Não mexas no passado: A trajetória de Taís após os cinquenta anos, marcada por desilusões conjugais,…

Não remexa o passado

Madalena pensa muito na sua vida, agora que já passou dos cinquenta anos. Não tem coragem de dizer que o seu casamento foi feliz, tudo por causa do marido, Luís. Na juventude casaram-se por amor, ambos se gostavam muito. E, mesmo assim, quando ele começou a mudar, Madalena nem percebeu como foi.

Viviam numa aldeia, na casa da sogra, Dona Amélia. Madalena sempre fez por manter a paz no lar, respeitava a sogra que sempre a tratou com carinho. A mãe de Madalena, Joana, morava na aldeia vizinha com o filho mais novo e estava frequentemente doente.

Amélia, como é que te entendes com a tua nora, a Madalena? perguntavam as línguas afiadas da aldeia, quando se cruzavam à beira do tanque ou no mercado.

Da Madalena não posso dizer mal, é respeitadora, sabe fazer de tudo, trata da casa e do campo, ajuda-me em tudo respondia sempre a sogra.

Ai, quem acredita nisso?! Uma sogra a elogiar a nora Isso nunca vi! riam as vizinhas.

Cada um acredita no que quer respondia Amélia, virando costas.

Madalena teve uma filha, Beatriz, o orgulho da casa.

Madalena, essa Beatriz saiu a mim! dizia Amélia, tentando encontrar semelhanças, enquanto a nora sorria, indiferente a quem a filha se pudesse parecer.

Quando Beatriz fez três anos, nasceu o filho, Tomás. Novamente, maior alegria na casa. Luís trabalhava, Madalena ficava com as crianças, e Dona Amélia sempre pronta a ajudar. Viviam modestamente, mas havia harmonia. Luís nunca bebia como tantos homens do povo. Muitas mulheres tinham de ir buscar os maridos ao café, quase sempre bêbados, sem verem o caminho de casa. E lá iam, a ralhar e a maldizer a vida.

Quando Madalena estava grávida do terceiro filho, soube que o marido lhe era infiel. Na aldeia nada se esconde, e logo fez rumor sobre Luís e Rosa, a viúva. A vizinha, Dona Fernanda, não se acanhou.

Madalena, com o teu terceiro filho a caminho e o Luís soltou-se num palavrão ingrato, anda a pular de cama em cama.

Ó Fernanda, achas? Nunca reparei em nada admirou-se Madalena.

Como hás-de reparar? Tanta coisa nas mãos: dois filhos, terceiro quase nascido, casa, campo, sogra. Ele vive à vontade. Toda a gente sabe dos dois. E a Rosa nem se esconde!

Madalena ficou triste; Amélia também sabia, mas calava, não queria que a nora sofrêsse. Ralhava com o filho, mas ele tranquilizava-a rapidamente.

Ó mãe, viste com teus olhos? Mulheres gostam de falar

Certo dia, Fernanda veio a correr.

Madalena, o teu Luís acabou de entrar no quintal da Rosa, vi eu da rua. Não queiras ficar sozinha, com três filhos, sem marido! Vai lá àquela descarada e agarra-lhe os cabelos. Estás grávida, o Luís nem se atreve a tocar-te! aconselhava.

Madalena sabia que lhe faltava coragem para uma cena destas, ainda por cima conhecia bem a Rosa, dura e habituada a conflitos. O marido morreu bêbado no rio, viviam às turras e eram brigas constantes Rosa aprendeu a defender-se. No entanto, Madalena decidiu dar o passo.

Vou olhar nos olhos do meu Luís, pôr tudo a claro. Ele nunca admite, diz que são mexericos disse à sogra, que tentou impedi-la.

Madalena, onde vais tu com a barriga, poupa-te

Era outono, já havia noite cerrada. Madalena bateu à janela de Rosa, aguardou, mas Rosa falou através da porta.

O que queres, por que bates?

Abre-me a porta, sei que o Luís está aí, disseram-me pessoas de confiança gritou Madalena.

Agora que me apanhaste Achas que abro? Vai para casa e deixa-te disso Madalena ouviu a gargalhada.

Sem saber o que fazer, voltou para casa, percebendo que não valia a pena. O marido chegou já depois da meia-noite, bêbado. Luís não bebia com frequência, mas às vezes acontecia. Madalena o esperou acordada.

Onde estiveste? Sei que andas na casa da Rosa, a beber. Fui lá, ela nem me abriu a porta

Inventas coisas, mulher irritou-se Luís. Só bebi com o António, no café, nem demos pelas horas.

Madalena não acredita, mas não faz escândalo. Não vale a pena discutir; “quem não é apanhado, não é ladrão”, assim diz o povo. Mas aquela noite não dormiu, preocupada:

Para onde iria eu com dois filhos e outro a caminho? A mãe está doente, o irmão já tem a família e três filhos. Não cabíamos todos lá, a casa é pequena.

A mãe sempre dizia:

Aguenta, filha, casaste, tens filhos, aguenta. Achas que foi fácil com teu pai? Bebia, batia, lembras-te de nos escondermos? Deus levou-o, mas eu aguentei. O teu Luís ao menos não te bate, nem bebe muito. Destino da mulher é suportar.

Madalena não concordava, mas sabia que não conseguiria ir-se embora. A sogra também tentava consolar:

Filha, para onde, com crianças? Daqui a nada nasce mais um. Juntas havemos de lidar com o Luís.

A terceira filha, Leonor, nasceu frágil e adoecia muito. Talvez o stress tivesse afetado Madalena e a gravidez. Com o tempo, Leonor acalmou, e Dona Amélia lhe dedicava toda atenção.

Madalena, ouvi dizer Fernanda levava todas as novidades que a Rosa deixou o Mário lá em casa. A mulher dele pôs-no na rua, e Rosa acolheu-o.

Que fique lá, Deus fique com ela respondeu Madalena já aliviada: pelo menos o seu marido não ia lá.

Mas nem um mês passou, voltou Fernanda:

O Mário voltou para a mulher. Agora a Rosa está à caça de outro. Não te descuides, cuida do Luís, nunca se sabe alertou.

A vida foi seguindo, mais tranquila. Dona Amélia sentia-se feliz. Mas, como se diz, se um homem tem bichos carpinteiros, não fica sossegado.

Amélia, ao sair do mercado, cruzou-se com a velha amiga, Custódia.

Amélia, como é que o teu Luís saiu a esse jeito? A Madalena é boa e bonita, mãe dedicada, até tu a elogias! O que falta ao teu filho?

Custódia, ele voltou às andanças?

Voltou, sim. Nada lhe falta, vive no bem-bom, tudo feito, tudo tratado. Anda agora de volta da Vera, trabalha na cantina

Amélia evitava contar à Madalena, ralhava ao filho em segredo. Mas tudo se soube, claro. Madalena chorou, implorou, mas Luís continuou nas escapadelas. Nunca pensou sair da família, sabia que não aguentava longe da mulher e dos filhos. Mas marido fiel, não era. Tinha conforto em casa; mulher, filhos, mãe, tudo debaixo do seu teto, mas procurava aventuras fora.

Dona Amélia já nem escondia, repreendia abertamente o filho, mas homem feito não escuta mãe velha. Respondia mal e gritava:

Mãe, eu trabalho, trago dinheiro, faço tudo pela família, e vocês só me acusam. Só acreditam nas cusquices das mulheres!

Já antes não abusava da bebida, agora deixou de vez.

Os anos passaram. Os filhos cresceram. Beatriz casou-se na cidade grande, onde estudou na escola profissional, fixou-se com o marido. Tomás terminou o curso superior e casou por ali também, com uma rapariga de Lisboa.

A mais nova, Leonor, termina agora a escola secundária, quer seguir estudar fora. Luís finalmente sossegou, só trabalho e casa. Mais tempo no sofá, saúde fraqueja. Já não toca em álcool, nem antes era de exagerar, mas agora nem prova.

Madalena, ando com o coração apertado, parece que dá umas pontadas nas costas outra vez a queixar-se Madalena, as juntas, parece que doem, talvez fosse bom ir ao médico na vila.

Madalena não sente pena. Já não tem sentimentos pelo marido, de tanto chorar e desiludir-se. Quando ele sossegou, ela já tinha endurecido.

Agora que está débil de saúde, só quer que a gente tenha pena. Que vá pedir contas às que entretinha antes, agora que cuidem dele.

Dona Amélia já faleceu, foi enterrada ao lado do marido. Na casa de Luís e Madalena reina o silêncio. Mas, de vez em quando, os filhos e netos aparecem. Ambos ficam felizes. O pai queixa-se, culpa a mãe que não o leva ao médico. Beatriz traz medicamentos, preocupa-se, anda sempre à volta do pai; chega até a dizer à mãe:

Mãe, não ralhes com o pai, ele está doente Madalena magoa-se, sente que a filha defende o pai.

Filha, ele mereceu, foi vida de excessos Agora quer pena. Também não sou de ferro, também adoeci por causa dele justifica-se Madalena.

O filho consola o pai, conversa mais com ele. Faz sentido, são homens.

Os filhos parecem não entender a mãe; quando Madalena lhes explicou as traições do pai, e que aguentou tudo em nome deles, para não os deixar sem pai, explicando o sofrimento, o que escuta?

Mãe, não remexas o passado, não massacres o pai diz Beatriz, o irmão dá-lhe razão.

Mãe, já passou, deixa lá isso dizia o filho, dando-lhe um carinho no ombro.

Apesar de Madalena se magoar por ver os filhos a defender o pai, compreende-os, não guarda rancor. A vida é assim.

Obrigado por lerem, por acompanharem e pelo vosso apoio. Que tenham sorte e felicidades na vida!

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