Não conseguiram educar bem os vossos filhos. Vejam o Miguel do Alexandre…

Não soubeste criar bem os teus filhos. Olha o que fez o Miguel…

No início, eu não percebia bem porque é que a minha mãe passou a implicar tanto comigo. Parecia que, em tempos de infância, tudo corria às mil maravilhas. Chegou até a usar-me como exemplo para o meu irmão mais velho, a dar-me elogios.

Vivíamos de forma modesta, não nos faltava nada essencial. Para as despesas maiores, juntávamos aos poucos. Até tínhamos carro, já antigo, mas sem grandes chatices. Se era preciso, o meu pai punha mãos à obra e consertava.

Quando acabou a escola, o meu irmão Alexandre entrou numa universidade em Lisboa. Isso puxava muito pelo dinheiro: propinas, renda, comida…

Eu via bem quanto os meus pais se sacrificavam, a poupar em tudo. E eu também estava quase a ir para a universidade, éramos só dois anos de diferença.

Outra filha a viver em Lisboa não vamos aguentar, aqui há boa universidade também, entra cá.

Lá me inscrevi por cá e arranjei trabalho. Primeiro como estafeta ao fim de semana, depois empregada de mesa num café próximo de casa. Fui para a universidade com bolsa, ganhava para a roupa e, de vez em quando, até levava comida para casa.

Boa filha, cá fazes falta. Estudas e trabalhas. Agora, o Miguel não dá, não consegue por causa do curso, exigem muito, está sempre esgotado.

Mas eu também me canso. Ando a fazer trabalhos pela noite fora.

Não é a mesma coisa, filha. Em casa cansa-se menos.

Eventualmente, o meu irmão tirou o curso e ficou à procura de emprego. Para quê voltar para a nossa terra, na capital há mais oportunidades. Procurou muito, mas não aceitava qualquer coisa, só empregos à sua medida. Os pais continuaram a ajudá-lo.

Ele precisa de se estabelecer, depois as coisas compõem-se.

Foram-se compondo, aos poucos. Trabalhou, e depois, de repente, casou-se. A filha do chefe dele ficou grávida.

Lá nasceu o menino, e o Miguel ficou com um pé bem assente por lá. Os sogros deram-lhes um apartamento, o sogro arranjou-lhe uma promoção e aumento. Teve sorte. Os meus pais suspiraram de alívio.

Eu também acabei por casar, não com ninguém importante, mas com alguém de trabalhador. Fomos juntando para a nossa própria casa, mesmo sem ser em Lisboa.

Tive uma filha, e logo a seguir uns gémeos rapazes. Já íamos a caminho do segundo filho e vieram logo dois de uma vez. Custou, claro, mas não nos lamentámos. Cresceram bem. Foram para a escola cá.

No trigésimo quinto aniversário de casamento, os nossos pais decidiram organizar uma grande festa. Antes, nos vinte e cinco e trinta, nunca houve tal luxo faltava sempre dinheiro. Agora decidiram avançar.

O Miguel veio com o filho, a mulher estava ocupada, mas mandou prenda. Um vale para compras de electrodomésticos, recomendando logo uma máquina de lavar loiça.

O Miguel entregou o presente, foram ao centro comercial e ela ficou logo montada. Toda a noite a minha mãe só falava nisso aos convidados, mostrava a nova máquina. No fim do jantar, a máquina fazia o trabalho.

O meu presente perdeu destaque no meio de tanto entusiasmo. Oferecemos uma viagem para dois, quase uma segunda lua-de-mel para os pais, mais cara, mas ficou ensombrada pela oferta do meu irmão.

Foram, agradeceram, mas acharam que foi um gasto sem cabeça. A viagem passou, a máquina ficou na casa.

Depois disso, sempre que podia, a minha mãe não se cansava de enaltecer as conquistas do filho. Mora em Lisboa, fez carreira, tem casa, mulher e filho e pronto!

Um filho só, não três em barda. Para quê ter três filhos? Isso é fácil agora, depois é pior. Vê o Miguel…

O Miguel tem casa toda equipada, aspirador automático, luzes inteligentes, máquina de loiça, comida pronta, até empregada doméstica…

Mãe, cá fazemos tudo juntos. Eu, o meu marido, os miúdos ajudam.

Mas o Miguel…

Pois, o Miguel…

O teu irmão…

O tempo foi passando, os meus filhos cresceram. Nenhum quis ir para universidades em Lisboa, mas todos tiraram curso cá na cidade. Nem isso ficou sem comentários da minha mãe.

Não soubeste criar os teus filhos como deve ser. Olha o filho do Miguel…

Mãe, temos bons filhos, e sobre o teu neto Miguelinho, nem sabes tudo! Fui lá e reparei como era…

Não inventes. Se tu falhaste, os teus filhos também. Só fizerem pobrezinhos!

Pois é, mãe. Trabalho bom, mas fora de Lisboa! Marido trabalhador, mas não é “aquele”! Filhos com notas excelentes, mas só cá na cidade!

O apartamento está impecável, mas sem empregada. Só um aspirador normal, a máquina de loiça, e as luzes acendemo-las nós…

Ajudamos-vos no que podemos, mas não dá para tudo! O Miguel nem dinheiro vos manda, tem despesas grandes!

Ainda assim, ele é gente, tu não.

Certo dia, o Miguel veio de Lisboa. A minha mãe achou que vinha só visitar, mas vinha para ficar. A mulher pediu o divórcio, o sogro despediu-o da empresa, e o filho estava cheio de problemas.

Aqui não achou emprego à altura, o salário, comparado com o de Lisboa, deixava muito a desejar.

Decidimos que o Miguel devia abrir um negócio. Está preparado. Não veio ele para ser um engenheiro qualquer, depois de tudo por Lisboa desabafou a minha mãe.

Vocês já decidiram. Então, força.

Precisamos de ajuda tua. Dinheiro, crédito. Vocês não precisam de nada, não vivem em Lisboa!

Mas o Miguel já não está em Lisboa! Aceitar a vida como ela é, talvez fosse boa ideia.

É fácil falar, tu nunca ambicionaste nada, ele sim…

Mãe, ajudamos os filhos e vocês. Não muito, mas tentamos. Agora temos de trocar de carro e fazer umas melhoras.

O carro pode esperar. O importante são os negócios do Miguel.

Sempre foi, mãe. Quando ele foi para Lisboa, mudou tudo. Eu nunca pedi para ir para Lisboa, e mesmo cá não ajudaram…

A casa dos teus avós foi vendida para pagar a vida dele em Lisboa. O carro dos meus sogros foi para ele andar por lá, precisava, era um “homem feito”.

Quando pedi dinheiro emprestado para comprar um carrinho para os gémeos, nem isso… Fomos visitar o teu filho a Lisboa? Só levámos as vossas encomendas, ficámos num hotel. Não agradámos à mulher dele… Éramos “do interior”.

Agora está divorciado e precisa da nossa ajuda. Nem apartamento tem.

Nem carro, aliás: o filho dele deu cabo dele.

Não vale a pena falarmos das desgraças dele, devíamos era ajudar.

Não, mãe! Trabalho há. Salário decente, para nós chega. Para ele, é pouco.

O que posso dar? Uns trocos? Dinheiro para negócio, depois para o carro, depois para casa… Não, mãe! Já é estranho alguém tido como “bem sucedido” vir pedir dinheiro à irmã pobrezinha do interior, aquela que nunca chegou a ser “gente”!

E é assim que falas comigo?

Nada de mais, mãe. Só percebi que o teu filho é que é “gente”. Agora que vive contigo, que ajude ele! Chegou a vez dele.

Laura! (ela só me chamava assim zangada) Estás a obrigar-nos a vender esta casa. Nem pensas no que nos impele a fazer?

Eu? Só não se esqueçam de arranjar um quarto para vocês.

Venderam o apartamento, compraram um T1 velho e pequeno. O resto, deram ao Miguel, que voltou a Lisboa. Para quê ficar na nossa cidadezita do interior?

Negócio não houve. O Miguel continuou a ser “gente” aos olhos da minha mãe. Ela tornou a voltar-se para mim, a pedir ajuda, precisava de arranjar a casa. Continuei a apoiar, mas disse-lhe que obras só faria quem fosse herdar.

Eu sei perfeitamente que a casa vai para o meu irmão, portanto que pague ele a renovação. Ele é o “senhor doutor”!

O dinheiro do Miguel acabou e voltou para casa dos pais. Num T1 não havia espaço, mas que fazer.

Dormia num sofá-cama na cozinha, mas tinha sido “gente” como se costuma dizer, apostaram no cavalo errado

No fim disto tudo, aprendi algo: cada um colhe conforme semeia. Por muito que tentemos agradar, há sempre quem só valorize os que têm títulos e esquecem o trabalho e dedicação de quem está ao lado.

E não me arrependo das minhas escolhas.

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Não conseguiram educar bem os vossos filhos. Vejam o Miguel do Alexandre…