Naquela noite, não limpei o caldo verde derramado. Atravessei a poça esverdeada, abri o portátil e comprei a última vaga para um termal isolado no Gerês, a 21 dias de distância. Vou embora… (pela primeira vez em cinco anos). Desliguei o som do telemóvel. Só respondia a mensagens uma vez por dia, ao final da tarde. Estou em tratamentos. Resolvam vocês. Beijinhos.
Ao regressar a casa Subi até ao meu andar com o coração apertado. Quando abri a porta…
A concha escorregou-me dos dedos e caiu com estrondo sobre o mosaico. O caldo verde estendia-se pela cozinha numa mancha densa e verde, fazendo lembrar uma cena de crime pouco comum à portuguesa.
Mãe, o que se passa contigo? murmurou o meu filho Lourenço, catorze anos, sem afastar os olhos do telemóvel. Estou cheio de fome. Quando é o jantar?
Margarida, viste as minhas meias azuis!? ecoou o pedido do Rui, do quarto. Pergunto isto pela terceira vez. Estou atrasado!
Fiquei estática a olhar para aquela poça. Senti um clique interior como se me desligassem. Percebi, naquele segundo, que já não existia. Havia a Bimby, a máquina de lavar, uma bússola infalível para roupa interior mas Margarida essa tinha acabado.
Nessa mesma noite, não limpei nada. Passei por cima do caldo verde, fui até ao quarto, abri o computador e comprei o último pacote para as Termas do Gerês, vinte e um dias de sossego.
Depois de amanhã vou para o Gerês, anunciei calmamente ao jantar, onde, pela primeira vez em cinco anos, servimos rissóis congelados.
O que queres dizer com isso? o Rui largou o garfo. E nós? E a escola do Lourenço? E as refeições? Quem é que vai cozinhar?
Vocês vão-se desenrascar, respondi. São adultos. Eu não sou vossa empregada doméstica.
Epidemia da Invisibilidade Doméstica
Como chegámos a isto? Aos olhos de todos, éramos uma família normal. Eu trabalhava, o Rui trabalhava. Mas o meu dia terminava às seis e, logo a seguir, começava o segundo aquele que os sociólogos chamam de segundo turno, mas que eu sempre senti como uma condenação perpétua.
Estou familiarizada com a psicologia das relações familiares e conheço bem o tal trabalho invisível. Um esforço constante e não remunerado, que só se nota quando falha.
E não é só lavar a loiça: é lembrar-me que o miúdo precisa de sapatilhas novas, que a miúda (se tivesse) tem alergias e precisa de anti-histamínico; é saber que a reunião de pais é quarta e o aniversário da sogra sábado; é ser a CEO S.A. Família Simões, sem férias, sem salário, sem agradecimento.
Os números não mentem: as mulheres portuguesas dedicam, em média, mais duas a três horas por dia às tarefas domésticas e aos filhos do que os homens. Num ano, soma um mês inteiro de trabalho sem interrupção, sem reconhecimento.
A minha família sofria de cegueira doméstica. Para eles, magia punha roupa lavada no armário, comida no frigorífico, e o autoclismo brilhava por obra do Divino Espírito Santo. O meu trabalho era o ar: só se nota quando falta.
Três Semanas de Silêncio
Os primeiros três dias nos banhos do Gerês foram um inferno não físico, mas psicológico. A natureza, as massagens, os tratamentos eram ótimos, mas o telemóvel não parava:
Como se põe roupa delicada na máquina?
O seguro do carro está onde?
Mãe, a gata Mia fez asneiras outra vez, que faço?
Encomendámos pizza, mas o MB Way está vazio, faz transferência.
Lutei com todas as forças contra o impulso de resolver tudo. O controlo e a hiper-responsabilidade estavam tão encarnados em mim que me davam ansiedade física. Achava que, sem mim, morriam à fome ou metiam fogo ao prédio.
Ao quarto dia, conheci uma senhora de cabelo branco prateado D. Alzira, aparentando menos uns bons 15 anos do que dizia. Enquanto mexia o chá disse-me:
Ouve, Margarida, ninguém morre a comer esparguete três dias seguidos. Mas de AVC por excesso de responsabilidade, morrem muitos. Dá-lhes espaço para crescer. Não lhes negues a aprendizagem.
Depois disso, desliguei notificações. Só lia as mensagens e respondia uma vez por dia, logo ao final da tarde: Estou nas termas. Façam vocês. Beijinho.
No final da segunda semana, comecei a recordar quem era. Redescobri o prazer de ler romances a sério e não só feeds no telemóvel, andar sozinha ao ar livre, comer sem ser eu a cozinhar.
Foi então que me dei conta: eu própria eduquei-os para a incapacidade. Passei anos a ser a Super Mulher, a resolver tudo, porque era mais fácil fazê-lo do que explicar. Também era responsabilidade minha. E só havia uma forma de mudar: radicalmente.
O regresso: mini-apocalipse caseiro
Voltei, coração nas mãos, pronta para o caos. Quando destranquei a porta, recebi o bafo de lixo esquecido, lixívia velha e arroz queimado como se tudo tivesse corrido mal ao mesmo tempo.
Logo no hall, um monte de sapatos. O casaco do Lourenço, do avesso no cabide. Na cozinha, a mesa pegajosa, a Torre de Belém feita de loiça por lavar na banca; no fogão, esparguete colado a morrer na frigideira. No cesto da casa de banho, roupa extravasava pelo chão, e o espelho adornado de pasta de dentes artística.
Na sala, o Rui e o Lourenço no sofá, ambos de ar exausto. Rui parecia acabado olheiras, camisa amarrotada.
Olá, murmurou baixinho.
Esperei críticas do género: Porquê deixaste-nos? Viste como ficou a casa? Mas em vez disso, ele levantou-se, encostou a testa ao meu ombro e disse:
Margarida, não faço ideia como aguentavas isto tudo. É um inferno.
O Valor do Trabalho Invisível
Conversámos muito, talvez como já não fazíamos há anos. Com honestidade. Sem pressas.
Descobrirem, pela prática, que só lavar a roupa é uma ciência: o branco não mistura com cores, a lã não se coze em água quente (o seu camisola favorita virou tamanho de bebé). Que a comida não aparece do ar: tem de se comprar, trazer, e decidir o que cozinhar todos os dias. Que o pó ressurge horas depois, feito provocação.
Achei que ia bater mal, confessou Rui. Saía do trabalho e começava outro turno: trabalhos de casa, comida, limpezas. Deitava-me à uma da manhã. Não percebo como sobreviveste assim.
Não sobrevivia, respondi calma. Nunca descansei de facto.
O Lourenço, normalmente áspero e resmungão, levantou-se e foi arrumar a máquina de lavar loiça deixada a meio, provavelmente à pressa antes do meu regresso.
A minha ausência foi o teste de choque da família. Viram, pela primeira vez, que a ordem não nasce sozinha, mas do esforço repetido, silencioso, e constante. Exige planeamento, organização, energia.
Nessa noite, não limpei nada. Tomei um banho demorado, pus creme na cara e fui dormir.
Na manhã seguinte, fizemos uma reunião de família.
Decidimos novas regras. Chega de ajudar a mãe. Porque ajudar implica que a casa é problema meu, e os outros dão uma mãozinha de vez em quando. Não: esta casa é de todos. E cuidar dela, uma missão comum.







