Não percebia para onde desaparecia a comida que a minha esposa preparava. Até que a minha sogra nos …

No início, fiquei contente por a minha sogra, Dona Filomena, nos ajudar. O nosso filho, Joãozinho, fica frequentemente doente, por isso achámos melhor não o levar à creche durante um tempo. A minha esposa, Matilde, pediu à mãe que tomasse conta do neto.

A Dona Filomena aceitou, mas quis deixar claro desde logo que só poderia vir à nossa casa todos os dias durante o dia. Ao fim da tarde, faz sempre questão de regressar ao seu apartamento em Odivelas, onde gosta de descansar e ter o seu sossego.

Às vezes, quando temos de sair à noite, pedimos à nossa vizinha, Dona Teresa, que fique um bocadinho com o Joãozinho, de modo a não sobrecarregar a minha sogra. Fazemos sempre por ser compreensivos e não exigir mais do que ela pode dar.

Durante as primeiras semanas, tudo correu bem. Chegava a casa, o Joãozinho estava alimentado, limpo e sossegado. Mas depois reparei que a Dona Filomena já não esperava por nós: assim que podia, ia-se logo embora.

A Matilde costuma cozinhar o jantar para um ou dois dias. E, para reconhecermos a disponibilidade da minha sogra, todos os meses entregamos-lhe um envelope com uns euros. Sabemos que o tempo dela também é valioso.

Com o passar das semanas, reparei que a comida que a Matilde preparava desaparecia muito rápido. Era estranho, já que a Dona Filomena come pouco e o Joãozinho ainda menos Perguntei-lhe se sabia o que se passava. Ela, sem hesitar, explicou: O teu sogro, o Senhor Manuel, vem cá quase todos os dias à tarde, antes de sair do trabalho. Preparo-lhe o teu jantar, porque ele já não tem paciência para cozinhar quando chega a casa. Por isso, ele aproveita e come aqui.

Fiquei sem saber o que dizer. A Dona Filomena vai para casa a descansar, enquanto o Senhor Manuel passa todos os dias pelo nosso apartamento para jantar confortavelmente, com as nossas refeições. Não lhe custava nada cozinhar ao menos uma vez ou outra! Não me importava que viesse cá uma vez por semana, mas todos os dias parece-me abusar.

Ainda por cima, nem nos sobra grande coisa para o jantar. A Matilde prefere não criar problemas, mas eu já pus tudo em contas: se for assim, mais vale contratar uma ama.

Não gosto desta falta de consideração da parte dos meus sogros. Pagamos todos os meses à minha sogra pela ajuda com o Joãozinho e, além disso, ainda estão a poupar à custa das nossas refeições cá em casa. Falei disto à Matilde, mas ela pede-me para não criar confusão. Ainda assim, fico a pensar: será que não percebem que também nós temos despesas e precisamos desse dinheiro?

A vida ensinou-me uma coisa: por mais que ajudemos a família, é importante conversar abertamente e colocar limites saudáveis para que todos possam viver em harmonia. O respeito e a sinceridade são a base de qualquer relação familiar ou não e só dialogando se evita que pequenos gestos se transformem em grandes ressentimentos.

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