No sonho, José permanecia só, a esposa já não existia; o parto final ainda lhe agarrava a alma como um véu de névoa.
Seja como for, cinco meninos ainda pulsavam em sua casa. O maior, Miguel, tinha nove anos. Tiago, de sete, corria pelos cantos. Os gêmeos, João e Luís, eram quatro, sempre espelhados um no outro. E a caçulinha, Ana, mal tinha três meses, recémchegada da madrugada que nunca termina.
Nunca se pode ficar triste quando os filhos pedem comida. Quando o relógio marcava meianoite, José sentava-se na cozinha, acendia o cigarro e deixava o fumo serpentejar como nuvens que não sabem onde pousar.
No início, ele girava sozinho, como quem tenta achar a própria sombra. A irmã da esposa, Catarina, chegou de vez em quando, ajudando um pouco. Não havia mais parentes por perto. Catarina queria levar João com Luís, dizendo que seria mais fácil. Depois, duas figuras surgiam das sombras da alcacuz, propondo levar as crianças para um orfanato.
José jamais entregaria um filho a outro. Como dar os próprios filhos a quem não os conhece? Como viver depois?, diziase ao vento. O tempo avançava lentamente, e as crianças cresciam, devagar, mas inevitavelmente.
Ele ainda conseguia checar algumas lições dos mais velhos. Com Ana, o trabalho era maior ainda; mas então apareceu Lúcia, vizinha da aldeia, e trouxese a ajuda que faltava. A enfermeira da maternidade, Nina, visitava com frequência, cuidando dos detalhes. Um dia, prometeu enviar uma babá. É difícil para um homem com um bebé, explicou, a menina é bonita, trabalha no hospital como cuidadora.
Lúcia não tinha ainda filhos, nem marido. Crescera ajudando irmãos e irmãs de grande família, vindo do concelho vizinho. Surgiu, então, na casa de José, como que surgida da fumaça.
Era baixa, forte, de rosto redondo, com uma trança que se arrastava até a cintura. Falava pouco, mas tudo mudava ao seu redor. A casa brilhava, como se o sol a tivesse lavado de novo.
Lúcia lavava as roupas das crianças, trocava as fraldas, cozinhava, fritava. Na escola e na creche notaram a diferença: as crianças estavam limpas, impecáveis, os botões já não eram costurados à força, os cotovelos sem rasgos.
Certa noite, Ana adoeceu, a febre subiu. A médica disse que só precisava de cuidados. Nina ficou ao seu lado a noite toda, sem jamais deitar a cabeça. Saía silenciosa, mas o dia seguinte já a encontrava, como se nunca tivesse partido, ainda dentro da casa de José
Os menores já eram chamados de mamã pelos irmãos, ansiando pelo afeto materno. Lúcia não poupava carinhos: elogiava, acariciava a cabeça, abraçava. Assim, os mais velhos, Miguel e Tiago, que antes gritavam e não sabiam o que chamar, passaram a chamar a ajudante simplesmente de Lúcia. Nem babá, nem mãe só Lúcia, diziam, lembrando que ainda tinham a sua própria mãe embora Lúcia, na idade, fosse quase uma mãe de plantão.
A família de Lúcia protestava.
Onde põe essa capa no pescoço? São poucos rapazes na aldeia?
Há rapazes, respondeu Lúcia, mas ainda sinto pena de José E as crianças já aprenderam a procurar.
E assim viveram. Quinze anos voaram como fumaça. As crianças estudaram, cresceram. Nem tudo correu liso; às vezes machucavamse. José ficava irritado, apertava o cinto, e Lúcia puxavao, dizendo: Para, pai, primeiro pensa antes de agir.
Brigavam, depois reconcilinavam. Lúcia já não era chamada de Lúcia na aldeia; agora a chamavam de Dona Lurdes, com respeito. Miguel, agora casado, esperava o primeiro filho.
Os jovens moravam separados; Miguel trabalhava na Cooperativa Agrícola da Serra, nunca como último mecânico, mas sempre a receber medalhas e prémios anuais. Tiago terminava a universidade na cidade; Lúcia orgulhavase dele será engenheiro, diziase. Juntos, faziam tudo: brincavam de infância, apoiavamse como se fossem uma só montanha.
Ana entrou no nono ano, tornouse o orgulho de Lúcia; cantava, dançava, e nenhuma festa passava sem ela.
José, mais uma vez, pensava como a Nina fora boa esposa para ele No verão, Lúcia sentiu algo estranho no corpo, um aperto que nunca tinha sentido. A idade não lhe trazia doença, mas os olhos escureceram, o peito doía
José, com o cigarro na mão, empurroua para a varanda; ela ficou pálida. Primeiro pensou que passaria, mas não passou. Foi ao médico.
Voltou ao lar silenciosa, pensativa. Ignorou as perguntas de José, dizendo que tudo estava bem.
Mas à noite, quando todos dormiam, chamou José para a varanda.
Senta, pai, preciso conversar Sabes o que o médico disse? Vou ter outro filho Já é tarde para mudar, mas cobriu o rosto com as mãos. Que vergonha.
José ficou estupefato. Tanto tempo sem filhos e agora!
Que vergonha, mãe? Os mais velhos já quase se foram, e agora? A natureza já arranjou tudo! Vamos nos preparar!
Como contar às crianças? Dirão que sou velha, mas
Não és velha! Trinta e nove, ainda são poucos anos.
Oh, não sei o que fazer soluçou.
Eu falo amanhã, na reunião da família.
A família sentou à mesa, e José anunciou: Meus queridos, em breve haverá mais um irmão ou irmã entre vós.
Lúcia abaixou a cabeça, o prato parecia pesar, o rosto rubrou até às lágrimas.
Miguel, que estava a visitar com a jovem esposa, riu alto.
Que ótimo, mãe! Que maravilha! Assim, criaremos dois ao mesmo tempo!
João também se alegrou:
Quero outro irmão!
Luís objetou:
Não, uma menina. Já temos muitos rapazes, falta só uma princesa.
Ana lançou um olhar a Luís.
Princesa? És tu quem mimou? Claro, menina! Eu vou fazer-lhe fitas, comprarlhe vestidos lindos! exclamou, embriagada de entusiasmo.
Vestidos És tu uma boneca? interferiu Tiago. Ainda temos que educar a criança, lembrese disso.
Vamos educar, disse José.
Lúcia ainda cobria a barriga que crescia, com um lenço, depois com um manto de verão, como se o calor a refrescasse.
Os meses escaparam sem perceber. Celebraram o primeiro filho de Miguel, um menino! Tiago foi para a universidade, as férias terminaram. João e Luís ingressaram no Instituto Técnico Agrícola.
E o ano escolar de Ana começou. A casa ficou vazia, silenciosa. Ana, entre aulas e amigas, encontrou até um rapaz de dança para acompanhála nos domingos.
Lúcia não dormia, esperava Ana. De repente, uma dor aguda, tão forte que escureceu a visão.
José chamou fraquamente parece que começou
José empalideceu, os sapatos nem tocaram o chão.
Para, mãe, vem logo! Chama a ambulância! gritou Ana. E rapidamente, saiu correndo.
Dois minutos depois, um carro chegou.
Mãe, o Tolik vai levarte, pede ao pai o carro, espera!
Tolik, pensou Lúcia, e outra dor lhe atravessou o ventre.
Oh, mãe! O que é isso!
Cinco minutos depois, chegou o rapaz que acompanhava Ana.
O pai levate, disse a Ana. Vais?
Eu vou, arrancou José do cabide a jaqueta. Não temas, Lúcia, estou contigo
A noite inteira, José ficou na varanda da maternidade do bairro, fumando um cigarro atrás do outro. Ao amanhecer, abriuse a porta e apareceu uma jovem enfermeira, pouco velha.
Sentado, pai? A fumar? Agora vai ter de fumar menos Primeiro filho, certo?
Cinco tenho, respondeu José, rouco.
Sete! exclamou a enfermeira, rindo. A tua beldade trouxete dois!
Dois? gaguejou José.
Um rapaz e uma menina! O rapaz grita, a menina é uma beleza! Vaicasa, pai, volta amanhã. Ainda há tempo para eles crescerem um bocadinho. Traz o que precisar, entende?
Sim, assentiu José, atordoado.
Na altasala de alta, a família reuniuse. Três estudantes, amigos da aldeia, vieram despedirse da escola e apareceram. A enfermeira entregou dois embrulhos, um atado com fita azul, outro com fita rosa. Atrás, Lúcia ficava envergonhada.
José pegou um embrulho, mas o outro ficou indeciso.
Dois não dá, murmurou ele. Esqueçome.
Miguel pegou o segundo:
Vai, pai Não é a primeira vez!
Que fofinha! exclamou Ana, ao abrir o envelope. Irmãzinha, minha linda!
Deu flores e bolo à enfermeira, como se fosse o ritual, e todos seguiram ao autocarro da Cooperativa, cortesia do diretor, porque é assunto importante.
Boa, mãe, agradaste a todos! sorriu Miguel.
Lúcia, segurando um dos embrulhos, sorriu silenciosa, pensando que Deus lhe daria filhos bons. Olhou para José, que segurava o outro pacote.
Criaremos, corrigiuse, certamente, nós
Crianças, voltouse aos meninos, que nomes lhes damos?
Todos começaram a sugerir nomes que lhes pareciam familiares ou especiais.
O motorista, amigo de José, escutava o riso ao fundo, pensando que afinal não eram sangue, mas laços que os uniam.
Boa noite, murmurou ele, enquanto o sonho se desfazia em fumaça dourada.
