Lurdes, temos mesmo de fazer alguma coisa… suspirou Matilde ao telefone, as palavras soando turvas como se nadassem num copo de vinho tinto.
O que aconteceu? perguntou Leonor, a irmã mais nova, o tom já inquieto como o voo das andorinhas antes da tempestade.
O telefonema da irmã mais velha era raro, como o sino da aldeia a anunciar qualquer desventura. Costumavam mandar umas mensagens pelo WhatsApp, secas e despachadas. Mas agora Matilde insistiara numa chamada de viva voz, naquela manhã em que o céu parecia ter perdido a cor.
A mãe já não consegue viver sozinha, disse Matilde entre dois suspiros, as sílabas rodopiando no ar como folhas mortas numa tarde de inverno. Se falasses mais vezes com ela, sabias. Aliás, deves imaginar…
Ai, não comeces! Fala mas é do que interessa. O que aconteceu agora? Leonor, fiel ao papel de rebelde de família, cortava o passo a qualquer lamento com ferroadas nervosas.
Só te lembro que a mãe já tem setenta e três Matilde respirou fundo e a tensão dela parece uma montanha-russa. Queixa-se de cansaço, já quase não tem forças, cozinha com muito custo, e limpar a casa… é um tormento.
Às vezes nem ao supermercado consegue ir. Ainda bem que a vizinha Rosa lhe leva pão e leite.
Mas então, está a passar fome? Leonor ficou com a voz mais fina, como se um mosquito lhe tivesse pousado no ouvido.
Não, claro que não! Vou lá de quinze em quinze dias, levo tudo o que precisa, mas… já não dá para ela se safar sem ajuda.
E se ela cair? Partir uma perna? Tu sabes que, nestas condições, cuidar dela depois… é um sarilho dos antigos.
O silêncio derramou-se entre elas.
Laurinda, a mãe, sempre fora farta nas carnes e, com os anos, o peso só aumentara. Nunca ligou mucho à dieta, e qualquer recado das filhas zumbia-lhe nos ouvidos como moscas numa feira de verão.
E, para piorar, sente-se tão sozinha. Chego a sair dali e quase que a escuto a chorar baixinho pela casa. Diz que já ninguém quer saber dela… continuou Matilde, as palavras desfiadas como linhas invisíveis num tear nervoso. Isto tudo está a dar comigo em doida.
Então, diz lá qual é a tua ideia, que não estou a perceber
A voz de Matilde engoliu outro silêncio. As conversas com Leonor eram cada vez mais complicadas, como tentar apanhar enguias a mãos nuas.
Acho que devias ir viver com ela.
Isso é mesmo à maneira! Mas porquê eu e não tu?
Deixa-me adivinhar… Tás aí com o teu Toninho, o marido perfeito, e ainda o enteado, que já com vinte e cinco anos é o menino dos teus olhos.
É isso, não é?
Leonor, para quê esse tom?!
Porque és sempre tu a resolver tudo por toda a gente, menos por mim! E eu que me lixe, é? Leonor quase gritou no telefone, a voz crispada como roupa mal passada.
E quando a mãe se dividia entre cuidar do pai doente e tomar conta de ti e da Mariana? Quando andava de uma aldeia para a outra, só para te poder dar uma folga, para trabalhares ou descansares? Isso, não te incomodava, pois não?
De repente, ficou solene um instante. Matilde tinha razão. Leonor lembrou-se de quando o casamento relâmpago com o pai da Mariana terminou. A sogra, dona Etelvina, gentil até à alma, permitiu-lhe ficar com a filha no T1 durante anos, até a Mariana virar maior de idade.
A própria Etelvina pouco ligava à neta. O filho pagava só uma ninharia de pensão. Restava a Leonor trabalhar sem parar para manter a casa, e aí sim, a mãe deu um jeitão. Mas não era para ficarem a esfregar-lhe isso sempre na cara…
Quando a Mariana atingiu a maioridade e já estudava em Coimbra, teve de sair da casa da sogra. Aproveitou e foi à procura de vida melhor em Lisboa, encontrando trabalhos temporários aqui e acolá depois dos 40, não é nada fácil ser bem-vinda em muitos sítios!
Mas gostava da vida, e voltar à aldeia… só nos sonhos mais estranhos.
Não sabes o que é crescer uma filha sozinha! rebateu Leonor, cravando o ferrão onde sabia que mais doía à irmã. Vê se tentavas passar pelo que eu passei!
Matilde calou-se, esmagada pela verdade que não podia negar. A sua vida estava bem alinhadinha. Finda a universidade, ficou na cidade, arranjou emprego de contabilista. Sonhava com um bom casamento, mas os namorados que lhe apareciam eram sempre homens estranhos: uns bêbedos, outros agarrados às mães, outros oportunistas.
Só aos trinta e nove topou o António três anos mais velho, viúvo, com o filho Mário ainda criança. Mecânico de profissão, bicho do mato, mas bom homem, trabalhador, de poucas palavras e mãos milagrosas.
Apaixonou-se perdidamente. Casaram, e Matilde dedicou-se a eles. Não conseguiu ter filhos, por mais que tentasse, por isso António e Mário viraram a luz dos seus dias. Não queria perder isso por nada deste mundo.
Tentei levar a mãe lá para casa, murmurou Matilde, a voz rouca de recordações estranhas que se misturavam com o chiado do telefone mas nem quer ouvir falar disso.
E o teu Toninho, tão querido, estava disposto a acolher a sogra num T2? Leonor picou. Ou nem te deste ao trabalho de perguntar, sabendo que a mãe não ia aceitar?
Leonor! Chega de brincadeiras. Falemos a sério, que o assunto pesa.
Já chega! murmurou Leonor antes de desligar a chamada num rompante abrupto.
Matilde ficou agarrada ao telefone, olhos fixos no nada, como se tentasse acordar. Seria excelente se Leonor mudasse para a casa da mãe. Assim, Matilde ajudava com dinheiro e mantimentos, e Leonor até podia encontrar trabalho remoto, porque, por incrível que pareça, a internet na aldeia até funcionava.
Mas Leonor, como sempre, mostrava-se ingrata, como uma princesa enfadada com as maçãs do campo. Forçá-la, agora? Nem pensar.
No dia seguinte, Matilde recebeu mensagem de Leonor: “Falei com a mãe. Diz que está bem e não precisa de ajudantes. Acaba lá com o drama!”
Nem respondeu. Para quê discutir? Leonor mal falava com a mãe e raramente enviava mensagens. A mãe elogiava o pouco contacto: era melhor do que nada e não queria magoar a filha mais nova, que depressa se feria e se fechava no seu mundo.
Já Matilde era saco sem fundo para as queixas da mãe, escutadas religiosamente todas as semanas. Não dormia de noite. Até António, que raramente notava mudanças de humor, perguntara se algo se passava.
Decidiu não incomodar o marido. Para quê carregá-lo com problemas? E contratar uma cuidadora… Não havia euros que chegassem.
Chega! António largou o copo de chá em cima da mesa, o som reverberando como um sino na igreja deserta. Há três meses que andas assim. Diz-me lá o que se passa. Agora.
Matilde desatou num choro de sonho, mas engoliu as lágrimas, procurando coragem.
Por que não me disseste logo que a Laurinda estava mal? António olhou-a com aqueles olhos castanhos escuros, profundos como poços.
Não queria preocupar-te murmurou, desviando o olhar para o azulejo que parecia dançar na parede.
Pensou que contar-lhe fora um erro. Para quê meter o marido nisto?
Está bem, levantou-se António. Obrigado pelo jantar. Vou para a cama.
Nem pôs RTP1, como era hábito. Matilde revirou-se durante horas, sem encontrar descanso nas lençóis de sonho. De manhã nem ouviu o alarme.
Sábado não havia trabalho, mas ao António dava sempre o pequeno-almoço à mesma hora, como se aquilo pudesse alquimizar a vida.
Contudo, o marido estava sereno na cozinha, a ler entusiasmado no telemóvel, os óculos a escorregar-lhe no nariz.
Já acordaste? virou-se para ela. O rosto fechava-se na severidade dos justos, mas a voz era tranquila.
Já, Tó… Vou preparar o pequeno-almoço! apressou-se ela.
Senta-te. Temos de conversar.
Matilde obedeceu, pesada.
Já pensei nisto. A tua mãe precisa de ajuda, e não se deve largar os velhos à sorte. A minha morreu cedo demais… Vamos viver com ela.
Já vi que posso trabalhar com o senhor Augusto, que precisa de um homem para tratar das vacas, e tu vais encontrar qualquer coisa. Não é um drama.
Quase caiu da cadeira.
António… Tens a certeza?
Absoluta. Ou achas que me esqueci de como a tua mãe sempre tratou o Mário como neto e nunca me deixou faltar nada? Eu lembro-me de tudo, Matilde. E sempre quis voltar à aldeia, sabes? Se a Laurinda não se importar…
Matilde ficou a olhar, os olhos marejados. Não podia acreditar no que ouvia. Estaria a sonhar? Seria um daqueles sonhos em que a casa fica de pernas para o ar e as pessoas falam com vozes de outros tempos?
E o Mário? perguntou, sem saber bem porquê.
O Mário? Está crescido, tem licenciatura, trabalha, quer é a casa dele e espaço. Até lhe vamos fazer um favor. explicou António, com meio sorriso de quem vê um burro a voar por entre os telhados da aldeia.
Toninho! Matilde atirou-se a ele num abraço inesperado, esquecida de que António era pouco dado a esses gestos, abraços que cheiravam a pão quente e terra molhada.
Ele não a afastou. Passou-lhe só a mão pelas costas, como um vento brando pelo campo:
Vá, está tudo bem.
E talvez, no meio desse sonho esquisito, estivesse mesmo.







