Foi numa das minhas experiências como educador que vivi um caso que nunca me saiu da cabeça. Entre as crianças do meu grupo estava o pequeno Gonçalo. Nasceu com muitas complicações atraso de desenvolvimento, problemas cardíacos e ainda por cima com lábio leporino e fenda palatina. Até aos quatro anos, era quase impossível perceber o que ele dizia; por volta dos seis, depois de imensas sessões com especialistas, o Gonçalo conseguiu falar de forma mais clara. Claro que a sua fala era muito pelo nariz, com entoações típicas da garganta, mas pelo menos já se percebia o que ele queria dizer.
E eis que se aproximava o Dia da Mulher, no último ano do pré-escolar. Decidimos dar ao Gonçalo um pequeno poema para declamar. Era visível o quanto ele se envergonhava da sua voz e das cicatrizes nos lábios. Sabíamos que era um risco e um grande desafio para o rapaz, mas crescer num ambiente de estufa não faz bem a ninguém. Ele precisava muito disto de sentir que era capaz, de provar que era como os outros.
Ainda por cima, era ele próprio que demonstrava vontade: ao ver os colegas a declamar, acompanhava-os em surdina, mexendo os lábios, a esforçar-se.
Coube ao Gonçalo um excerto de um poema sobre as mães. A mãe dele até chorou de alegria quando soube que o filho ia participar nunca esperou que isso acontecesse. Ele próprio achava que nunca lhe dariam tal responsabilidade, sentia-se sempre diferente dos outros.
E lá começaram os dois, mãe e filho, a ensaiar diariamente: vezes sem conta perante o espelho, ora em voz alta, ora em voz baixa, juntos, sozinhos, mesmo em competição. Tudo para que corresse bem.
Chega, finalmente, o grande dia. O Gonçalo, todo catita, de fato e gravataborboleta, levanta-se para declamar. Notei logo que estava cheio de medo, mas nunca pensou em desistir. Disse, seguro: queria ler para a mãe, e só para ela era por ela que aprendera o poema.
Começou muito bem, certinho nas palavras. Depois, talvez porque se cansou ou se assustou, começou a hesitar. Chegou então ao verso:
Da escada respondeu o Vítor: A mãe é piloto? E então? Mas, por exemplo, a mãe do Gonçalo é (ali ficou atrapalhado, a tentar lembrar a palavra difícil) é con-dic-io-na-dor!
Na plateia ouviu-se um riso abafado. O Gonçalo ficou corado, baixou a cabeça, enfiou as mãos nos bolsos, fez beicinho, mas continuou:
E as mães do Tomás e da Vanda são
Condicionadores! gritou uma voz bem-humorada lá atrás.
Desta vez, não aguentaram e começaram a rir alto. O pequeno Gonçalo virou-se e correu dali para fora. Consegui apanhá-lo junto às escadas; estava encostado à parede, a esfregar com raiva as lágrimas com a manga. Aproximei-me daquele ouvido vermelhinho e disse-lhe que a pessoa que falou tinha sido parva, que fez uma piada sem graça. Perguntei-lhe se queria tentar de novo, agora para mim e para a mãe, e que se engasgasse eu ajudava.
Primeiro bufou e abanou a cabeça, mas ao fim de um momento disse que queria, que era mesmo para a mãe, só tinha medo. Prometi-lhe que ficava ao lado dele, a dar-lhe a mão, e que o ajudava se fosse preciso.
Aceitou. Confiei depois o Gonçalo à auxiliar, para limpar o rosto encharcado, e voltei para a sala. Quando acabou o número seguinte, pedi a palavra aos pais. Até hoje sinto o tremor nas pernas ao lembrar essa altura.
Disse:
O Gonçalo tem seis anos e passou a maior parte da vida em hospitais e centros de recuperação. Teve mais operações do que aniversários. Durante muito tempo, não conseguia sequer falar, mas este ano aprendeu: ganhou coragem para vir aqui declamar um poema, à frente de todos vocês. E quer lê-lo, não para todos, mas só para a mãe. Peço vosso apoio e silêncio para ele é verdadeiramente difícil e assustador.
De imediato reinou o silêncio. Trouxe o Gonçalo para junto de mim, com ele quase a arrastar os pés e olhar para o chão. Era um miúdo pequeno, forte, com o lábio inferior descaído. Entre lágrimas, mas determinado, ficou ali, calado.
Força, Gonçalo! gritou a mãe.
Vamos, Gonçalo! repetiu a tal voz divertida da plateia.
Ajoelhei-me ao seu lado e dei-lhe a mão.
É para a mãe, Gonçalo sussurrei.
Respirou fundo e começou de novo. Ao chegar ao verso Da escada respondeu o Vítor: A mãe é piloto? E então?, corou muito, mas prosseguiu:
– Mas, por exemplo, a mãe do Gonçalo é po-lí-cia! E as mães do Tomás e da Vanda são ambas en-ge-nhei-ras!
O Gonçalo lançou um olhar desafiante à plateia.
Nunca aquele salão ouviu um aplauso desses. Bateram palmas todos pais, crianças, educadores e funcionários. Alguns, de pé. Não conseguiu acabar o poema de tanto alvoroço.
Mas nem precisava, ele já tinha provado tudo o que havia a provar.
Depois da festa, a professora de música veio ter comigo.
Às vezes merecias um raspanete disse ela.
Desatei a chorar. Toda a tensão do dia caiu sobre mim. A professora bufou, fechou a porta e sentou-me.
Podias mesmo ter estragado o dia, mas… Aos vencedores não se julga. Tu e o Gonçalo hoje venceram. Limpa a cara e vai para junto das crianças.
Porque me lembrei deste dia treze anos depois? É que há pouco tempo encontrei a mãe do Gonçalo na rua reconheceu-me logo. Contou-me, orgulhosa, que o Gonçalo entrou este ano para a universidade, com bolsa, e passou com ótima nota em todos os exames à primeira. Sabe para que faculdade? Letras!
E ainda me deixou um recado do Gonçalo: Se não fosse aquele dia, tinha ficado para sempre preso à minha deficiência.
O que importa nesta história não é só a perseverança, o carácter O que importa, é que do miúdo marcado pela doença cresceu um homem inteiro. E isso só foi possível pelo apoio de todos. Que saibamos ser compreensivos e generosos uns com os outros!







