Na véspera do Ano Novo, entrei com a minha mãe na “Mundo das Crianças”… E fiquei encantada com um …

Na véspera do Ano Novo, eu e a minha mãe fomos à loja “Mundo das Crianças”. Eu fiquei completamente encantada com um vestido só. Era vermelho, tricotado, com um contorno azul brilhante na bainha e nas mangas. Fomos lá à procura de pequenos enfeites de Natal talvez umas fitas, talvez umas luzes Mas eu fiquei irredutível e pedi muito à minha mãe para experimentar aquele vestido.

O vestido assentava em mim como se tivesse sido feito à minha medida. Comecei logo a sonhar acordada. Havia um rapaz na minha turma de quem gostava muito, e queria tanto que ele me visse nesse vestido na festa da escola.

Estava ali parada, quase a chorar, agarrada ao vestido, sem vontade de o despir. A minha mãe percebeu e disse: “Olha, eu vou receber o ordenado em breve, vamos levar!”. Fui para casa tão feliz, parecia que voava.

Arranjámos a casa, pusemos luzes na varanda, e decorámos o pinheiro de Natal. No frigorífico só restava gelo e um pedaço de manteiga. Esperávamos ansiosamente que a mãe recebesse o salário. Lembro-me bem de que, antigamente, mesmo no dia 31 de dezembro trabalhava-se, só saíam um pouco mais cedo.

A mãe chegou a casa triste não tinha recebido, atrasaram-lhe o pagamento. Tinha lágrimas nos olhos, sentia-se magoada, e acima de tudo, sentia vergonha por me deixar sem mesa de festa.

Se vos disser a verdade, não fiquei nada chateada. O meu espírito era de festa, estava radiante só de estar ali, sentada em frente à televisão a ver os filmes de Ano Novo que só davam nessa altura. Fora dessa época, a televisão não tinha grande variedade, e, se bem me lembro, só existiam dois canais.

A mãe cozeu batatas, regou-as com manteiga, ralou cenoura, polvilhou com açúcar. Não havia mais nada em casa. Sentámo-nos à mesa, e nesse momento a minha mãe desatou a chorar. Tentei consolá-la, e nem dei por mim a chorar também, não pela falta de comida de festa, mas porque comecei a sentir uma pena imensa dela, tão grande que quase me sufocava.

No fim, enroscámo-nos debaixo do cobertor no sofá, abraçadas, e ficámos a ver o concerto de Réveillon. De repente, soam as doze badaladas. Os vizinhos do prédio saem todos para as escadas com copos de espumante, a cumprimentar-se em altos brados e a cantarem. Nós não saímos, ficámos quietas.

De repente, toca a campainha, insistentemente. A mãe foi abrir e deparou-se com a vizinha do lado, a dona Odete sempre implicava comigo: porque não limpava a entrada, porque fazia barulho nas escadas Era uma senhora rabugenta, a miudagem da rua não gostava nada dela, estava sempre a ralhar connosco.

A dona Odete já tinha devidamente brindado à passagem do ano. Não ouvi o que disse à minha mãe, mas vi quando ela entrou e olhou para a nossa modesta mesa, só com batatas. Saiu sem dizer palavra.

Passaram uns vinte minutos. Em vez de tocarem, começaram a bater à porta com força. Sobressaltámo-nos. A mãe não me deixou sair e foi ela ver quem era. Passado um instante entra disparada a dona Odete, de sacos nas mãos cheios de caixas, latas e pratos e debaixo do braço, uma garrafa de espumante. Mandou a mãe ajudar, e começou a tirar das sacolas saladas, enchidos, um frasco de pickles, metade de um frango cozido, rebuçados e até umas tangerinas.

A minha mãe chorou de novo, mas desta vez diferentemente. A dona Odete chamou-a de tola, limpou-lhe o nariz com a manga do casaco, e foi embora como se nada fosse.

Depois do Ano Novo, a dona Odete continuou igual, a organizar tudo no prédio e na rua. Nunca mencionou aquela noite.

Quando, anos depois, fomos todos ao funeral da dona Odete, percebemos que toda a gente gostava da nossa rabugenta vizinha, e que ela, algures no tempo, tinha ajudado toda a gente em alguma coisa.

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