No dia em que levei o bolo à minha irmã, a chave ficou presa de forma estranha na porta de entrada.

Hoje, no dia em que levei o bolo à casa da minha irmã, a chave da porta de entrada ficou teimosa e não girou como devia. Pensei logo que era do frio, embora lá fora fosse uma tarde amena de março, típica de Lisboa. Numa mão tinha a caixa do bolo e na outra um ramo de tulipas, envolvidas naquele celofane barato que fazia um barulho inquieto.

Já ia com dez minutos de atraso para o aniversário da Matilde. Não era por não querer ser pontual apenas antes de sair, o meu filho entornou sumo na minha blusa nova e tive de trocar de roupa à pressa.

Assim que entrei, senti logo o cheiro a pimentos assados e manteiga, bem português. Da cozinha vinha o ruído reconfortante dos talheres, e na sala alguém ria alto demais, como se o riso tivesse de ser escutado em toda a casa.

Matilde olhou-me, depois olhou para o relógio na parede.
Ao menos vieste disse ela, ajeitando a manga. Pensei que outra vez te ia dar para o drama.
Sorri-lhe; daqueles sorrisos que só dão vontade de fechar os olhos de dor.

Trouxe o bolo. E as flores.
Ela pegou nas flores, nem sequer as cheirou, e pousou-as em cima do aparador no corredor, como se fosse uma conta por pagar. Depois, agarrou no bolo e chamou para o marido:
Rui, põe isto na cozinha antes que ela deixe cair outra vez.
Nunca deixei cair nada. Mas calei-me.

Na sala já estavam a mãe, a tia Isabel e a nossa prima Helena. A mãe ergueu os olhos e assentiu com a cabeça, sem palavra. Ao lado dela, em cima da mesinha pequena, estava o velho álbum da família aquele com as capas castanhas desbotadas, que temos guardado há tantos anos.

O meu coração apertou-se. Aquele álbum aparecia sempre quando Matilde queria lembrar quem era a filha bem-sucedida e quem não era.

Sentei-me na ponta do sofá. A cadeira ao meu lado rangeu quando Rui empurrou com o pé para passar. De alguma forma, todos naquela casa sabiam fazer barulho à minha volta, sem nunca me tocar.

Matilde abriu então o álbum e começou a mostrar fotos.
Olhem a esta disse, sorrindo. Eu no jantar de finalistas. E aqui está a Inês com aquele penteado estranho.
Toda a gente se riu. Até a mãe.

Olhei para a imagem. Tinha dezoito anos, vestida com um vestido azul barato, que eu mesma escolhi porque não tínhamos dinheiro para melhor. Lembro-me daquela noite, chorando no banho por ouvir a mãe dizer à vizinha: pelo menos a Matilde sempre teve postura, a Inês é a filha mais calada.

Sempre foste muito peculiar acrescentou a mãe, pousando o telefone. Desde pequena que carregavas o mundo às costas.

Não sei porquê, mas naquele instante senti algo a deslocar-se dentro de mim. Talvez pelo tom, talvez porque aos trinta e sete ainda me sentia a esperar nota, como se fosse uma estudante.

Eu? perguntei, baixo.
A sala ficou mais silenciosa. Só o relógio tic-tac.

Matilde olhou para mim, com um olhar de aviso.
Inês, não comeces. Hoje é dia de festa.
Não, não vou começar disse. Só queria, pela primeira vez, que não falassem por mim.

A mãe suspirou, tão teatral como só ela.
Vais outra vez armar-te em vítima?

Isso magoou-me mais do que tudo. Não por ser novidade, mas por ser o refrão da minha vida.

Quando era quem se calava era fria. Quando ajudava era por hábito. Quando me afastava ingrata. Tudo o que fizesse, nunca era suficiente.

Olhei para o álbum. Entre as páginas estava um pequeno papel dobrado. Não o conhecia.

Peguei-lhe, quase sem pensar. Era a letra do meu pai.
Para Inês porque ela cede sempre primeiro, mas sente tudo mais fundo.

As minhas mãos tremiam. O pai já tinha partido há anos, falava pouco mas quando o fazia, ficava.

O que é isso? perguntou Matilde.
Engoli em seco.
Algo que não era para todos.

Vi a mãe empalidecer. Desviou o olhar.
Ele tinha pena de ti demais respondeu com indiferença.

Foi aí que percebi o medo. O problema nunca foi eu ser fraca. O problema foi aguentar demasiado tempo, a tentar manter uma paz que nunca foi real.

Levantei-me. Alisei a minha camisola bege e peguei no ramo do aparador.

O bolo fica. Eu não fico.
Matilde torceu os lábios.
Vais mesmo sair só por causa de um papel?

Olhei para ela, tranquila.
Não. Por causa de tudo aquilo que confirmou.

A mãe nada disse. O silêncio foi o gesto mais honesto que teve comigo em anos.

Saí sem bater a porta. Nas escadas cheirava a comida da vizinha e produto de limpeza. O celofane barulhava na minha mão e o peito sentia-se mais leve do que nunca.

Às vezes, o respeito próprio não chega com um grito, mas com a calma de quem decide não ficar onde o diminuem.

E tu, ficarias num lugar onde os teus próximos se riem da tua dor?

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No dia em que levei o bolo à minha irmã, a chave ficou presa de forma estranha na porta de entrada.