Nada Pessoal, Só Coisas

Nada pessoal, só coisas

Embala também aquele jarro ali disse Dona Adelaide, sem sequer virar o rosto.

Ela estava de pé no meio da sala, olhando para as estantes como quem contempla uma montra numa loja já paga. Tranquila. Pragmática. Com aquele olhar semicerrado de quem entende do assunto.

Que jarro? perguntou Mariana.

A voz saiu mais baixa do que gostaria. Limpou a garganta e repetiu:

Dona Adelaide, qual jarro?

Aquele. O azul. Trouxemo-lo de Praga em noventa e oito. Peça de família.

Mariana olhou para o jarro azul. Ela e João tinham-no comprado no seu terceiro aniversário de casamento, numa loja pequenina da Rua Karlova. O vendedor era um senhor já idoso, de barba branca, e disse-lhes qualquer coisa em checo. João riu-se, fingindo perceber. Depois comeram trdelník mesmo na rua e Mariana queimou-se na língua e riram-se os dois disso durante meia hora.

Não é peça de família disse Mariana com calma. Comprámo-lo juntos. Em dois mil e nove.

Marianinha finalmente, Dona Adelaide virou-se, e na voz dela surgiu aquele tom que Mariana aprendeu a reconhecer desde o primeiro ano de casamento: o tom de quem explica o óbvio a uma criança. Vamos simplificar isto, sim? Tu percebes que tudo isto e ela abarcou a sala com um gesto foi comprado com o dinheiro da nossa família.

Da nossa família repetiu Mariana. Nossa, minha e do João.

O João é que trabalhava. Nós ajudámos. Tu tratavas da casa. Não é a mesma coisa.

João estava à janela, a olhar lá para baixo, para a cidade, que vista do décimo andar parecia de brincar, irreal. Carros minúsculos, árvores, pessoas pequenas. Não disse nada.

Mariana olhou para as costas dele e pensou que já as conhecia de cor. Sabia como se curvava quando estava cansado. Sabia do sinal por baixo da omoplata esquerda. Sabia o ritmo da respiração, quando fingia que dormia. Dez anos. Conhecia-o há dez anos e, naquele momento, ele estava ali, de costas, enquanto a mãe dele encaixotava a vida deles.

***

O apartamento era bonito. Mariana sempre o admitiu, até quando implicava com ele. Tectos altos, janelas enormes, chão de madeira com listões largos, daqueles que não se podem riscar com saltos altos. A cozinha do showroom Ambientes Nobres, paga por Dona Adelaide, que nunca deixava de fazer referência a isso. O lustre da sala, feito de vidro, parecia uma cascata gelada.

Viveu ali oito anos e nunca sentiu que era verdadeiramente sua casa. Não porque fosse uma má casa. Era tudo demasiado perfeito. Demasiado caro. Demasiado planeado a partir dos catálogos que Dona Adelaide trazia.

Quando se mudaram, Mariana pôs no parapeito do quarto um vasinho de barro com violetas, comprado na feira por dez euros. Uma semana depois, o vaso desapareceu. Dona Adelaide deitou-o fora, dizendo que não combinava com o conceito.

Nessa altura, Mariana não disse nada. João também ficou calado.

Foi a primeira vez. Depois vieram muitas outras.

***

Os carregadores chegaram às dez da manhã. Dois homens calados, carrinhos de mão, rolos de fita adesiva. Dona Adelaide recebeu-os no hall com uma folha na mão. Uma lista impressa, cheia de números e títulos. Mariana apanhou um relance: Sala: sofá de canto (pele cinzenta) 1 unid.; mesa de centro (mármore) 1 unid.; candeeiro de pé (bronze) 2 unid….

Virou-se para a cozinha. Pôs água a aquecer. Só para ter as mãos ocupadas.

João entrou logo a seguir. Ficou encostado à ombreira.

Mariana começou.

O quê?

Tu tás bem?

Mariana olhou-lhe para o rosto. Aquele rosto bonito que amou e que agora só mostrava aquele ar de menino culpado: sobrancelhas contraídas, olhar desviado, voz baixa, quase a pedir desculpa.

Estou. Vais querer chá?

Mariana

Queres ou não queres chá, João?

Silêncio.

Quero.

Ela preparou duas canecas. As mesmas, brancas, com coelhinhos desenhados, que compraram em Amesterdão. Canecas tontas, que nunca combinaram com o conceito da cozinha Ambientes Nobres. Dona Adelaide dizia que eram pirosas. Por isso Mariana lhes dava tanto valor.

Ficaram ambos ali, a beber chá, ouvindo o rumor da fita adesiva a trabalhar na sala e as ordens discretas de Dona Adelaide.

Ela não tem esse direito disse Mariana quase para si, baixo. O sofá comprámos juntos. Os candeeiros fui eu que escolhi. Os quadros do quarto trouxe eu, de Florença, pagos por mim.

Eu vou falar com ela.

Disseste isso cinco vezes hoje.

Nada. João olhava a caneca dos coelhinhos.

João e a voz de Mariana saiu com aquele cansaço que não queria mostrar. Não te peço o sofá. Quero só que estejas aqui. Ao meu lado. Só uma vez.

Ele ergueu os olhos.

Estou aqui.

Não disse Mariana. Estás à janela.

***

Dona Adelaide tinha sessenta e quatro anos e era daquelas mulheres que ocupam espaço e deixam menos ar para os outros. Não era má. Era só muito precisa. Muito convicta do certo e do errado, do que encaixa e do que não encaixa.

Gostava do filho. Nunca duvidou disso. Apenas o amor era tão denso, tão absoluto, que não havia espaço para Mariana. Não por maldade mas porque nunca considerou sequer que outra pessoa pudesse amar o filho assim. Ou mais.

No primeiro ano de casados, Mariana tentou ser amiga dela. Convidava para almoços. Pedia receitas. Uma vez comprou-lhe um lenço bonito, escolhido com cuidado. Dona Adelaide agradeceu e disse que fazia alergia à lã.

No segundo ano, Mariana parou de tentar. Limitou-se a manter distância. Cordial, sem conflitos.

No terceiro ano percebeu que a distância não funcionava: só funcionava a distância da própria Dona Adelaide.

No quarto, no quinto, no sexto Mariana perdeu a conta.

***

João Miguel chamou Dona Adelaide da sala. Vem aqui decidir os quadros.

Ele pousou a caneca. Mariana viu-o ir, ao som da voz da mãe, com aquele passo apressado, ombros tensos. Disponível.

Quantas vezes em dez anos ele foi assim, ao mínimo chamamento, à mínima campainha?

Não havia raiva. Já não havia força para isso. Raiva exige energia, e isso acabara faz tempo.

Na sala, ouviam-se vozes:

Esse quadro vai, que é da galeria Foz, vale dinheiro

Voz do João: baixo, conformado.

Mariana acabou o chá. Lavou a caneca. Enxaguou.

Saiu pelo corredor, foi até ao quarto. Não precisava, mas não queria ficar na cozinha só para ouvir a divisão da vida dela por tópicos da lista impressa.

No quarto, reinava um silêncio bom. O sol cortava a cama em faixas amarelas. Ainda não tinham decidido a quem ficava a cama. Dona Adelaide certamente já sabia.

Sentou-se à beira da cama. Passou a mão pelo cobre-leito.

Lembrou-se de o ter escolhido. Ficou parada na loja, entre dois: um escuro, prático, disfarça nódoas, como diria Dona Adelaide; o outro azul, clarinho, quase celeste, absolutamente impraticável. Comprou o azul. João estranhou mas não protestou.

Aquela capa azul clara foi talvez o maior ato de rebeldia de Mariana nestes oito anos naquela casa.

***

Abriu o armário de cima do quarto ao acaso, à procura de uma mala antiga. Lá ao fundo estava a mala, e ao lado, uma caixa.

Uma caixa de sapatos vulgar, velha, cantos gastos. Na tampa lia-se, a marcador, a letra de Mariana: Vários. Nosso.

Demorou um segundo a lembrar-se do que era.

Pegou na caixa. Pousou-a na cama.

Abriu.

No topo, dois bilhetes de cinema, amarelecidos. Demorou a lembrar-se do filme. Depois recordou: O Fabuloso Destino de Amélie. Terceiro encontro. João disse a noite inteira que não gostou, só anos depois confessou que tinha adorado mas teve vergonha de dizer.

Por baixo, um postal de Barcelona. Lua de mel. Desenho da Sagrada Família, e João tinha escrito: Amo-te mais do que Gaudí amava esta igreja. E ele amou-a setenta e três anos. Mariana riu-se e perguntou: E tu vais amar-me setenta e três anos também? Ele disse: Vou tentar.

Ele tem agora quarenta. Ela, trinta e oito. Dez anos juntos. Faltam sessenta e três.

Mariana ficou de postal na mão, a pensar nisso.

Por baixo: um íman pequenino da Torre Eiffel, comprado no mercado das pulgas em Paris, logo banido do frigorífico por Dona Adelaide por ser pinderiquice; uma pulseira de plástico com Participante, de uma festa da empresa onde dançaram até cair de bêbados; uma flor seca, quase a desfazer-se, que já não sabia de onde era mas lembrava vagamente um campo, uma manhã e eles numa estrada qualquer, só pararam porque era bonito; três conchas da praia em Vila Praia de Âncora; um guardanapo onde jogaram galo à espera da comida, num café.

Tudo tão simples. Tão barato. Nada disto contava para a lista impressa.

Mariana ficou ali, sentada sobre o cobre-leito azul, com o guardanapo do galo na mão, e sentiu dentro dela algo a desatar devagarinho, depois de tanto tempo guardado.

Não chorou. Nunca foi de chorar por tudo e por nada. Ficou só a respirar e a ouvir a fita adesiva na sala e Dona Adelaide a falar sobre copos de cristal.

***

João apareceu à porta sem fazer barulho, como se fosse buscar algo dele. Viu-a sentada com a caixa aberta, e parou.

O que é isso?

Vê tu próprio.

Ele sentou-se e pegou nos bilhetes de cinema, no postal.

Mariana acompanhava-lhe a expressão. Viu-se algo a mudar nele, devagar, como a luz atrás de uma nuvem.

Amélie murmurou ele. Disse-te que não gostei.

Eu sei.

Era mentira.

Já sabia.

Ele sentou-se ao lado dela e apanhou a pulseira Participante.

Isto foi na festa da firma do Sérgio. Dois mil e quinze.

Foi.

Perdeste um sapato no fim da noite.

E tu encontraste-o junto ao balcão.

Disse-te que eras a Cinderela.

Disse-te que não tinhas nada de príncipe.

Sorriu. Não com o sorriso cansado e de desculpa dos últimos anos, mas com aquele antigo, a levantar o canto esquerdo da boca.

Nada de príncipe, de facto.

Ficaram em silêncio. Da sala veio um estrondo, e Dona Adelaide reclamou: Mais cuidado!. O carregador respondeu: Desculpe, senhora.

João Mariana começou.

Sim?

Porque é que estamos aqui? Não nesta divisão. Aqui, no geral. Como é que chegámos a isto?

Ele não respondeu logo. Ficou a girar uma das conchas nos dedos.

Não sei disse enfim.

Sabes sim respondeu ela, sem mágoa.

Ele pousou a concha.

Sou um cobarde desabafou.

Mariana olhou-lhe para o perfil, conhecendo de cor aquele nariz, aquela testa.

Eu sei.

Devia ter sido diferente.

Devia.

Devia ter feito tanta coisa

João.

Ele virou-se para ela. Olhou-lhe finalmente nos olhos, coisa que não acontecera naquele longo dia.

Quero que saibas disse que lembro-me de tudo. Cada coisa desta caixa. Quando comprámos estes bilhetes. Tu a comeres trdelník, a queimares a língua. Lembro-me do campo, das conchas. Disseste que ias fazer uma moldura. Eu disse que era kitsch. Chateaste-te, depois, estivemos a nadar às três da manhã e

Chega interrompeu Mariana.

Porquê?

Porque dói ouvir-te.

Ele ficou em silêncio.

Para mim também dói confessou ele, baixinho.

***

Dona Adelaide apareceu à porta.

João, falta assinarem uns papéis

Viu a caixa. Viu-os, juntos, na cama. Alguma coisa se alterou-lhe no rosto, mas Mariana não percebeu o quê.

O que é isso?

São nossas coisas respondeu João.

Que coisas? Isto é tudo para o lixo, é tralha.

Mãe.

Uns papéis, papeluchos…

Mãe e agora a voz de João já era outra, não de quem pedia, mas de quem ordenava.

Dona Adelaide encarou-o.

O quê?

Saia, por favor.

Pausa. Longa.

João, os carregadores estão à espera, temos horas, há que despachar

Mãe. Saia do quarto.

Mariana baixou o olhar para as mãos no colo. Um silêncio pesado.

Está bem disse finalmente Dona Adelaide. A voz era igual, mas havia ali outra coisa. Quando acabarem, chamem-me.

Passos. A porta ficou aberta, só se afastou.

Mariana largou o ar, devagar.

Foi a primeira vez que fizeste isto disse.

O quê?

Pediste-lhe para sair.

Silêncio.

Em dez anos acrescentou. Primeira vez.

Eu sei.

Porquê agora?

Não sei. Talvez hesitou. Talvez por causa da caixa. Porque percebi que tudo o que dividimos lá na sala são só coisas. O sofá é um sofá. O jarro é um jarro. Mas isto apontou a caixa isto somos nós. É a única coisa verdadeiramente nossa.

Mariana ficou a olhar-lhe intensamente.

João disse-lhe então são palavras bonitas.

Eu não quero palavras bonitas. Eu

Espera, deixa-me acabar. São bonitas, e eu estou farta de palavras bonitas. Sempre soubeste falar bonito, explicar porque as coisas correram assim, que para a próxima é diferente. Mas perceber e fazer são coisas diferentes.

Eu sei.

Não sabes, João. Achas que sabes, mas não sabes. Porque se soubesses, a tua mãe não estava agora na nossa sala a empacotar a nossa vida à maneira dela, com uma lista na mão, percebes? Lista de coisas que são nossas. Fez uma lista.

Eu paro isto.

Agora?

Sim.

Já é tarde disse Mariana. Deverias tê-lo feito há sete anos, quando ela deitou fora o meu vaso. Ou há seis, quando mudou a disposição do quarto com a casa vazia. Ou há cinco, quando disse que eu não sabia fazer caldo verde. Ou há quatro, quando…

Mariana…

Ou há três, quando te disse que não querias filhos agora, que era preciso primeiro assentar, e tu concordaste, e eu já tinha trinta e cinco e

Parou abruptamente.

Silêncio.

Isso foi o que doeu mais murmurou ela, quase imperceptível. Mais do que tudo o resto.

João ficou imóvel. No rosto dele não havia culpa nem desculpa, só, simplesmente, ele.

Eu sei disse. Nessa altura eu

Não expliques.

Quero explicar.

Agora não.

Fechou a caixa. Pressionou bem a tampa.

Isto levo eu disse. Isto é meu.

Está bem.

Não quero mais nada desta casa.

Ele olhou para ela.

Onde vais?

Fico com a Marisa uns dias. Depois arranjo um quarto.

Mariana…

O quê?

Não vás.

Mariana pôs-se de pé. Agarrou a caixa. Pesava pouco. Surpreendentemente pouco.

João, saio deste apartamento, não de ti. Nunca quis mesmo viver aqui, só acostumei-me a fingir.

Podemos sair juntos.

Parou.

Olhou para trás.

O que disseste?

Ele levantou-se. As mãos caídas, direito, a olhar para ela.

Disse que podemos sair juntos. Não quero sofá, nem copos de cristal, nem quadros da galeria Foz. Quero-te a ti, esta caixa e só. Não preciso de mais nada.

Mariana ficou a olhá-lo.

Cá dentro, qualquer coisa mexia, algo parecido com esperança, medo, cansaço e mais alguma coisa impossível de nomear.

João disse devagar és um homem de quarenta anos. Se saíres comigo, a tua mãe

Eu sei.

nunca te vai perdoar.

Eu sei, Mariana.

E estás pronto para isso?

Não sei se estou. Mas sei que se não o fizer agora, nunca mais me respeito.

Pausa.

Isso já é outra conversa disse ela.

É?

É. Não é quero-te de volta. É quero começar a respeitar-me. E isso é diferente.

Talvez. Mas uma coisa sem a outra talvez não exista.

***

Na sala, Dona Adelaide conversava com os carregadores. Ao entrarem, virou-se, com os olhos na caixa que Mariana trazia e no rosto do filho.

Já acabaram as novelas?

Mãe João interrompeu chega.

O quê chega?

Tudo isto e apontou a sala, já desfeita, sofá e candeeiro embrulhados em plástico fica contigo. Não quero nada.

Dona Adelaide fixou-o.

Estás louco sussurrou.

Se calhar.

Isto é insensato, João, isto

Mãe. Aproximou-se dela, sem raiva, sem acusações. Amo-te, mas não quero viver assim. Isto não é vida. É gestão de projeto. Não sou um projeto.

Dona Adelaide esteve muito tempo calada. Depois disse:

Vais arrepender-te.

Talvez respondeu ele. Mas prefiro arrepender-me do meu erro do que de um dos outros.

***

Saíram do prédio já perto das duas. Mariana levava a caixa. João, um saco de roupa e o portátil.

O elevador tinha um espelho de cima a baixo. Mariana via o reflexo: dois adultos cansados, um de caixa, outro de saco.

No rés-do-chão, passaram pelo porteiro. As portas automáticas abriram-se. Lá fora, o dia era o típico de abril: fresco, cinzento, cheiro a folhas húmidas e chuva ao longe.

Pararam no passeio.

E agora? perguntou João.

Já disse: vou para casa da Marisa.

Eu não posso ficar lá.

Não tens de ficar.

Só quero ir onde tu fores.

Mariana olhou para a rua. As pessoas ali em baixo afinal não eram pequenas. Eram só pessoas, normais, com as suas vidas.

João disse. Não temos apartamento.

Eu sei.

Não temos quase dinheiro. Está tudo congelado até ao tribunal.

Tenho umas economias. A mãe não sabia.

Ok, mas é pouco. Vai ser um T0 feio, provavelmente.

Ainda bem.

Ela olhou-o. Ele olhou-a. No rosto dele algo de alívio, mas alívio era palavra pequena para tudo o que lhe via nos olhos.

Isto não é um fim disse ela. É só o começo. Vai haver tribunal, a tua mãe, vai ser complicado.

Sei disso.

Não sei se aguentamos.

Também não sei.

E mesmo assim?

Silêncio. Depois:

E mesmo assim.

Ajeitou a caixa debaixo do braço. Leve. Alguns bilhetes, postal, íman, pulseira, flor seca, três conchas e um guardanapo de jogo da velha.

Tudo o que restou de dez anos. Mas, ao mesmo tempo, tudo o que dos dez anos era verdadeiramente seu.

Então vamos disse.

E foram. Pela rua acinzentada e fria de abril, sem plano nem confiança, só com uma caixa e um saco para ambos. Lá atrás, no décimo andar, ficava o apartamento com o chão de madeira, o lustre gelado e Dona Adelaide, que já devia dar novas instruções ao pessoal da mudança.

Eles seguiram. Mariana não sabia se aquilo estava certo. Na verdade não sabia mais nada, só que tinha a caixa no braço. E ele, ao lado. E abril. E aquele cheiro que só existe na primavera, quando ainda faz frio mas já se percebe que o frio não dura para sempre.

João disse, a caminho.

Sim?

Lembras-te das conchas?

Praia do Norte. Querias uma moldura.

Disseste que era kitsch.

Era.

Vou fazê-la na mesma.

Ótimo disse ele.

Só não temos espaço para a pendurar.

Havemos de arranjar, Mariana.

Ela não respondeu. Seguiu ao lado dele, com a caixa. Pensando que havemos de arranjar não era promessa. Era só uma frase. Mas às vezes só frases é tudo o que há. E às vezes isso basta para dar mais um passo. E outro. E outro.

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