Márcio, o que é isso? perguntou a moça, segurando a camisa com firmeza. Que mancha rosada é essa? Batom? Ah, foi porque ficaste até tarde no serviço
Filomena, o que estás a dizer? respondeu o rapaz, cansado, enquanto dobrava as coisas do turno. Acabei de sair da ronda. Batom? Na enfermagem só temos a avóEnfermeira Rosa. Na verdade estou exausto.
Filomena ajeitou os lábios, amassou a camisa e dirigiuse ao lavabo. Márcio exalou um suspiro pesado.
Já faz mais de seis meses que Filomena e Márcio vivem juntos. Tudo parecia perfeito, salvo um detalhe: Filomena era extremamente ciumenta. Encontrava motivos para desconfiar mesmo onde não havia nada.
Olha isto gemia Filomena. Ele está a traime. Vê aqui.
A moça entregou a camisa à sua irmã e cruzou os braços, visivelmente abalada.
Cláudia, irmã de Filomena, olhou a camisa, cheirou a mancha e riu.
Como assim riso? indignouse Filomena.
É só molho de fruta.
Num instante Filomena arrancou a camisa das mãos da irmã e cheirou novamente. O espanto no seu rosto misturava surpresa e confusão.
Já é hora de te acalmares. Não entendo de onde vem essa desconfiança tão estranha.
Filomena sentouse à frente da irmã.
Não começámos ainda a namorar. Eu terminei com ele confessou, desviando o olhar. Sabes? Ele traiu a antiga comigo. No início pensei que não sairia de mim, mas percebi que sim e ainda melhor.
Não é desculpa para falar de traição. Aprende a confiar.
Confio rebateu Filomena. Só fico a temer perderte.
Cláudia balançou a cabeça, sem saber o que dizer.
Onde estavas? cruzouos os braços Filomena. Uma da manhã.
Márcio suspirou, cansado.
Filomena, foste tu que me deixaste sentarme com os rapazes. Vimos um jogo de futebol, descansámos um pouco. Que há de errado?
O Damião já está em casa, liguei à Lurdes Onde estiveste nas últimas duas horas?
O Damião saiu antes, prometeu à esposa, e eu fiquei com o Sérgio. Filomena, acalmate. Vou dormir.
Márcio foi para o quarto e deitouse. Queria esquecer as suspeitas crónicas da namorada, recuperar a leveza que antes sentia. Mas Filomena estragou tudo, como sempre.
Filomena saiu do supermercado e dirigiuse ao seu apartamento, distraída pelo telemóvel. Ao virar a cabeça, ficou boquiaberta: do outro lado da rua, numa varanda, uma rapariga loira conversava animadamente com Márcio, que a apertava sem pudor.
Os olhos de Filomena nublaramse; largou a sacola de compras e correu para o rapaz. Agarrandoo pelo braço, puxouo para o lado.
Eu sabia! exclamou Filomena. Sabia que me estavas a trair. És sem consciência! balançou a cabeça. Eu estava certa! Traidor!
Márcio a fitou, o rosto sombrio; as mãos apertavamse em frustração, os olhos lançavam um olhar culpado à loira que não entendia nada.
Filomena
Não me hables! Sei o que vais dizer. Não quero ouvir desculpas sem sentido.
É a minha irmã interveio Márcio rapidamente. Uma prima.
O quê? Filomena ficou congelada.
Filha da tia Inês. Já a conheces. A Violeta é a minha irmã, crescemos juntos. Melhor ires para casa, conversamos lá.
Filomena saiu, lançandolhe um curto desculpa.
Márcio regressou a casa tarde, ainda magoado. Os lábios apertados pareciam desaparecer, os olhos evitavam Filomena.
Márcio
Estou farto admitiu ele. Não consigo perceber por que motivo sentes um ciúme tão intenso. Desde que começámos, só ouço acusações. Nos teus olhos há sempre suspeita. Ciúmas dos pacientes, das enfermeiras, dos médicos, de tudo. Já ultrapassou os limites e estou esgotado.
Márcio! gritava Filomena. Queres mesmo terminar? Por favor, perdoame. Amote! Vou mudar, prometo.
Filomena se lançou nos braços dele, segurandoo pelas mãos e fitandoo nos olhos. Márcio sentia pena da menina; amavaa verdadeiramente e até terminou um relacionamento de cinco anos por ela. Nunca imaginou chegar a esse ponto, mas Filomena conquistara a sua alma. Agora, porém, as dúvidas o corroíam por dentro.
Amote sussurrou ele, apertando a mão dela. Mas tudo o que fazes é insano. Não consigo viver assim.
Não farei mais isso soluçou Filomena. Jamais. Só fica comigo. Não consigo viver sem ti.
Márcio exalou e abraçoua, incapaz de a abandonar, mesmo depois de tudo.
Durante alguns meses o relacionamento melhorou; Filomena já não demonstrava ciúmes e Márcio desfrutava da companhia dela, sem precisar ir ao trabalho mais cedo nem ficar lá até tarde.
Chegou o outono, a época das enfermidades, e o número de pacientes aumentou. Márcio não conseguia chegar ao serviço antes; cansado, jantava em casa e ia dormir cedo.
Filomena voltou a suspeitar. Primeiro tentou acreditar nele, mas o perfume da camisa lhe parecia de outra mulher. O posto era quase só feminino, difícil imaginar motivos para ciúmes, mas as desconfianças cresciam; vigiavao, examinava as camisas, procurava pistas.
Depois do turno, Márcio foi direto ao duche, gastando o mínimo de tempo para chegar à cama. Quase silenciosamente, abriu a porta e viu Filomena a deslizar rapidamente o telemóvel.
Filomena o que fazes?
Ela recuou e afastou o aparelho.
Só precisava ligar.
Márcio apontou o telemóvel rosa sobre a cama.
E o teu está descarregado?
Também.
A tela de um telemóvel azul piscou; alguém escreveu:
De verdade? Totalmente descarregado? Então também me enganas. Márcio arqueou as sobrancelhas, surpreso. Será que ainda há algo que eu não saiba?
Desculpa baixou a cabeça Filomena.
Achaste o que procuravas? reclamou Márcio, irritado.
Filomena balançou a cabeça.
Márcio, em silêncio, começou a juntar as coisas numa mala. Filomena saltou da cama, segurandolhe a mão.
Por favor, não! Não quero mais isso. Confio em ti Márcio!
Não, Filomena. Perdoei uma vez, mas não pretendo cair noutra armadilha. Cansei. Quero viver tranquilo, confiar e ser confiado. Isso não é viver.
Em meia hora, ele tinha tudo pronto. Filomena ficou sentada na cama, abraçada aos joelhos.
Amote, verdade. Mas não posso continuar assim. E tu? Não mudarás?
Márcio deixou o apartamento alugado e regressou à casa dos pais, realmente exausto.
A desconfiança destrói até os laços mais fortes. Quem nunca projeta nos outros o medo de ser traído? Filomena temia que Márcio a traísse como fez com a exnamorada, mas ela própria o escolheu. Sem confiança não há amor, nem amizade, nem qualquer união duradoura. Essa foi a sua maior lição: só quem confia pode realmente amar.
