhida.
Que se passa contigo, minha menina? murmurei, sentindo um calafrio na espinha.
Voltei ao interior, cortei uns pedaços suculentos de chouriço a guloseima preferida da Bia. Será que está com fome? Mas nem o cheiro conseguiu tentá-la. Bia nem se moveu.
Parecia esgotada, como se alguma força misteriosa não a deixasse abandonar o que estava escondido lá dentro.
Franzi o sobrolho aquilo não era normal. Bia nunca agira assim, nem nos piores temporais. Normalmente vinha sempre pedir abrigo, colo. Agora parecia proteger algo, afastava-me discretamente da casota. Pensamentos inquietantes começaram a formar-se: estaria doente? Foi mordida, picada? Ou apanhou alguma doença grave?
Sem hesitação, fui buscar o telemóvel e liguei ao veterinário, o doutor Álvaro Magalhães, de quem já era amiga há anos. Ele prometeu vir logo.
Vinte minutos depois, entrou pelo portão o seu velho Renault, impecavelmente cuidado. Álvaro desceu, alto, de cabelos grisalhos, óculos e uma mala preta nas mãos.
Álvaro não era apenas veterinário tinha um dom com animais, percebia-os como mais ninguém.
Ora, o que se passa aqui? perguntou ele, analisando o ambiente.
Contei-lhe rapidamente tudo. O doutor ajoelhou-se junto da casota, chamando bondosamente:
Bia, minha menina, vem daí. Deixa o tio Álvaro ver-te.
Um rosnar profundo respondeu-lhe. Bia colava-se à parede do abrigo. Nunca tinha rosnado a quem conhecia. Era tudo muito estranho.
Isto não é normal… murmurou ele noutros dias ela vinha logo a correr. O que lhe terá acontecido?
Tenho medo que ela esteja doente arrisquei, já com a voz trémula.
Terá sido uma carraça? Ou uma picada de insecto? ponderou Álvaro Precisamos tirá-la dali e examinar.
Aproximei-me, agarrei cuidadosamente o colar da Bia. Ela não resistiu, mas também não quis sair.
Só quando não teve outra alternativa é que se arrastou lentamente, sempre a olhar para trás.
Ali dentro, algo mexe! exclamou, olhando para o interior da casota.
Corri e fiquei sem ar.
No fundo da casota, enrolado numa manta velha, estava um menino pequeno. Dormia agarrado a uma boneca imunda.
O rosto era muito pálido, os olhos avermelhados das lágrimas. A roupa em farrapos, molhada, sem sapatos. Parecia um ser esquecido entre a realidade e o pesadelo.
Isto… isto é uma criança! sussurrou o doutor, pasmado.
Não é isto, é quem! exclamei, atordoada É um menino! Não consigo tirá-lo sozinha ajude-me!
Calma, calma respondeu Álvaro, ajeitando os óculos para espreitar melhor. Bia voltou a rosnar, mas afaguei-lhe a cabeça:
Não faz mal, Bia. Estamos aqui para ajudar. Salvaste-o, foste incrível.
Levei a Bia para a varanda, enquanto o doutor levantava delicadamente o menino. Ele despertou, esfregou os olhos assustado e chorou baixinho.
Peguei-lhe ao colo. Era leve, muito leve, como se não comesse em condições há tempos. Usava uma camisola suja, as calças estavam manchadas, as pernas arranhadas.
Como te chamas, pequenino? perguntei num tom suave.
Nada respondeu. Olhava apenas com uns olhos grandes e assustados, à espera de agressão.
Vou chamar as autoridades, disse, dirigindo-me à sala. Uma criança não aparece assim do nada. Devem estar à sua procura.
Mas o doutor travou-me:
Espera. Conheço este menino. É o Tomás, filho da Leonor Leonor Margato.
Estremeci. Leonor. Aquela rapariga do bairro: em tempos divertida, generosa, mas depois descambou. Juntou-se à má vida, começou a beber em excesso, a roubar, perdeu-se completamente. Na primeira vez, levou pena suspensa deram-lhe uma oportunidade.
Não a aproveitou. Voltou a reincidir: desta vez, assaltou a carteira da vizinha, roubou dinheiro de idosos. Foi presa. Na prisão teve o Tomás. Quando saiu, o menino foi-lhe entregue pelo Estado.
Mas ela saiu há pouco, certo? perguntei.
Sim. Levou-o para casa. Mas não foi para lhe dar amor. Era para mostrar que também era mãe.
E afinal, todos os dias embriagava-se, deixava o miúdo entregue à sorte. Crianças assim deviam ser protegidas pelo Estado. O Tomás tem quase cinco anos, mas mal fala, não sabe o que é lar, família, ternura.
Esforcei-me por não chorar. Eu, tantas vezes, sonhei ter um filho. Duas gravidezes perdidas. Dois sonhos desfeitos. Cada vez, uma dor insuportável. Agora, perante mim, estava um menino rejeitado, como lixo descartável.
Fica comigo, disse com firmeza. Vou alimentá-lo, dar-lhe banho, aquecê-lo. Depois logo vejo como falarei com a Leonor. Tem de ver o que está a fazer ao filho.
Preparei água morna, trouxe uma toalha macia, sabão de bebé. Lavei o Tomás como se fosse meu filho de sangue.
Depois, enfiei-lhe uma das minhas t-shirts, embrulhei-o num cobertor e sentei-o à mesa. Comeu em silêncio, depressa, como se tivesse medo que lhe tirassem a comida.
Nessa altura, entrou o meu marido, Manuel: alto, forte, olhar bondoso.
Catarina, precisas de alguma coisa? Trouxe pão Estancou. E este miúdo?
É o Tomás. Filho da Leonor. Estava escondido na casota da Bia.
Manuel olhou de mim para o menino. Sabia bem quanto eu sofria por não poder ter filhos. Por dentro, partia-me cada vez que via ou ouvia uma criança.
Está bem, disse, baixinho. O que é preciso?
Compra-lhe roupa e sapatos. Tudo novo.
Sem mais perguntas, Manuel saiu. Uma hora depois estava de volta, braços carregados de sacos. Trouxe não só roupa, mas um carrinho de brincar vermelho, de rodas brilhantes. Tomás sorriu pela primeira vez em muito tempo.
Mais tarde, quando adormeceu, sussurrou-me:
Não quero ir para a minha mãe…
Dorme, querido, respondi. Ninguém te vai obrigar a nada.
Manuel abraçou-me.
Não quer ir para ela. E eu compreendo.
Vou falar com a Leonor. Quero entender o que se passa.
A casa da Leonor ficava num bairro degradado, com janelas partidas e cheiro a álcool, tabaco e solidão. Lá dentro, escuridão, desarrumo, abandono. Mal entrei, senti-me sufocada pelo fumo.
Quem é? grunhiu uma voz. Quem está aí?
Leonor, sou a Catarina. Andámos juntas na escola.
Ah nem te conhecia. Que queres?
O teu filho está comigo. Encontrámo-lo na casota, descalço, esfomeado, apavorado.
E qual é o problema? Que ande à vontade. Não se perdeu de vez?
Tu és mãe! Como consegues dizer isso?
E tu, quem és para me dar lições? gritou ela Devolve-me o miúdo! Se não voltar, apanha!
Ele não volta para ti, disse olhando-a nos olhos Vou chamar a polícia. Nenhuma criança merece crescer assim.
Leonor ficou muito séria.
Por favor não chames ninguém é o único que tenho… o meu menino…
Então muda. Endireita-te, limpa a casa, tenta ser mãe. Depois podemos falar.
Mas os dias seguiram-se. Nada mudou. Voltei lá cenário de tragédia: Leonor estava estendida na cama, morta. O coração não aguentou mais o alcoolismo e a decadência.
O funeral foi discreto. Eu e Manuel enterrámo-la. Decidimos então adotar Tomás.
Secaram-se processos, entrevistas, relatórios, visitas da Segurança Social. Passaram-se meses. Por fim, veio a resposta: Tomás já era nosso filho.
Passaram dois anos. Era primavera de novo e Tomás corria feliz no quintal, agora mais crescido, entre os cachorrinhos da Bia precisamente a cadela que lhe salvara a vida naquela noite de tempestade.
Filhote, tem cuidado! gritava eu, do alpendre.
Não faz mal, uns arranhões só fazem bem ao rapaz! ria Manuel, ajeitando o gorro na cabeça da nossa filha Inês, nascida há um ano.
A menina sorria com delícia, tagarelava enquanto via o irmão brincar. E nesse instante, era como se a felicidade fosse completa. Éramos finalmente uma família. De verdade. Não só pelo sangue, mas por escolha e pelo coração
Esta foi a nossa história de humanismo, compaixão e amor verdadeiroNa varanda, Bia veio deitar-se a meus pés, já mais velha, mas sempre atenta. Olhava para mim com aquela expressão sábia, como se dissesse: Fiz o que o coração mandou. Agradeci-lhe em silêncio, acariciando-lhe o pêlo macio.
Tomás apareceu ao meu lado, sujo de terra, cabelo despenteado e olhos a brilhar. Pegou na mãozinha rechonchuda da Inês e, juntos, riram, ambos confiantes de que pertenciam àquele lugar.
O sol começava a descer, dourando tudo. Sentei-me no degrau do alpendre e, por um instante, lembrei-me das noites vazias, dos quartos silenciosos, dos sonhos partidos. Uma dor antiga, que, agora, sabia, não era mais do que memória.
Manuel alcançou-me e entrelaçou seus dedos nos meus. Sorrimos um para o outro. Era uma casa simples, a vida sem grandes requintes mas, ali, cabiam todas as promessas do mundo.
Nesse fim de tarde, ouvindo a gargalhada das crianças energizadas pela esperança, compreendi: até nas tempestades mais negras, a vida pode costurar milagres inesperados. E, às vezes, são os cães, a inocência, o amor e um gesto de coragem que fazem nascer, no coração da gente, um lar novo e luminoso.
Tudo era, afinal, início. A tempestade passara. Restava-nos a beleza de recomeçar.
