O Aniceto, que se ofereceu para me levar até à casa dos meus pais, revelou-se incrivelmente vesgo. Acabou por me largar ao pé da Casa do Gaiato, totó de uma figa!

O Manuel, aquele velho amigo que prometeu acompanhar-me até à casa dos meus pais, tinha um dos estrabismos mais marcados que já vi na vida. Acabou por me deixar esquecido no portão da Casa do Menino Jesus, feito galinha depenada. E, a partir daí, a minha vida tomou um rumo completamente ao lado.

Lá pelos quarenta, ao menos consegui arrastar-me para fora do buraco onde aquela ave tonta me tinha atirado. Fiz casa em Sintra, casei com a Olívia, comprei o meu primeiro carro já com uns bons anos em cima do coiro, mas ainda a andar . Só me faltava plantar qualquer coisa e criar alguém. Um, ao lado da Olívia, ainda conseguiríamos criar. O segundo nem nos passava pela cabeça sonhar.

Era precisamente sobre plantar, crescer, e aquele horrível amanhecer chuvoso que pensava, enquanto preparava o café com cheiro a brasas. Os meus boxers de algodão, herança de solteiro, baloiçavam com o corrente de ar da casa. Engraçado como ganhei boxers de família antes sequer de fundar a família.

De súbito, bateram ao vidro da varanda. Os miúdos lá em baixo atiravam pedras aos pombos outra vez? Uns malandrecos, só com uma cegonha ao comando é que aprendiam.

Voltaram a bater. Depois, mais uma vez. Quem seria a esta hora, no terceiro andar? Afastei a cortina. E, pasmem-se, era mesmo aquela antiga cegonha zarolha das minhas memórias de infância, movendo-se desajeitada pelo varandim.

Arreda, bicho! gritei, apanhado de surpresa, enquanto a minha torrada voou directamente até ao soalho.

Oh Manuel, desculpa lá, a cegonha esticou o pescoço, metendo-o pela fresta da porta a culpa é minha, admito. Podes tricotar nas penas! Mas do lado direito, que é mais fofo.

Vai à tua vida, tentei empurrar aquele pescoço comprido de volta para a rua, agarrando-o com ambas as mãos.

Manoelzinho, não sejas teimoso, começou a tossir a cegonha escuta lá, homem.

E agora falas? Bem te dou um nó, pá, não me chateies.

Vim só pedir desculpa, com sinceridade.

Chegas tarde, bico grande.

Nesse instante, a campainha tocou apressadamente. Era a Olívia a chegar.

Desaparece! ordenei à cegonha, empurrando-a para fora. Quero-te fora daqui quando eu voltar.

Corri para a porta quase sem pensar.

Desculpa, Manuelzinho, desculpa, juro que resolvi tudo.

Olívia irrompeu casa adentro, encharcada e radiante. Os cabelos estavam colados às faces, os olhos fulguravam felicidade. Será que também ela tinha cruzado com a cegonha?

Sem tempo para palavras, lançou o chapéu-de-chuva para o lado e agarrou-me ao pescoço com tanto fervor que quase me faltou o fôlego.

Quatro! Quatro! gritou por toda a casa.

Como assim, quatro? perguntei, abismado.

Vamos ter quadrigémeos! Quatro bebés pequeninos, Manuel!

E, nesse instante, as palavras da cegonha e a notícia cruzaram-se num sopro de realidade. Disparei para a varanda. A cegonha zarolha acabava de alçar voo. Ainda tentei agarrar-lhe a cauda.

Não consegui.

Espera aí, sua desgraçada! gritei para o céu. Espera, bico de meia-lua!

Já corrigi! ecoou lá do alto.

Voltei-me. Olívia estava atrás de mim a chorar de felicidade, e a chuva lá fora já não parecia tão miserável.

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O Aniceto, que se ofereceu para me levar até à casa dos meus pais, revelou-se incrivelmente vesgo. Acabou por me largar ao pé da Casa do Gaiato, totó de uma figa!