Banco vazio
António Martins pousou o termo nas pernas e conferiu a tampa só para garantir que não estava a pingar. A tampa segurava bem, mas o hábito ultrapassava a confiança. Sentou-se na ponta mais afastada do banco junto à entrada da escola primária, onde não se apertavam os outros pais nem lhe batiam com as mochilas. No bolso do casaco, guardava um pacotinho com migalhas secas para os pombos; noutro bolso, um papel dobrado com o horário da neta: quando tinha prolongamento, quando havia aula de música. Sabia o horário de cor, mas o papel acalmava-lhe o espírito.
Ao seu lado, como sempre, já estava sentado Joaquim Almeida. Tinha nas mãos um saquinho de sementes de girassol e, sem olhar, estalava uma atrás da outra. Não as comia, só passava de uma mão para outra, como se contasse pensamentos. Quando António se aproximou, Joaquim acenou discretamente e puxou-se um pouco, deixando espaço. Os cumprimentos eram sempre mútuos e silenciosos, parece que receavam perturbar o ritmo do recreio.
Hoje eles têm teste de matemática disse Joaquim, olhando para as janelas do segundo piso.
A nossa tem leitura respondeu António, surpreendendo-se ao dizer a nossa.
Gostava de como Joaquim não zombava disso.
A amizade nasceu discreta, sem formalidades. Primeiro, cruzavam-se apenas pelo horário. Depois, começaram a reconhecer-se pelas roupas, pela maneira de caminhar, pelo gesto de quem se sentava. Joaquim aparecia sempre dez minutos antes do toque, sentava-se no mesmo banco e ficava a observar os portões, como se verificasse se estavam fechados. António começou por esperar de pé, mas um dia cansou-se e sentou-se ao lado. A partir daí, aquele pedaço de banco tornou-se partilhado.
No pátio da escola, tudo era igual todos os dias, e isso trazia segurança. O guarda na portaria, saía para fumar e voltava sem levantar os olhos. A professora das turmas pequenas passava apressada com uma pasta e falava ao telemóvel: Sim, sim, depois das aulas. Os pais discutiam atividades e trabalhos de casa. As crianças corriam para as janelas e acenavam cá embaixo. António percebeu que já esperava não só pela neta, mas também por esse ciclo constante.
Certo dia, Joaquim trouxe um segundo copo e colocou-o ao lado do termo de António.
Eu não bebo, justificou-se. Tenho a tensão alta.
A mim ainda me deixam riu António, enchendo o copo com cautela. Quer sentir ao menos o cheiro?
Joaquim sorriu de lado.
O cheiro não faz mal.
Criaram um ritual: António servia o chá, Joaquim segurava o copo para não entornar e devolvia-o vazio. Às vezes partilhavam bolachas, outras vezes, apenas silêncio. António reparou que o silêncio com Joaquim não o incomodava. Parecia uma pausa numa conversa que sabia que continuaria.
Falavam dos netos com cuidado, como se falassem do tempo. Joaquim explicava que o Rui não gostava de Educação Física e inventava sempre desculpas para ficar na sala. António ria, dizendo que a sua Matilde era o oposto: corria tanto no recreio que a professora implorava para andar devagar. Depois, começaram a falar de mais coisas. Joaquim confidenciou que, após a morte da mulher, demorou muito tempo a sair de casa, só a escola o puxava porque tinha de ser. António não devolveu de imediato a confidência, mas nessa noite, enquanto lavava a loiça, percebeu que tinha vontade de contar também.
Vivia com a filha e a neta num T2 nos subúrbios de Lisboa. A filha trabalhava na contabilidade, chegava sempre exausta, falava só o essencial. A neta era ruidosa, mas com o barulho bom das crianças. António tentava ser útil, sem atrapalhar. Por vezes, sentia-se como uma cadeira a mais na cozinha: não incomodava mas recordava que a casa era pequena.
Com Joaquim, no banco, sentia-se esperado não só pela função. Joaquim perguntava: E como vai a tensão? ou Já foi ao médico? não era uma cortesia. António respondia, e percebia que era sincero.
Um dia Joaquim trouxe um saquinho de ração para pássaros.
Já conhecem disse. Veja como se aproximam.
António pegou no saco e espalhou uma mão cheia no passeio. Os pombos rodearam as migalhas como se estivessem à espera de sinal. As patas faziam ruido na areia e António sentiu um alívio estranho: um gesto simples que fazia diferença para alguém.
Foi aos poucos que passou a considerar aqueles encontros como seus. Não enquanto a neta está na escola, nem enquanto há tempo, mas como um pedaço do dia que não se pode cortar. Até deixou de chegar em cima da hora. Preferia sair antes, garantir o lugar e ver Joaquim chegar, tirar as luvas, olhar para as janelas.
Naquela segunda-feira, António chegou como sempre e viu o banco vazio. Parou, como se tivesse vindo ao recreio errado. O banco estava húmido do aguaceiro da noite; uma folha amarela colava-se à madeira. António tirou o lenço, limpou um canto e sentou-se. Pôs o termo ao lado, o pacote das migalhas nas pernas. Olhou para a portaria. O guarda, de cabeça baixa no telemóvel, nem reparou.
Está atrasado, pensou António. Joaquim, por vezes, atrasava-se se havia fila na farmácia. António serviu chá, bebeu um gole e esperou. Ao toque da campainha, Joaquim não apareceu.
No dia seguinte, o banco manteve-se vazio. Desta vez António nem limpou, sentou-se onde estava seco e ajeitou a folha de jornal. Ficava a olhar para os portões, atento a qualquer figura de homem mais velho de casaco escuro. Ninguém se aproximou.
Ao terceiro dia, António sentiu irritação. Não com Joaquim, mas com o vazio sem explicação. Pensou: Tanto faz, se calhar não eramos assim tão necessários um ao outro. Logo se envergonhou. Não tinha direito a exigir nada. Mas exigia dentro de si.
Joaquim usava um telemóvel antigo, daqueles de teclas. António já tinha visto quando ele procurava contactos, apertando os olhos. Tinha anotado o número no bloco, quando, tempos atrás, discutiram como chamar táxi para o neto no torneio. Em casa, António procurou o bloco, marcou o número. Chamou e caiu em sinal curto, silêncio. Voltou a tentar. Nada.
No quarto dia, abordou o guarda.
Diga-me, por favor… o senhor Joaquim Almeida… o avô do Rui, costumava estar aqui. Não viu por acaso?
O guarda levantou os olhos, encarando António como quem exige uma senha.
Há muitos avôs respondeu. Não guardo caras.
Ele alto, bigode… António percebeu como soou desalento.
Não sei o guarda já estava novamente no telemóvel.
Tentou perguntar a uma senhora que sempre esperava junto ao portão, a ralhar com os professores pelos trabalhos.
Não sabe do Joaquim Almeida…
Não conheço ninguém cortou. Só quero apanhar o meu.
Falou com uma mãe jovem, de bebé no carrinho, que costumava sorrir-lhe.
Desculpe, conhece o Rui? O menino do terceiro ano.
Rui? pensou. Sim, acho que sim. É sossegado. Porquê?
O avô dele… deixou de vir.
A mãe encolheu os ombros.
Se calhar está doente. Há muita gente adoentada agora.
António voltou ao banco, sentindo a preocupação a subir-lhe até à garganta. Tentava convencer-se que não era nada com ele. Mas ao olhar o espaço vazio ao lado, sentia que estava a falhar algo importante, como se trair aquela rotina só por esperar e fingir que não se passava nada.
Em casa, contou à filha enquanto cortava os legumes da sopa.
Ó pai, isso acontece respondeu ela, sem levantar os olhos. Se calhar foi visitar família.
Ele teria avisado retorquiu António.
Tu não sabes suspirou a filha. Não te aflijas. Olha a tensão.
A neta escutava com o caderno à frente.
O avô Joaquim? perguntou ela. Ele é engraçado. Uma vez disse que eu lia mais depressa do que ele pensava.
António sorriu, mas o sorriso ficou azedo e doído.
Pronto, disse a neta. Se calhar ele… tem coisas a tratar.
António acenou, mas à noite ficou acordado muito tempo, a ouvir a filha falar baixinho ao telefone no quarto ao lado. Quis levantar-se e marcar de novo o número de Joaquim, mas receava ouvir um desconhecido ou então apenas silêncio.
No dia seguinte, enquanto esperava a neta, viu o Rui sair o último da escola, mochila demasiado grande às costas. Junto a ele ia uma mulher de quarenta e poucos anos, ar sério, cabelo curto. António percebeu que era mãe.
Aproximou-se devagar, esperando que avançassem uns passos, e só então perguntou:
Desculpe, é a mãe do Rui?
A mulher ficou alerta.
Sou. E o senhor quem é?
Eu… eu esperava pelo seu pai… pelo Joaquim Almeida… junto ao banco. Sou António Martins. Ele não tem vindo, estou preocupado.
A mulher olhou-lhe de frente, como se ponderasse se podia confiar.
Está no hospital disse por fim. Teve um AVC. Não foi muito grave… bom, depende. Está na ala da reabilitação. Tiraram-lhe o telemóvel, para não se perder.
António sentiu as pernas a fraquejar. Agarrou a alça do saco.
E onde?
No Hospital de Santa Maria, ali à Reboleira respondeu. Não deixam entrar qualquer um. Compreende?
Compreendo mentiu António. Difícil era aceitar que não se podia entrar, que alguém estava sozinho.
Obrigada por perguntar acrescentou, mais gentil. Vai gostar de saber que alguém se lembra dele.
Ela pegou na mão do filho e rumou à paragem. António ficou junto ao portão. Um alívio: pelo menos houve resposta. Mas uma ansiedade nova apareceu, porque a causa era pesada.
Regressou a casa e contou à filha. Ela encolheu as sobrancelhas.
Ó pai, não vais meter-te nisso murmurou. Ainda te inscrevem como segurança. E ele, afinal, quem é para ti?
António reconheceu naquele tom menos zanga, mais medo. Medo de que o pai se absorvesse numa preocupação e se desequilibrasse.
Não é nada disse ele. Mas é.
No dia seguinte, António foi ao centro de saúde onde fazia análises. Sabia que ali havia uma assistente social, tinha visto o cartaz no corredor. O cheiro a lixívia e capas molhadas misturava-se ao som das pessoas nas filas, discussões na secretária. Tirou senha, aguardou a vez.
A assistente social ouviu, olhos cansados.
É familiar? perguntou.
Não respondeu António com honestidade.
Então não lhe posso dar nenhuma informação do paciente explicou, profissional. São dados privados.
Não quero diagnóstico António sentiu a voz falhar. Só queria deixar um recado. Ele está sozinho, sabe? Todos os dias…
Compreendo suavizou ela. Pode deixar uma mensagem através dos familiares. Ou tentar pelo serviço, caso autorize. Sem permissão, não posso.
Saiu para o corredor e sentou-se na bancada. Ficou envergonhado, como mendigo a pedir atenção. Pensou: É isto. Só um velho ridículo que se mete onde não foi chamado. Teve vontade de desistir, ir para casa, fechar-se e nunca mais ir à escola.
Mas depois lembrou-se de como Joaquim equilibrava o copo de chá, partilhava o saco de sementes silenciosamente, como esses gestos tornavam o dia mais leve. António percebeu que era sua vez de retribuir.
Telefonou à mãe do Rui. Não tinha o número, mas no dia seguinte pediu-lhe junto à escola. Hesitou, mas ao ver a determinação, ditou-lhe para escrever.
Nada de excessos avisou. Aquilo tem regras.
De noite, António ligou.
Aqui António Martins. Queria… queria pedir que leve aí um recado ao Joaquim. Pode?
Do outro lado, silêncio.
Ele fala pouco agora, explicou ela. Mas ouve. Vou lá amanhã. O que digo?
António olhou o bloco, onde já tinha escrito meia dúzia de frases, mas agora pareceram-lhe estranhas.
Diga-lhe que o banco ainda está lá murmurou. Que eu espero. E que o chá… levo quando lhe deixarem sair.
Transmito garantiu ela.
Depois sentou-se muito tempo na cozinha. A filha lavava a loiça, fingindo não ouvir. Só depois de pousar o prato disse:
Pai, se quiseres, vou contigo quando deixarem visitas.
António acenou. Não era a ida; era ouvir contigo, não para que o queres.
Uma semana depois, a mãe do Rui abordou-o à porta da escola.
Sorriu quando falei no banco disse ela. E com a mão… assim, como a chamar alguém. O médico diz que vai precisar de reabilitação longa. Depois deve vir viver connosco. Não pode ficar sozinho.
António sentiu um vazio, como quando tiram um casaco do cabide. Sabia que aqueles encontros diários não voltariam. E era uma ausência concreta.
Posso escrever-lhe uma carta? perguntou ele.
Claro consentiu ela. Mas curta. Cansa-lhe ouvir muito tempo.
À noite, António escolheu uma folha limpa. Escreveu, letras grandes: Joaquim Almeida, estou aqui. Obrigado pelo chá e pelas sementes. Espero por si. António Martins. Pensei em acrescentar O Rui é um rapaz simpático. Releu, não corrigiu. Dobrou no envelope, assinou o apelido que sabia Joaquim uma vez lhe mostrara uma fatura da luz e praguejara sobre os preços.
No dia seguinte levou o envelope à escola, entregou à mãe do Rui. O papel estava seco e limpo; segurou-o como uma coisa delicada.
Quando tocou a campainha e as crianças saíram, António levantou-se, como sempre. A neta correu para ele, abraçou-o pela cintura, começou a relatar a aula. António escutava, mas o olhar buscava o banco. Estava vazio, e dessa vez o vazio deixou de o incomodar. Era um espaço onde tinha acontecido algo importante, mesmo que agora parecesse ausente.
Antes de ir embora, António tirou do bolso o pacotinho de migalhas e espalhou-as no passeio. Os pombos vieram depressa, como se soubessem tão bem o horário dos adultos como o das crianças. Olhou-os e, de súbito, percebeu que podia continuar a vir ali não só para esperar, mas para não se fechar.
Avô, em que estás a pensar? quis saber a neta.
Em nada respondeu, pegando-lhe na mão. Vamos. Amanhã voltamos.
Disse-o não como promessa a alguém, mas como escolha pessoal. E por isso, o passo seguiu seguro.







