— Não tem problema, Tiago! Não chores! Pelo menos celebraste o Réveillon em grande estilo!

Querido diário,

Não te abates, António! Não fiques triste! Pelo menos o Ano Novo celebraste com estilo!
Cheguei à minha terra natal. Desci do comboio na Estação da Baixa, atravessei a praça da estação e dirigime à paragem de autocarros. Não avisei a minha esposa, a Inês, que chegava naquele dia.

O meu humor não estava dos melhores; ainda tinha na cabeça a discussão com a Inês. Ela costuma criticarme, reclamar e chamarme de egoísta e indiferente.
Mas por que indiferente? Eu, aliás, quis felicitara pelo Ano Novo, e ela desligou o telemóvel. Fiquei magoado! Tentei ligar-lhe durante três dias, mas a linha nunca atendia. Acabei por me afastar também.

E ainda por cima, ela nem se deu ao trabalho de cumprimentar os meus pais e a minha irmã, quanto mais a mim. Agora, ao chegar, vou-lhe colocar tudo à cara. Não é só ela que tem falhas; ele também tem as suas, então que responda! Como se costuma dizer, a melhor defesa é o ataque.

Recuperei a coragem e, ao entrar no corredor do meu prédio, já estava com o espírito de batalha. O apartamento recebeume com silêncio.

Alô! Quem está aí? Inês, cheguei! gritei, mas ninguém respondeu.

Virei pela cozinha a Inês não estava lá; passei por um quarto vazio, outro igualmente vazio. Mas rapidamente notei as mudanças: ao lado da parede não havia o berço do bebé, o criadomudo com a cômoda e o carrinho que os meus sogros tinham oferecido à Inês. Corria para o armário e a metade onde normalmente pendurava as roupas da minha esposa também estava vazia.

Ela está a brincar comigo? Abandonoume? pensei, desolado.

Liguei para a sogra, mas não obtive resposta. Então tentei a Catarina, amiga da Inês. Também só silêncio. Finalmente consegui falar com o Miguel, marido da Catarina.

Miguel, boa tarde! Passa o telefone à Catarina, não consigo falar com ela, pedi.

A Catarina está agora na sua aldeia com a criança, celebrámos o Ano Novo lá. A rede nem sempre funciona bem, respondeu ele.

Cheguei ontem porque tinha de fazer a ronda hoje. Eles ainda estão de férias, acrescentou Miguel. Mas por que precisas da Catarina?

Penso que ela sabe onde está a Inês. Vim da casa dos meus pais e ela não está em casa. Tudo o que comprámos para a criança também desapareceu, expliquei.

Olha, a tua esposa ia mesmo tornarse mãe agora. Ficaste a viajar nos feriados e a deixaste sozinha? exclamou Miguel, surpreendido.

Ela recusouse a ir. Mesmo que lhe tenha sido marcado o parto para os dias 1011 de janeiro. Poderia ter viajado a tempo.

Parabéns, António, és um fantasma, riuse o amigo.

Por quê? perguntei, confuso.

Porque provavelmente já estás solteiro. Idiota! Liga ao hospital, ela deve estar lá, aconselhou Miguel.

Dez dias antes, a minha mãe falava ao telefone:

Não percebo, António, por que tens de ficar em casa nos feriados? A Inês não quer viajar, vem sozinha. O parto está quase a duas semanas, ainda dá para voltar a tempo.

Ainda mais que quase toda a família vai reunirse: a tia Vera e o tio Sérgio chegarão, a Natália com o Vítor, a Olívia com o Paulo. Eu e o meu pai, a Vanda com o Gil.

A Vanda reservou quartos num hotel rural, no bosque, de 30 de dezembro a 2 de janeiro.

No dia 31, há um banquete no restaurante com artistas convidados. Eu já paguei por ti; depois devolves. Ficarás connosco até ao Natal, e no dia 8 regressas. Assim consegues estar a tempo para o parto.

A Inês recusouse a ir:

António, a qualquer momento pode ser que eu tenha de dar à luz. Imagina: todos se divertem e eu, de repente, parto. E o hotel está lá fora será que a ambulância chega a tempo?

Não vou a lado nenhum.

A minha mãe diz que as mulheres hoje contam a doença como um obstáculo e o nascimento como um heroísmo. Ela nos trouxe ao mundo e nunca se afastou do berço.

Eu sabia que a Inês tinha razão em parte, mas imaginei como seria monótono passar a noite de Ano Novo sozinho em casa: só eu e a minha esposa à mesa modesta ela já tinha dito que não ia cozinhar nada especial. Sentiame melancólico. Enquanto isso, toda a família iria ao restaurante, cantar, dançar, celebrar. Acabei por partir sozinho.

No hotel rural, a festa foi mesmo divertida. Por volta da meianoite, saí da sala para o hall e tentei ligar para a Inês, mas ninguém atendeu.

Tudo bem, estou magoado, mas afinal a culpa é dela. Poderia estar aqui a divertirse comigo, reparei para mim mesmo.

No dia seguinte, a minha mãe descarregou a sua raiva contra a nora:

A Inês nem sequer te ligou para desejar feliz Natal ao teu pai. Vê só a que ponto chegaste!

Ela não entende o que é família de verdade. Estamos aqui todos juntos e ela está sozinha. Que fique a pensar nas suas escolhas.

Naquela noite de Ano Novo, a Inês não queria estar connosco. Se lembrava de alguém, era de mim, nunca dos sogros nem da família extensa.

Os pais dela, ao saber que a filha ficou sozinha nas festas, chamarama para casa. Não tinham planos de um grande jantar. O irmão da Inês vivia na capital, trabalhava num turno contínuo, e não tinha folgas longas; por isso os pais decidiram passar o Ano Novo a dois.

No dia 31, às 21h, a Inês e a mãe estavam a pôr a mesa quando, de repente, a Inês foi atingida por fortes dores. Chamaram a ambulância. A mãe foi com a filha, o pai seguiuos de carro.

A Inês acabou por passar o Ano Novo no hospital; os pais ficaram à espera no corredor. A Inês tornouse mãe

Segui o conselho do amigo e telefonei ao hospital.

A Maria? Já foi altaacasa? responderam ao atendente.

Altaacasa? Não acredito! Já há bebé?

Sim, nas primeiras horas de 1.º de janeiro.

E quem a recolheu? perguntei.

Um jovem, não registamos essa informação nos documentos.

Percebi que só os pais poderiam ter levado a Inês e o bebé para casa. Comprei um ramo de rosas e parti para lá.

Toquei à porta; o sogro abriu.

Boa tarde, o que deseja?

Olá, vim falar com a Inês, disse eu.

Por quê? indagou o pai da Inês.

Na verdade, sou o marido dela, respondi.

Inês! gritou o sogro. Um sujeito aqui diz que é o teu marido. Queres falar com ele?

Não, deixao entrar, respondeu a Inês de dentro do apartamento.

O sogro encolheu os ombros.

Não quer, então adeus, rapaz! e fechou a porta.

Esperei alguns minutos e voltei a chamar. Desta vez atendeu a sogra, uma mulher alta, robusta e de voz forte. Admito que me intimidava um pouco.

Não está a perceber? perguntou ela.

Por favor, deixeme entrar, tenho direitos comecei, mas ela não me deixou terminar. Arrancoume o ramo das mãos e, com alguns golpes, acertoume nas costas.

Sobre os teus direitos, o advogado dirá. E não volte a ligar; o neto está a dormir, disse, jogoume as rosas ao pé e fechou a porta.

Voltei para casa, esfregandome o rosto; as rosas eram belas, mas cheias de espinhos. Chegando, liguei à minha mãe.

Imagina, nem me deixaram entrar no apartamento nem olhar o filho.

Não te preocupes, António. A Inês vai regressar, bebé na mão, onde mais pode ir? Não ligues nem envies dinheiro.

Deixa os pais alimentarema, se forem tão sábios. Daqui a uma ou duas semanas ela volta. Vai dormir agora, tens que trabalhar amanhã.

Fiz exatamente isso: jantei umas francesinhas compradas no supermercado e fui dormir. Dormi tranquilo, sem saber que aquela seria a última noite que passei naquele apartamento.

No dia seguinte, ao chegar do trabalho, encontrei todas as minhas coisas empilhadas em caixas e sacos pretos no hall. Liguei novamente. A sogra, dona da casa de dois quartos onde eu e a Inês vivíamos, abriu a porta.

Então, querido genro, já te lembras do endereço do teu quarto de estudantes ou precisas de ajuda? Arruma o teu traste. Tudo o que ficar será recolhido amanhã pela limpeza!

Tive de me mudar para o alojamento estudantil. O divórcio foi decidido em tribunal. Cansado da vida de estudante, quis alugar um apartamento, mas ao receber o salário, da qual foram deduzidos os alimentos de infância e mais cinco mil euros para sustentar a exesposa, percebi que restava quase nada.

Seja mais econômico! Ainda precisas de juntar dinheiro para um lar, aconselhou o Miguel. Não te preocupes, António! Não fiques triste! Pelo menos celebraste o Ano Novo em grande estilo!

A Inês passou três anos a viver na casa dos pais, que a ajudavam com o pequeno Samuel; o apartamento era alugado a terceiros. Quando voltou a trabalhar, mudaramse de novo, e depois de uma remodelação nada lembrava mais o António ou a sua família.

O que achas da atitude do António? Deixa o teu comentário e dá um like.

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— Não tem problema, Tiago! Não chores! Pelo menos celebraste o Réveillon em grande estilo!