Nem Trinta Anos de Casamento Justificam a Tolerância à Traição: A História de Maria, a Aliança Perdi…

Nem trinta anos de casamento justificam aceitar uma traição

Graça estava ali a girar uma caixinha minúscula nas mãos dava para ver que o veludo já vira dias melhores e as letras douradas estavam quase só memória. Lá dentro, três pedrinhas minúsculas brilhavam cheias de arrogância. Bonitas, admitia.

Cinco mil euros, disse Manuel, devorando as notícias no tablet. Comprei na Joia Lusitana, ainda com o desconto do cartão cliente.

Obrigada, querido.

Sentiu o peito apertar. Não era pela quantia a esta altura, já não se exige muito. Era pelo modo como ele disse. Como quem fala da compra do pão da manhã, sem graça.

Trinta anos juntos. Bodas de Pérola em tempos assim, quase peça de museu. Graça madrugou, tirou do guarda-roupa uma toalha de mesa cheia de rendas, oferta de casamento da sogra. Pôs-se a fazer Bolo de Natas, aquele que Manuel dizia ser um pedacinho do Paraíso.

Agora estava sentado, colado ao ecrã, respondendo às perguntas dela com um resmungo quase doméstico.

Manuel, lembras-te daquela promessa de viagem à Itália para os nossos trinta anos?

Hum-hum, sem levantar os olhos.

Pensei, talvez ao menos íamos ao Algarve, já não descansamos juntos há séculos.

Oh Graça, tenho um relatório para entregar. Agora não dá.

Relatório. Há sempre um. Sobretudo no último ano e meio, desde que Manuel resolveu ter uma crise de juventude. Passou a ir ao ginásio, comprou sapatilhas caríssimas, mudou o estilo só faltava o cabelo raspado dos lados, como miúdo da faculdade.

É a crise da meia-idade dizia a amiga Sofia. Passa, é só fogo de palha.

Não passou. Só piorou.

Graça experimentou o anel: servia na perfeição. Depois de tantos anos, pelo menos Manuel ainda lembrava o tamanho dela. As pedras brilhavam com um frio, quase arrogante.

Bonito, repetiu, contemplando o presente.

É. Design jovem, como agora se usa.

À noite, à mesa festiva, só o bolo de natas manteve a tradição. Manuel comeu, elogiou ao piloto automático. Graça olhava-o, a perguntar-se: quando foi que o marido virou um estranho?

Quem é a rapariga? saiu-lhe de repente.

Que rapariga? Manuel ergueu o olhar da travessa.

Aquela que ajudou a escolher o anel jovem.

Não tem nada a ver

Manuel, não sou parva. Homens nunca falam em design jovem. Uma mulher escolheu. Aposto que se chama Vera.

O marido empalideceu. Nem sequer perguntou como sabia acertou em cheio.

Vi sem querer a tua troca de mensagens. Foi quando pediste para eu procurar o número da seguradora no telemóvel. Meu sol, vejo-te amanhã recordas?

Silêncio.

Tem vinte e oito anos, trabalha no teu escritório. Ontem publicou uma foto no Instagram, mesa de canto do restaurante. Conheci a toalha.

Mas como soubeste do restaurante?

Sofia viu. Por acaso. Achas que ninguém repara?

Manuel largou um suspiro do peso do mundo:

Pronto, é verdade, há uma Vera. Mas não é como pensas.

Então é como?

Com ela tudo flui, é leve. Falamos sobre livros, sobre filmes ela percebe-me.

E comigo não dá para falar?

Graça, olha para ti só falas dos filhos, da coluna, do preço dos legumes. Com a Vera eu sinto-me vivo.

Vivo? ela repetiu. Percebo.

Não queria magoar-te.

Manuel baixou os olhos.

Ela sabe que és casado?

Sabe.

E não se importa? Dorme tranquila?

Ela é moderna, não idealiza nada.

Moderna Graça riu-se de si para si. E eu? Trinta anos contigo é só uma ilusão?

Levantou-se, começou a tirar a loiça. As mãos tremiam, mas disfarçou.

Graça, falamos a sério?

Não há mais nada para dizer. Escolheste.

Eu não escolhi ninguém!

Escolheste, sim. Todos os dias. Chegas tarde. Inventas viagens de negócios. Dás-lhe prendas com o meu salário.

Nosso dinheiro!

Também é meu. Trabalho, lembras-te?

Graça lavou os pratos, pousou tudo na escorredora. Dobrou a toalha rendada e guardou. Tudo igual, só as mãos a tremer por dentro.

Graça, o que queres afinal? perguntou Manuel à porta.

Quero estar sozinha. Hoje. Pensar.

E amanhã?

Depois se vê.

Dois dias sem palavras. Manuel tentava puxar conversa, ela respondia com monossílabos de conveniência. Ao terceiro dia, ele explodiu:

Até quando isto vai durar?

O que te falta? Graça disse, a passar-lhe a camisa. Faço tudo igual. Cozinho, limpo, trato da roupa.

Mas não falas comigo!

Para quê? Tens a Vera para falar.

Graça!

Sim? Tu disseste sou aborrecida, não há assunto. Para quê forçar?

À noite ele saiu. “Vou aos copos com os colegas”, disse. Graça já sabia ia ter com ela.

Sentou-se ao computador, abriu o perfil da Vera. Bonita, jovem, fotos nas praias do Sul, vestidos caros, flûtes de espumante.

Um post recente: A vida é magnífica quando temos alguém que nos valoriza. Hashtags: amor, felicidade, homemmaduro.

Homem maduro. Graça riu. Hashtag de catálogo.

Nos comentários: Verinha, quando é o casamento?, Que sorte a tua!, E a esposa, já sabe?

Vera respondeu: O casamento deles já é só fachada há anos. Moram juntos como vizinhos.

Trinta anos como vizinhos.

No dia seguinte, Graça foi ao advogado. Miúdo de óculos ouviu tudo, com atenção.

Percebo. Todos os bens conjugais são divididos. Apartamento, quinta, carro. Se provarmos a infidelidade, pode receber mais.

Não quero mais nada disse Graça. Só justiça.

Em casa, fez uma lista:

Apartamento vender e dividir.

Quinta fica para ele. Já nem posso lá aparecer.

Carro para mim. Que ele arranje outro.

Contas bancárias a dividir.

Manuel chegou tarde, viu a lista em cima da mesa.

Que é isto?

Divórcio.

Enlouqueceste?

Não. Finalmente acordei.

Já te expliquei! É só um entusiasmo, vai passar!

E se não passar? Vou ficar mais trinta anos à espera que amadureças?

Manuel atirou-se ao sofá, mãos no rosto.

Nunca quis magoar-te.

Mas magoaste.

Que faço agora?

Escolhe disse ela. Família, ou Vera. Já chega de rodeios.

Três meses a viver como vizinhos. Manuel mudou-se para o quarto de hóspedes. Falaram só o essencial. Graça inscreveu-se nas aulas de inglês, começou a nadar, deu-se a ler livros que nunca teve tempo.

De vez em quando, Vera ligava a chorar. Manuel saía para o terraço, conversas baixinho e sem fim.

Uma noite, veio antes da hora. Sentou-se à frente dela.

Terminei com ela.

Querias que eu soubesse porquê?

Graça, fui um idiota. Errei de todo.

Concordo.

Dás-me mais uma oportunidade? Mudei.

Graça pousou o livro.

Manuel, não saíste dela porque finalmente viste valor em mim. Foi porque a relação entrou em aborrecimento. Daqui a uns tempos, aparece outra Vera.

Não aparece!

Aparece, sim. Não é a mim que perdes, é a tua juventude. E eu não posso voltar atrás.

Graça

Os papéis já estão prontos. Assina.

Ele assinou. Sem brigas, sem guerra por bens. Graça ficou só com o que pediu.

Meio ano depois, a vida trouxe-lhe Rui viúvo, professor de inglês, colega do curso. Leva-a ao teatro.

Sabe, Graça disse, com um café na mão, depois da peça é bom falar consigo. É uma companhia de primeira.

Sério? O meu ex achava-me aborrecida.

Então não sabia ouvir.

Rui sabia. Ria das piadas dela, escutava os pensamentos, contava a sua história sem mascarar os anos.

E o que aprecia nas mulheres? perguntou Graça um dia.

Inteligência. Bondade. Sinceridade. E você nos homens?

Honestidade. E saber usar os próprios anos.

Riram juntos.

Manuel ainda ligava de vez em quando. Felicitações, notícias do médico, conversa protocolar.

Estás feliz? perguntou-lhe um dia.

Estou, respondeu Graça, sem hesitar. E tu?

Não sei. Acho que não.

Olha, cada um faz o seu caminho.

O anel de cinco mil euros ainda está guardado. Não usa ficou na caixa, recordação de como trinta anos podem perder o brilho num minuto.

No aniversário, Rui ofereceu-lhe uma pregadeira antiga, achada na Feira da Ladra barata, mas escolhida com carinho.

A beleza não é do preço disse ele mas do sentimento envolvido na oferta.

E Graça percebeu depois dos cinquenta, a vida não termina. Só começa de novo.

E vocês? Acham possível recomeçar por completo depois da maturidade? Digam de sua justiça nos comentários.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Nem Trinta Anos de Casamento Justificam a Tolerância à Traição: A História de Maria, a Aliança Perdi…