– Onde é que andaste? perguntou o Proença, de forma áspera, à esposa que acabou de entrar em casa.
– Estive a trabalhar.
– Mas hoje é sábado!
– Pois, trabalho aos sábados também.
– Trabalhas, mas dinheiro é que nunca há.
– Tu é que não queres trabalhar
– Olha lá como falas comigo disse ele entre dentes, aproximando-se de forma ameaçadora. Vai já ao supermercado! Nem comida há em casa.
– Proença, só nos restam duzentos euros e ainda falta uma semana para receber. Ao menos podias arranjar emprego ou pegar no carro e fazer uns serviços de táxi.
– Mas tu pensas que sou taxista? Devias era agradecer por viveres no meu apartamento disse ele, segurando a porta aberta. Vá, despacha-te para o supermercado!
As lágrimas correram pela cara da Natália. Que injustiça! Será que a culpa era dela por a vida estar a descambar tanto? Já iam em quatro anos de casamento. No início até parecia correr tudo bem. Os pais de ambos ajudaram e conseguiram comprar um T2 lá em Almada. Depois, juntaram dinheiro para um carro, nada de especial, mas ficaram tão contentes! E claro, tudo ficou em nome do Proença, já que ele é que era o chefe da casa. Os pais da Natália sempre na aldeia, mas contribuíram também com a sua parte.
O Proença e o pai tinham uma pequena empresa. Dava para viver, sem luxos, mas de repente ele começou a achar que merecia mais, meteu-se em confusões com o pai e ficou sem nada. Há mais de um ano que não trabalha, sempre à espera que alguma coisa caia do céu.
Começou a gritar frequentemente com Natália, às vezes até passava dos limites. Ela trabalhava quase todos os dias mas o dinheiro voava, e ele continuava a culpá-la como se fosse tudo responsabilidade dela. Já tinha considerado ir para casa dos pais, mas as duas irmãs mais novas ainda vivem lá, não queria criar mais peso à família.
Saiu do prédio, limpou as lágrimas e decidiu ir ao supermercado que ficava mais longe era mais barato, e evitava assim voltar já para casa.
Quando passou pelo parque de estacionamento, viu um jipe a aproximar-se. Um homem saiu, a coxear levemente. Ela olhou pelo canto do olho.
Natália! ouviu-se uma voz alegre.
Ela virou-se de repente.
Vítor!
Era o seu colega do tempo de escola. O Vítor tinha uma deficiência desde criança, sempre um problema nas pernas e nos braços. Andaram juntos da primária ao secundário, e Natália lembrava-se de como ele passava grande parte do tempo em hospitais. Os miúdos gozavam com ele, mas o Vítor nunca se deixou ir abaixo. Era o melhor da turma e talvez até da escola toda. Depois de cada tratamento, melhorava um pouco nos movimentos. Entrou no 1.º ano quase ao colo, mas no final, para receber a medalha de ouro, já caminhava com garra, mesmo com uma ligeira dificuldade.
Agora, ali à sua frente, o mesmo sorriso bom, mas a sair de um carro topo de gama, com a postura de quem ganhou o mundo.
Natália, nem acredito que és tu! a voz dele era confiante. Já não te vejo há anos. Lembras-te do encontro de turma há dois anos? A Júlia disse que te tinha avisado, mas tu nem apareceste.
Olha, nem sei respondeu, atrapalhada, e percebeu logo que ele notou no olhar dela.
Vais ao supermercado? perguntou para mudar de assunto.
Sim.
Então anda, também preciso de comprar umas coisas.
Empurrou-a gentilmente na direção do supermercado, o caro, e ela vacilou. Em segundo de hesitação, percebeu que o Vítor compreendia tudo. E ao observar Natália, viu ainda mais do que ela gostaria de admitir.
Natália começou ele.
Não, Vítor, desculpa preciso mesmo de ir ao outro supermercado. Este é muito caro
Soltou a mão dele, baixou os olhos e seguiu para o supermercado mais económico.
Enquanto fazia as compras, contava cada cêntimo. Ao sair, reparou que o Vítor estava encostado ao jipe, de braços cruzados, como quem esperava por ela. Aproximou-se decidido, abriu a porta do carro e disse:
Sobe!
Ela obedeceu sem conseguir protestar. Entraram e ele logo perguntou:
Conta-me, o que se passa?
E assim, fungando e com a voz entrecortada, contou tudo, sem esconder nada.
Então mas por que não te separas, Natália?
E vou para onde, Vítor? Está tudo em nome dele.
Natália, sou dos melhores advogados de Lisboa. Não interessa em nome de quem está, metade é tua. Olha sacou do telemóvel dá-me o teu número.
Ela, hesitante, deu-lhe o contacto. Ele ligou logo, ficou com o número gravado.
Hoje é sábado. Segunda-feira vais pedir o divórcio. Depois eu digo-te tudo o que tens de fazer. Deixa-me levar-te a casa. Onde moras?
Na rua Camilo Castelo Branco, ao pé dos CTT…
Eu agora vivo ali naquele prédio novo, ao pé do elétrico apontou para um predio bonito e ainda cheirando a novo.
Quando chegaram ao prédio dela, ele saiu, abriu-lhe a porta e disse:
Pronto, Natália, pensa nisto! Segunda-feira ligo-te. Se alguma coisa acontecer no fim de semana, liga-me logo.
Tenho medo, Vítor.
Não tenhas! respondeu ele, sorrindo com confiança.
Entrou em casa, mas ainda nem tinha pousado os sacos, o Proença já estava em cima dela:
E andas de carro com quem?
Encontrei um colega dos tempos da escola.
O marido em casa a morrer de fome, e ela por aí a passear
Vieram palavras feias, seguidas de um empurrão feio. Natália largou os sacos de compras e fugiu de casa, ofegante e lavada em lágrimas. Saiu a correr do prédio e, como num filme, viu de repente o Vítor ali parado.
Sobe para o carro!
Ele abriu-lhe a porta e ela entrou de imediato, e arrancaram dali.
Quando deu por si, estava num apartamento espaçoso de três quartos.
Vítor, onde estamos?
Em minha casa. Aqui ninguém te faz mal, sou só eu que moro aqui.
O telemóvel dela tocou, o nome do Proença a piscar no visor:
Onde estás tu? ouvia-se a voz zangada de sempre, seguida de mais insultos e ameaças.
Vítor tirou-lhe delicadamente o telefone e respondeu, tranquilo mas seco:
A Natália vai pedir o divórcio. O apartamento fica com ela
QUÊ? Mas tu quem és?
Se tentar alguma coisa, vai passar uns tempos bons a pensar atrás das grades.
Não sabes com quem estás a falar!
Já disse tudo.
Desligou e devolveu-lhe o telefone. Natália chorava ainda mais.
Vá, Natália, acalma-te. Vai ali ao banho, lava a cara Já ponho água a ferver para fazermos um chá.
Enquanto ela estava na casa de banho, ele pôs a chaleira ao lume e telefonou discretamente para alguém.
Mais tarde, sentados à mesa com o chá, o estômago fechava-se de nervos. O Vítor foi direto:
Natália, vamos lá resolver esta situação de vez.
Tenho medo, Vítor, não quero voltar àquela casa.
Está bem, mas isto vai ser tudo como tu quiseres, confia em mim.
Quando chegaram ao prédio dela, estava ali parado um carro da PSP. Um agente jovem saiu e fez continência:
Doutor Vítor, estamos prontos.
Deram-lhe um aperto de mão, ajudaram a Natália a entrar.
Bateram à porta do apartamento do Proença.
Quem é que quer agora? ouviu-se a voz arrogante lá dentro ao abrir a porta.
Sr. Proença, sou da polícia, tenho algumas perguntas para lhe fazer.
Proença olhou a Natália com raiva:
Entrem lá!
Lá dentro, sentaram-se à mesa, e o agente começou logo a apontar tudo para o relatório.
Natália, apanha tudo o que te faça falta para uns dias disse Vítor numa voz calma mas assertiva. E ela sentiu-se, pela primeira vez em muito tempo, protegida e segura. Pensava que já não tinha ninguém do seu lado, só problemas e maus tratos. E no entanto, ali estava aquele antigo colega, que sempre considerara bom amigo. Quando era miúda, nunca lhe passou pela cabeça gostar dele de outra forma. Na altura, sonhava-se sempre com um príncipe encantado, de preferência num descapotável branco, não num rapaz que coxeava, por muito boa pessoa que fosse.
Apressou-se a recolher os documentos e colocou-os nas mãos do Vítor, que lhe sorriu com ternura. De seguida, começou a juntar as suas coisas, sem pensar muito no que estava a fazer ou no que viria a seguir. Sabia apenas que dali para pior não ficava, e que o Vítor nunca a deixaria sozinha.
Doutor Vítor, já está disse o agente, levantando-se da mesa.
Obrigado! Quero falar com ele em privado.
Sentou-se à frente do Proença:
Ora bem, segunda-feira a tua esposa vai ao registo pedir o divórcio. Vais lá assinar também. Não há filhos, portanto é pelo civil e partilham tudo o que têm.
E se eu não quiser divórcio? E o apartamento e o carro são meus!
Se não quiseres, há outros processos para abrir: divórcio litigioso, partilha de bens, violência doméstica… E eu sou presidente da ordem dos advogados do distrito, acredita que a justiça vai ser feita.
Claro que vou falar com ela ensaiou ele, com um sorriso torto, e as coisas seguem o meu rumo.
Quem te disse que vais ficar sozinho com ela? Ainda agora trato de te meter já hoje no calabouço da polícia, pelas agressões todas, e a Natália fica na casa. Queres testar?
Está bem, vai lá para onde quiser acabou ele por ceder, desconfiado.
Perfeito. Segunda-feira passo por aqui e vamos juntos ao registo.
O telemóvel apitou. Natália sorriu de alívio, era a mãe. Desde que se separou do Proença, a relação com a mãe estava mais distante; os pais nunca entenderam muito bem, eles próprios estavam juntos há trinta anos sem nunca uma briga.
Olá mãe! disse cheia de alegria.
Olá filha a voz soava diferente, sem brilho.
Que se passa, mãe? Parece tão triste
Mas olha para ti, toda contente, feliz por te teres separado.
Mãe, sou mesmo. Agora sou eu mesma, acredita.
Pois, mas é a tua vida.
Mãe, tu ligaste porquê?
A Olívia também vai casar. Arranjou namorado da cidade, quer ir viver para aí. Ele não tem nada, só amor. Os pais até já vieram cá, vivem num T3, mas o irmão dele ainda mora com eles. Ainda se combinaram para ajudarmos a comprar um T1 na cidade, mas nem querem fazer casamento. A tua irmã anda mais cabisbaixa por causa disso.
Olha, deixem-nos ficar no meu apartamento por agora, até verem a vida andar para a frente.
Mas e tu, onde vais viver?
Mãe, vou casar também respondeu com uma voz cheia de alegria Chama-se Vítor, mãe. Amo-o como nunca amei ninguém, isto sim é para toda a vida!







