Nós Não Somos Lixo, Filho. (Conto)

Pai, já te disse que não! Estás a ouvir-me? Esse traste devia era ir parar ao lixo, não para dentro de casa!

A voz do filho cortou o silêncio da cozinha. Ana Paula congelou junto ao fogão, a concha suspensa sobre a panela. Uma gota de sopa de couve caiu no bico do fogão e fez um chiado. Ela virou-se. João Manuel estava à porta do anexo, a segurar numa cadeira velha de madeira, com pernas torneadas, daquelas que se faziam ainda nos anos sessenta. André bloqueava-lhe a passagem, as pernas abertas e os braços cruzados ao peito.

Andrézinho começou Ana Paula em tom baixo, secando as mãos ao avental isto não é lixo nenhum. O teu pai vai restaurá-la, repara bem nas pernas, que bem trabalhadas…

Mãe, por favor, não comeces André nem olhou para ela. Pai, digo-te isto sem maldade. Já tens setenta e dois anos. Não devias andar a carregar tralhas. Já te esqueceste do que o médico disse, depois daquela tensão alta?

João Manuel calou-se. Os dedos ficaram brancos a apertar o espaldar da cadeira. Pousou-a no chão, endireitou as costas. Ana Paula viu a veia latejar-lhe na têmpora sempre acontecia assim, quando ele lutava para se controlar.

Eu não carreguei sozinho disse ele, numa voz serena. O Manuel do lado veio ajudar. Trouxemo-la a dois.

Isso não interessa! André ergueu as mãos, impaciente. O que interessa é que a nossa casa já parece um armazém. Ali ao canto, três cómodas. No anexo, mais duas. Essas latas de verniz, pincéis, trapos espalhados por todo o lado… Mãe, tens noção de que isto é perigoso? Se pega fogo?

Ana Paula foi juntar-se ao marido. O cheiro dele a madeira e óleo de linhaça enchia-lhe as narinas era o cheiro da infância, do avô na oficina. Quando começaram a mexer nestas coisas, meio ano antes, sentiu-se de novo jovem. Como se voltasse atrás no tempo.

André, nós temos cuidado disse ela, a tentar manter a calma. O verniz fica lá fora, na caixa de metal. Só trabalhamos quando há corrente de ar, areja-se tudo bem…

Mãe, isso não resolve André já mexia no telemóvel. Olha aqui: estatísticas de incêndios. Sabes quantos fogos começam por culpa dessas coisas inflamáveis?

Já chega, André João Manuel aproximou-se um passo. Passei a vida inteira num gabinete de engenharia. Sei o que faço em termos de segurança, talvez até melhor que tu.

Foste engenheiro há trinta anos, pai André guardou o telemóvel e enfrentou-o nos olhos. Agora és reformado, tens problemas no coração. Nem preciso de estatísticas para perceber que vocês estão a brincar com o fogo.

Não estamos a brincar Ana Paula sentiu um nó na garganta. Estamos a viver, percebes? Dá-nos alegria estas coisas.

Pela primeira vez, André olhou de frente para a mãe. No olhar dele viu-se aquela mistura estranha de pena e irritação, como se ela fosse ingénua, incapaz de perceber o óbvio.

Mãe, eu entendo que estejam aborrecidos falou devagar, didático, como se ela fosse uma criança do primeiro ano mas isso não é solução. Posso inscrever-vos num clube. Ou então vamos passar uns dias juntos à Figueira, ou a um spa…

Não estamos aborrecidos interrompeu João Manuel. E não vamos a lado nenhum. Queremos estar em casa, com o nosso trabalho.

Trabalho? Pai… André encolheu os lábios. Achas mesmo que arrastar velharias, besuntá-las com verniz fedorento e enfiá-las num canto é trabalho? Isso nem sei como chamar.

André! Ana Paula perdeu a paciência. Vê lá como falas com o teu pai.

Falo com verdade, mãe. Alguém tem de o fazer. Vocês vivem num mundo só vosso e eu depois limpo os desastres.

Que desastres? João Manuel empalideceu. O que estás para aí a dizer?

André demorou a responder, depois esfregou o nariz, respirar fundo.

Pai, mãe, sem dramas. Eu não tenho nada contra terem um passatempo, mas tem de ser algo seguro. De cabeça fria, até já pensei vender a casa. Digo a longo prazo, claro. Vocês vivem sozinhos aqui, no meio de nenhures. Se vos acontece alguma coisa, a ambulância pode demorar mais de uma hora à conta do trânsito na IC19.

Um silêncio denso instalou-se. Ana Paula ouviu ao longe um cão ladrar, o arrastar das folhas da figueira, o bater agitado do próprio coração.

Vender a nossa casa? João Manuel ficou de gelo. Aqui?

Não é já, claro apressou-se André. Mas seria lógico. Comprava-vos um T1 em Odivelas ou Benfica, ficavam pertinho de nós. E o que sobrar servia para ajudar a Mariana com a faculdade.

Ana Paula olhou para o filho e não o reconheceu. Ali estava o André de quem cuidara toda a vida, a quem dera de comer, ensinara a escrever, levava pela mão até à pré-primária. Agora falava da casa onde viveram quarenta anos como se fosse um ativo financeiro. Um número num recibo.

André disse ela, com a voz a tremer isto é a nossa casa. Aqui estamos bem.

Pensam que estão, contestou ele mas não veem os riscos. Estou só a proteger-vos, mãe. Quero que estejam em segurança.

Queres que fiquemos fechados entre quatro paredes à espera do fim disse João Manuel, cansado. Só isso.

Não digas disparates, pai. Quero que vivam e sejam felizes.

Nós já somos felizes! o pai quase gritou, fazendo Ana Paula estremecer. Somos felizes com estas cadeiras, estes cómodas! Fazemos algo com as mãos, sentimo-nos vivos não uns farrapos de gente encostados à reforma!

André engoliu em seco, mandíbula tensa. Depois virou costas e subiu os degraus da casa.

Fim da conversa atirou, fechando a porta. Reflitam sobre o que vos disse.

Ana Paula ficou a observá-lo. Depois olhou para o marido, que permanecia de ombros caídos, a fitar a cadeira no chão. Aproximou-se e envolveu-lhe a cintura. Ele abraçou-a com força, sentiu-lhe o tremor do corpo.

João sussurrou não fiques assim. O nosso rapaz não faz por mal. Só não percebe.

Não percebe… repetiu ele num tom baixo. Tem quarenta e cinco anos e não percebe.

Ficaram assim, encostados. Até que João Manuel afastou-se, pegou na cadeira.

Vou pô-la no anexo. Faço o restauro na mesma. O que ele pensa não me interessa.

Ana Paula anuiu. Regressou à cozinha, onde a sopa já se arrefecera na panela. Desligou o fogão, encostou-se ao frigorífico. Da sala, ouviu o filho ao telefone, voz prática, cheia de números, prazos, spreads da hipoteca.

Ao jantar, enfim, os três sentaram-se numa mesa carregada de silêncio. André comeu depressa, de olhos postos no prato. O pai pouco tocou na comida, só mexia na fatia de pão. Ana Paula tentava, em vão, iniciar conversa: perguntava por Mariana, pela Rita, pelo trabalho. Só respostas secas.

A Mariana anda atarefada com os exames disse André, finalmente. A Rita vai puxando por ela. O trabalho está igual.

E a Rita, lá na escola? insistiu Ana Paula. Dizias que a iam nomear diretora de turma.

Já foi, sim. Dá-lhe um suplemento, mas também trabalho para dar e vender.

Dá-lhe um beijinho da avó. E à Mariana também.

Está bem.

E voltou o mutismo. João Manuel afastou-se da mesa, levantou-se.

Vou ao anexo murmurou.

João, talvez agora não… Ana Paula tocou-lhe no ombro. Descansa um pouco.

Preciso, Paula deu-lhe um beijo rápido na testa e saiu.

André lançou-lhe um olhar, abanou a cabeça.

Teimosos como mulas, vocês os dois. Têm de ser sempre do contra.

André Ana Paula sentou-se à frente dele, olhou-o nos olhos filho, escuta. Isto não é teimosia. É a nossa vida. Passámos uma vida a trabalhar: o teu pai na fábrica, eu na biblioteca. A juntar para ti, para te dar a melhor educação, para a tua casa. Depois tu cresceste, foste à tua vida, criaste família. Ficámos só nós. E é difícil, filho. O silêncio pesa.

O filho ouvia, sem expressão.

Até que o teu pai encontrou uma cómoda velha na lixeira, continuou ela trouxe-a para casa. Limpou, raspou a tinta, verniz novo. Ficou maravilhosa, André. Quase parecia nova… E nós também. Sentimos que ainda fazíamos falta, que as mãos ainda sabiam trabalhar, a cabeça raciocinar. Isso é importante, filho. Muito importante, quando já passaste os setenta.

André ficou calado, depois suspirou.

Mãe, percebo tudo isso. Mas vejo o que vocês não veem os vossos riscos. O pai já teve um enfarte, a tua tensão salta tão facilmente. Vivem a meia hora da cidade, se acontece algo…

Não vai acontecer nada cortou Ana Paula. Não estamos inválidos. Somos idosos, sim, mas independentes. Tratamos do quintal, da horta… Não nos metas num rótulo.

Eu só quero que estejam em ambiente seguro. Com farmácias, médicos, lojas à porta. Nada de lareiras para acender…

Temos gás natural, lembrou ela só acendemos a lareira para o forno antigamente.

Exato, mas complicam a vida, e a minha também. Ando sempre em sobressalto. Mariana preocupa-se, a Rita preocupa-se.

Ana Paula percebeu, enfim, que o filho não a escutava realmente. Ouvia, mas não ouvia. Já tinha decidido o destino deles: um apartamento pequeno, debaixo do seu olho, sem hobbies, sem incógnitas.

Pronto, disse ela melhor deixarmos isto para amanhã. Estás cansado da viagem. Vai descansar, filho.

Ele assentiu e retirou-se para o quarto onde em tempos dormira em criança. Ana Paula arrumou a mesa, lavou a louça. Depois atirou-lhe uma camisola nas costas e foi ao anexo.

João Manuel estava sentado num banco, a lixar calmamente a cadeira. A luz fraca mostrava-lhe o cabelo grisalho, as costas curvadas. As mãos moviam-se com lentidão e mestria. Ela pôs-lhe as mãos nos ombros.

Vai ficar linda sussurrou.

Sim ele não levantou a cabeça a talha está perfeita. Só preciso de colar aquele pé.

Ficaram em silêncio. Até que ela perguntou:

João, e se ouvíssemos um bocadinho o André? Talvez estejamos a exagerar com tanta mobília… Podíamos guardar só duas peças, entregar as outras.

Ele parou, poisou a lixa, virou-se. Os olhos tristes, cansados.

Paula, se agora cedemos vai ser sempre a dar. Depois ele acha que pode mandar em tudo: não mexam mais no quintal, não saiam, mudem-se para a cidade. E vamos fazer o quê na cidade? Sentar-nos no banco à porta do prédio a dar migalhas aos pombos? Esperar que ele venha uma vez por mês, olhe para nós, e vá à vida dele?

Ana Paula soube que tinha razão. Mas também lhe doía saber que o filho partiria, zangado, um muro outra vez a crescer entre eles.

Então e agora?

Agora nada. Fazemos o que sempre fizemos. Seguimos com a nossa vida. Ele que decida a dele.

Ela assentiu. Ficou um pouco, a contemplar-lhe as mãos hábeis, e voltou à casa.

Na manhã seguinte, André foi o primeiro a levantar-se. Ana Paula já lhe tinha um prato de filhoses prontinho, com doce de abóbora e um pires de natas. João Manuel lia o jornal e bebia chá. André sentou-se, comeu em silêncio.

Está muito bom disse, breve.

Come, filho, ontem comeste tão pouco…

Ela observava-o mastigar tão homem, tão distante. Quando é que ele tinha mudado tanto assim?

André, arriscou devagar porque estás tão zangado connosco?

Ele levantou os olhos.

Não estou zangado, mãe. Só preocupado.

Então percebes que isto nos faz falta? Restaurar, trabalhar um bocadinho?

Percebo que precisam de se ocupar, mãe. Mas há coisa mais seguras. Tricot, jardinagem, flores nos vasos.

Temos respondeu baixinho tomates à janela, flores, pepinos a crescer.

Então para quê a história da mobília?

Ela percebeu que não conseguiria explicar. O que sentia ao transformar algo gasto em algo belo. Não era só fazer móveis era manter viva a memória, sentir que ainda podia criar. Não era só nostalgia; era afirmação de vida.

Não tenho como explicar. Só vivendo.

Pronto, vejo que não vão ouvir razão André terminou o chá, ergueu-se. Vou hoje à tarde. Pensem bem no que vos disse. Não vos obrigo já a mudar tudo, mas deviam começar a preparar-se para ir para o apartamento. Vi um em Alfornelos, terceiro andar, cheio de luz.

Vamos pensar, disse Ana Paula. Mas no íntimo sabia que João Manuel nunca consentiria.

André recolheu-se. João Manuel saiu em silêncio para a rua. Quando Ana Paula ia tirar a loiça, as mãos tremiam. Um prato escorregou-lhe caiu e partiu-se em dois. Ela ajoelhou-se para recolher os cacos, e as lágrimas caíram-lhe por fim. Ali, sentada no chão da cozinha, com os pedaços frios de loiça na mão.

Paula, magoaste-te? João Manuel voltou, viu-a naquele estado, agachou-se e ajudou-a a levantar.

Ela abanou a cabeça. Ele abraçou-a.

Vá lá, não chores murmurou. Deixa-o, ele faz a vida dele, nós fazemos a nossa.

Não é assim, João soluçou ela. Ele é o nosso único filho. Como é que pode custar-nos tanto viver sem ele perto?

Ele já é adulto. Já vive a vida dele. E nós não temos de viver à sombra dele.

E deve ele viver à nossa sombra?

João Manuel hesitou.

Não. Mas podia ao menos respeitar. Não mandar.

Ela limpou o rosto, fez por recompor-se.

O resto do dia passou-se assim: Ana Paula tratou da horta, regou as batatas, lavrou os canteiros a terra acalmava os nervos. João Manuel trabalhou no anexo, lixar tudo, dar tinta, polir. À mesa, a conversa morreu. Ao final do almoço, André meteu a mala no carro.

Pronto, vou indo. Se acontecer alguma coisa, liguem. Ou mandem mensagem.

Ana Paula abraçou-o, desejou saudações à Rita e à Mariana.

João Manuel apertou-lhe a mão, seco. André acenou do carro e foi-se.

No alpendre, Ana Paula ficou a olhar até o carro desaparecer. João Manuel pousou-lhe a mão no ombro.

Anda, mulher. Ainda temos um dia para viver.

Voltaram a entrar. O silêncio era mais denso, quase a pesar nas paredes. Ana Paula sentou-se e ficou a olhar a figueira dançando ao vento. Lá fora, tudo igual mas por dentro, algo parecia irremediavelmente partido.

Passou uma semana. Depois outra. André não ligou. Quando ela chamava, respondia seco. “Estou ocupado, mãe, depois falo.” Nunca retornava. Ana Paula entendeu: ele estava zangado, à espera que se rendessem. João Manuel fazia como nada fosse, continuando com os restauros no anexo. Ana Paula ajudava. Habituara-se. Afinal, também gostava daquilo e não ia deixar tudo só para agradar ao filho.

Até que, uma noite, o telefone tocou. Ela ergueu-se aflita.

Estou?

Mãe, olá a voz de André vinha tensa. Está tudo bem por aí?

Está, sim. E contigo?

Normal. Olha, vou aí no sábado, para conversarmos melhor.

Conversar o quê, filho?

Depois digo. Sábado estou aí.

E desligou. Ana Paula ficou com o telefone na mão, uma estranha inquietação a crescer por dentro.

O sábado chegou de chuva. Ela fez bolo de cenoura, olhava ansiosa a janela. João Manuel lia, quieto. Nem mencionavam a chegada do filho, mas ambos ansiavam e receavam.

André chegou pela hora do almoço, encharcado. Ana Paula despachou-o para dentro, ajudou-o a tirar o casaco molhado.

Senta-te, filho. Quer chá? Tenho bolo fresco.

Obrigado, mãe ele retirou-se calado para a sala.

Pai, olá.

Olá, filho João Manuel pousou o jornal. Então, o que é essa conversa urgente?

André sentou-se, respirou fundo.

Olhem, depois de pensar, decidi avançar. Antes que aconteça alguma coisa.

Avançar o quê? Ana Paula sentou-se ao lado do marido.

Tenho um comprador para a casa disparou André. Bom preço. Vendemos, compram um T1 na cidade, guardam algum dinheiro para vocês ou para a Mariana.

Ficaram ambos imóveis. Ana Paula só escutava o bater da chuva no telhado, o tique-taque do relógio, a respiração angustiada de João Manuel.

Mas estás-te a perder? João Manuel falou, a voz quase um sussurro, mas dura.

Pai, ponderei tudo. Aqui não estão bem. A casa é velha, o aquecimento não é de confiar, os hospitais ficam longe. Na cidade, estou ali ao lado. Posso ir todos os dias, a Mariana passa, a Rita também. É melhor.

Melhor para quem? João Manuel encarou-o. Para ti?

Para todos insistiu André. Não é a casa que importa, é a família.

Família, sim João Manuel fez um meio sorriso irónico. Mas só quando te interessa, não é? Queres tirar-nos da casa e dizes que é por amor?

Não é expulsar, é pensar com juízo! Vocês não vão viver para sempre! E se um dia vos acontece alguma coisa?

Ana Paula interrompeu.

Não quero ser salva, filho. Só quero viver. Esta casa é nossa, aqui fomos felizes, criámos-te, viste? Não vendemos.

Basta assinar e recebem dinheiro! Podem até viajar, ter outra vida, deixar estas maluquices das velharias.

João Manuel levantou-se, foi até à janela, de costas para eles. Depois voltou.

Achas que tens direito a decidir por nós?

Tenho direito a proteger-vos disse André. Se não sabem avaliar o risco, faço por vós.

Passei a vida a calcular riscos respondeu o pai, com firmeza. Construí meio bairro com os meus cálculos. Não aceito que um miúdo venha agora dar-me lições.

Eras miúdo, eras… André levantou-se para sair.

Ana Paula tentou interceder.

Chega, por favor! levantou-se. Sentem-se os dois e falem.

João Manuel voltou ao sofá. André sentou-se, à pressão. Ana Paula serviu chá e partilhou bolo, mãos a tremer um pouco.

André, começou com doçura nós não somos uns desamparados. Fazemos tudo na lida, temos vizinhos que ajudam: o Manuel, a dona Conceição logo ali.

Os vizinhos?! São todos reformados, que podiam eles fazer em caso de enfarte?

Chamariam a ambulância, como em qualquer lado.

E se não chegarem a tempo?

Então, chegou a hora. A vida é assim, não se passa a vida inteira agarrado ao medo.

André cerrou os dentes, de tal forma que se viu o maxilar mover-se.

Vocês não aceitam que estão a ficar velhos e frágeis. Eu vejo-vos definhar. Tenho medo de vir cá um dia e…

Não acabando a frase desviou os olhos. Ana Paula percebeu: era medo. Não de dinheiro, nem de mandar mas de perder os pais.

Oh filho, não penses nisso. Temos planos: o pai vai restaurar o bufete antigo, eu quero pôr rosas no jardim. Temos vida ainda.

Planos toda a gente tem. Depois basta um azar…

Até na cidade pode acontecer atalhou João Manuel.

André levantou-se de novo. Dizia com voz quase a gritar:

Eu só vos queria bem! Só queria o melhor para vocês! Mas reagem como se vos controlasse, como se fosse vosso inimigo!

Não és inimigo, filho. Só não podemos viver como tu queres. Temos de viver como nos faz bem.

Vocês são egoístas lançou André, com mágoa. Só pensam nos vossos móveis. Não pensam em mim, na Mariana, em como nos preocupamos!

Queres que abdiquemos da vida para tua paz de espírito? João Manuel gelou-o no olhar. Isso é que é amor?

André palideceu. Deu meia volta e foi buscar o casaco.

Façam o que quiserem. Cansei disto. Mas se alguma coisa acontecer, não contem comigo para salvar o barco.

André! chamou Ana Paula, mas a porta já batia.

Saiu atrás dele, à chuva, de bata molhada.

Espera, filho! Espera!

Mas o carro já arrancava. Ficou na estrada, embalada pela água que caía, até João Manuel a vir buscar para dentro.

Anda, não te constipes. Vai mudar de roupa.

Ela subiu até ao quarto, trocou de roupa, voltou à sala e ficou abrazada aos joelhos. João Manuel sentou-se ao lado, abraçando-a.

Ele vai voltar, Paula. Precisa de respirar.

Não volta sussurrou. Desta foi mesmo a sério. Ouviste o que disse? Não me liguem, desenrasquem-se. Partiu tudo.

Ele não respondeu, ficou a acariciar-lhe as costas enquanto ela chorava baixinho. A chuva continuava a cair lá fora.

Ficaram ali durante muito tempo. Quando ela se acalmou limpou as lágrimas.

Será que ele não tem razão? Seremos assim tão teimosos?

Não, Paula. Merecemos viver à nossa maneira, até ao fim. A vida depois dos cinquenta também conta. Não somos para aqui estar quietos.

Mas é nosso filho olhou-o nos olhos. Como é que vamos viver assim?

Não sei, mas não é justo abdicarmos de tudo. Morríamos por dentro se desistíssemos daquilo que gostamos.

Ela entendeu; sabia que ele não ia ceder. Doía-lhe, mas era verdade.

Passaram-se meses. Nada de André. Ela mandava mensagens ele respondia secamente, evasivo. Sabia agora que o filho esperava uma cedência. Mas João Manuel não recuava. Continuava a trabalhar na oficina, sair ao quintal, restaurar. Ana Paula ajudava, e já lhe era impossível abdicar daquilo só porque o filho assim exigia.

Um dia, João Manuel entrou em casa esbaforido.

Ana, viste a cadeira velha? Aquela do entalhe? Não está no anexo.

Não mexi em nada, João. O que foi?

Foram juntos ao anexo. Cômodas ali, banquetas e tinhas, mas a cadeira sumida.

Só pode ser… Ana Paula ficou gelada.

Foi o André murmurou João Manuel, rosto fechado.

Ele pegou no telefone e marcou o filho com as mãos a tremer.

André, onde está a cadeira?

Que cadeira, pai?

Sabes bem. Aquela que eu estava a restaurar.

Pausa.

Ah… Levei-a para o lixo, na última vez que estive aí. Vocês estavam no quintal. Despachei o que não fazia falta.

Um silêncio gelado pela casa.

André, sabes o que fizeste? a voz do pai quase não saía.

Fiz o que era preciso. Livrei-me de lixo. Basta de arriscar a saúde por coisas que não servem para nada.

Aquela cadeira era da minha mãe João Manuel diz, quase a chorar. Era memória dela. A única coisa que me restava.

Pai, não sabia…

Não te deste ao trabalho de perguntar. Entraste aqui e mandaste fora o que era meu.

Achei que era só mais uma tralha…

Sai disse João Manuel, seco. Sai da minha vida. Já não tens pai.

Pai! Não faças isso…

João Manuel desligou e saiu. Ana Paula ficou de pedra, ainda a ouvir André a chamar “mãe” pelo telefone.

André, não devias… conseguiu dizer.

Mãe, desculpa! Não sabia que era da avó…

Mesmo sem saber, não tinhas o direito. Era o nosso lar.

Eu só queria ajudar…

A ajudar-te a ti mesmo, filho. Só a ti.

Desligou, desligou o telefone de vez. João Manuel não voltou a falar até ao fim do dia. Para ela, o silêncio era um buraco sem fundo.

Os meses passaram e a casa ficou mais vazia. André ligava cada vez menos, depois nada. Ana Paula percebeu: ele cortara com eles, de vez. João Manuel permanecia no anexo, cada vez mais fechado, mais calado.

Num final de tarde, ao regresso da horta, Ana Paula encontrou o marido sentado no banco, a olhar para o chão. Ela percebeu todo o peso do tempo e da solidão, e sentou-se ao lado dele, em silêncio. A vida ainda corria: havia tomates por plantar, roseiras por cuidar, móveis para restaurar.

No verão, a vizinha, dona Conceição, trouxe figos e sentou-se ao alpendre.

Então, Ana, o menino nunca mais veio?

Não veio, não.

Que disparate. Eles pensam que a vida acaba na reforma. Nós fazemos falta uns aos outros. Viva a quem sabe viver.

Ana Paula sorriu, sentiu-se confortada.

O tempo correu até que, uma noite, o telefone tocou tarde. Ana Paula atendeu sem ver o visor.

Mãe? Fala a Rita. O André está no hospital.

O coração disparou-lhe.

Que aconteceu?

Acidente. Camioneta entrou-lhe pelo lado, estava a voltar do trabalho. Já está estável, mas venham, por favor.

Contou a João Manuel. Ele ficou um instante calado, depois disse:

Vai lá, se quiseres.

João, é nosso filho.

Ele escolheu cortar. Vai.

Ela foi. Chegando ao hospital, encontrou-se com a nora e soube que André perguntara por ela. No dia seguinte, entrou-lhe no quarto. O filho, pálido e atado a aparelhos, emocionou-se:

Mãe… desculpa.

Ela pegou-lhe nas mãos.

Descansa, filho. Vais ficar bem.

Ele contou-lhe várias vezes que reconhecia que estava errado, que queria repor as coisas. Ana Paula acreditou. Mas sabia que João Manuel não seria facilmente convencido.

Quando regressou a casa e contou tudo ao marido, ele ouviu, calado.

O André disse que te pede perdão.

Talvez, um dia, se se mostrar digno disso.

No inverno, as conversas voltaram, mas só entre Ana Paula e o filho. João Manuel apenas escutava ao longe. Até que, numa manhã, Ana Paula viu um carro parado junto ao portão. André saiu do carro e trouxe, embrulhado, um banco antigo. Um banco restaurado por ele mesmo, após meses a aprender com um marceneiro da terra.

É para o pai explicou. Não é igual ao da avó, mas foi feito por mim. Quero mostrar que respeito o seu ofício. Juro que nunca mais tiro nada vosso.

Ana Paula chorou, abraçou-o. Indicou-lhe o anexo.

João Manuel estava a polir uma cómoda. André entrou, pôs o banco à sua frente.

Pai, fiz este banco com as minhas mãos. Aprendi, demorei meses. Não substitui o outro, mas… quero mostrar que aprendi. Perdoa-me?

João Manuel passou-lhe as mãos pelo banco.

Está bem feito. Parabéns.

Perdoa-me?

Vamos ver, André.

Para Ana Paula, aquele talvez era tudo o que se podia pedir. Sabia que a ferida ficava, mas agora era possível acreditar que sarava.

À noite, sentados ao alpendre, ela sentiu-se finalmente em paz. A vida não tinha voltado atrás, mas podia voltar a avançar, devagarinho. Havia o cheiro a terra e sopa de couve, o calor rijo das mãos de João Manuel. E havia, sobretudo, o dia de amanhã fora da cidade, na casa que era deles, entre móveis restaurados, e com um sentido doce, humilde, de vida bem vivida.

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