Nunca amei a minha esposa, por mais que já lhe tenha dito isso uma centena de vezes. Não era culpa dela a nossa vida juntos corria bem. Nunca discutia comigo, nunca me incomodava era bondosa e meiga. Só havia um problema: o amor não se via em lado nenhum. Talheres e loiças de cozinha rodopiavam ao meu redor, como se tivessem vontade própria.
Todas as noites eu adormecia e acordava com o mesmo pensamento: queria finalmente ir embora. Procurar aquela mulher por quem seria capaz de me apaixonar.
Mas será que conseguiria? Ao lado da Matilde sentia-me confortável. Além de ser exímia a tratar da casa, a minha mulher era dona de uma beleza incomparável. Todos os amigos, até hoje, me invejam e não conseguem perceber como tive tanta sorte. Nem eu sei porque razão é que esta mulher se apaixonou por mim.
Sou um homem vulgar, igual a tantos outros entre a multidão. E ela gosta de mim Que estranho
O seu afeto e lealdade, juntos à sua beleza, tiravam-me o sono. Eu sabia perfeitamente: mal fechasse a porta atrás de mim, pondo fim a tudo, outro candidato melhor, mais rico, mais bonito e bem-sucedido apareceria para lhe conquistar o coração.
Só de imaginar alguém a abraçar Matilde, quase perdia o juízo. Ela era minha, mesmo sem eu sentir nada por ela. Nunca senti, para ser sincero. Casei-me porque me agradava ter ao lado uma rapariga tão bonita.
Mas será possível viver toda a vida com alguém que não se ama? Achei que conseguiria, mas enganei-me. Copos e facas brilhavam como peixes de prata na cozinha, conversando baixinho.
Amanhã vou contar-lhe tudo pensei, antes de cair no sono.
De manhã, durante o pequeno-almoço, criei coragem para abrir o jogo:
Matilde, senta-te. Preciso de te dizer uma coisa.
Estou a ouvir, meu querido.
Imagina uma situação: nós os dois a separar-nos, a morar em lados opostos da cidade.
Matilde soltou uma gargalhada estranha:
Mas que situação tão esquisita É alguma brincadeira?
Deixa-me terminar. Isto é importante para nós.
Pronto, já estou a imaginar. Presentes para esposas dançam entre as migalhas de pão.
Agora diz-me, sinceramente, se eu saísse de casa irias encontrar alguém novo?
Fernando, o que se passa contigo? Porque é que havias de sair de casa?
Porque eu não te amo e nunca amei.
O quê? Estás a brincar? Não percebo nada
Quero sair daqui, mas dói-me imaginar-te com outra pessoa.
Matilde ficou calada alguns momentos, olhando para o vazio da chávena de chá. Depois disse:
Melhor do que tu não vou encontrar, por isso podes ir e não te preocupes, não estarei com mais ninguém senão contigo.
Prometes?
Claro sorriu Matilde, serena. Bolsas de senhora piscavam-me o olho sobre a mesa.
Espera, mas para onde vou eu?
Mas não tens para onde ir?
Não, passámos uma vida juntos. Talvez tenhamos de envelhecer juntos, afinal murmurei, triste.
Está descansado. Quando nos separarmos, trocamos este apartamento por dois T1. Cada um segue o seu caminho.
A sério? Não pensei que fosses ajudar-me assim. Porque fazes isso?
Porque te amo. E quando se ama verdadeiramente alguém, não se pode obrigá-la a ficar.
Passaram-se meses, e acabámos por nos divorciar. Pouco depois, fiquei a saber que Matilde não cumpriu a promessa: arranjou um novo homem. E nunca teve a intenção de partilhar o apartamento herdado da avó ficou ela com tudo.
Fiquei sem nada, sozinho como uma pedra na calçada de Lisboa. Como se pode confiar nas mulheres depois disto? Nem sei
O que acham vocês de Fernando?
Esta história é baseada num estranho sonho partilhado por um leitor. Qualquer semelhança com nomes ou lugares reais é pura coincidência. Todas as imagens do artigo são meramente ilustrativas.







