Naquele salão elegante de Lisboa, Isabel conheceu o seu futuro marido num casamento de amigos em comum. O olhar deles cruzou-se e foi como se todo o mundo tivesse parado. Apaixonaram-se de imediato, mergulhando num romance acelerado que lhes ocupou todas as horas daquela noite. Semanas depois, já não conseguiam imaginar a vida um sem o outro. Casaram-se rapidamente e mudaram-se para um pequeno apartamento na Avenida da Liberdade.
Pouco tempo depois, Isabel descobriu que estava grávida. Porém, nunca conseguiu fazer uma ecografia durante a gestação tudo conspirava contra: ora ficava doente, ora o patrão não lhe dava dispensa do trabalho, ora surgia outro contratempo. A gravidez foi dura. Isabel sentia-se constantemente exausta, com enjoos persistentes e dores nas costas que a obrigavam a ficar deitada quase diariamente. Com a barriga cada vez maior, mal conseguia andar e, no último mês, nem saiu de casa. O marido, Rodrigo, dedicava-lhe amor e atenção, mas passava quase todo o tempo no escritório, a correr atrás de euros para sustentar a família.
O parto chegou antes do previsto. Os médicos vigiaram Isabel de perto, sem a deixarem sozinha um instante. Os bebés vieram em sequência: duas meninas, Beatriz e Mafalda, e um menino, Tomás. O choque apoderou-se de Isabel. Rodrigo entrou no quarto e ficou estupefacto: em segundos, era pai de três crianças.
Enquanto Isabel se recuperava no Hospital de Santa Maria, Rodrigo correu a comprar berços, mas o espaço era apertado no apartamento de um só quarto. Não havia saída. E então começou o quotidiano difícil: noites em claro, febres, doenças de infância. Rodrigo sonhava com os tempos despreocupados de paixão, com longas conversas e jantares românticos ao som do fado. Nada disso voltaria.
Isabel mal conseguia acompanhar o ritmo das crianças. O tempo para Rodrigo evaporou-se. Até que, num dia cinzento, ele saiu para o trabalho e nunca mais regressou.
Isabel procurou em toda parte no hospital, na esquadra, entre amigos. Tudo em vão. Rodrigo não aguentou e abandonou mulher e filhos.
Nesse momento, Isabel entendeu que tinha de ser forte. A responsabilidade das crianças era toda dela. A mãe, Dona Maria, veio morar com elas e juntas cuidaram dos pequenos, mesmo quando tudo parecia impossível. Sobreviveram com o abono de família e a pensão modesta da mãe.
Quando inauguraram um novo centro comercial perto de casa, Isabel arriscou e foi procurar emprego. O gerente viu nela uma mulher determinada e contratou-a, apesar dos três filhos. A vida ganhou outro rumo: com o salário, depois conseguiu pagar a uma ama, aliviando a carga de Dona Maria. Com os anos, Isabel foi promovida. Floresceu num novo mundo, tornou-se elegante e confiante.
Foi assim que Rodrigo a viu anos mais tarde, quando voltou a Lisboa para visitar os pais. Pediu para ver os filhos e implorou a Isabel que o perdoasse, suplicando uma segunda oportunidade. Isabel olhou-o com uma serenidade fria, percebendo que já não sentia nada por ele. Diz-lhe calmamente que o passado ficara para trás. Quando Rodrigo saiu, Isabel sentiu uma libertação inesperada. O passado estava finalmente morto. O futuro, brilhante e aberto, era só dela.







