Na minha experiência como educadora, tive uma situação marcante: na minha turma estava o menino Nicolau, que nasceu com várias patologias — atraso no desenvolvimento, problemas cardíacos e, além disso, fissura labiopalatina (lábio leporino com fenda no palato).

Foi numa das minhas experiências como educador que vivi um caso que nunca me saiu da cabeça. Entre as crianças do meu grupo estava o pequeno Gonçalo. Nasceu com muitas complicações atraso de desenvolvimento, problemas cardíacos e ainda por cima com lábio leporino e fenda palatina. Até aos quatro anos, era quase impossível perceber o que ele dizia; por volta dos seis, depois de imensas sessões com especialistas, o Gonçalo conseguiu falar de forma mais clara. Claro que a sua fala era muito pelo nariz, com entoações típicas da garganta, mas pelo menos já se percebia o que ele queria dizer.

E eis que se aproximava o Dia da Mulher, no último ano do pré-escolar. Decidimos dar ao Gonçalo um pequeno poema para declamar. Era visível o quanto ele se envergonhava da sua voz e das cicatrizes nos lábios. Sabíamos que era um risco e um grande desafio para o rapaz, mas crescer num ambiente de estufa não faz bem a ninguém. Ele precisava muito disto de sentir que era capaz, de provar que era como os outros.

Ainda por cima, era ele próprio que demonstrava vontade: ao ver os colegas a declamar, acompanhava-os em surdina, mexendo os lábios, a esforçar-se.

Coube ao Gonçalo um excerto de um poema sobre as mães. A mãe dele até chorou de alegria quando soube que o filho ia participar nunca esperou que isso acontecesse. Ele próprio achava que nunca lhe dariam tal responsabilidade, sentia-se sempre diferente dos outros.

E lá começaram os dois, mãe e filho, a ensaiar diariamente: vezes sem conta perante o espelho, ora em voz alta, ora em voz baixa, juntos, sozinhos, mesmo em competição. Tudo para que corresse bem.

Chega, finalmente, o grande dia. O Gonçalo, todo catita, de fato e gravataborboleta, levanta-se para declamar. Notei logo que estava cheio de medo, mas nunca pensou em desistir. Disse, seguro: queria ler para a mãe, e só para ela era por ela que aprendera o poema.

Começou muito bem, certinho nas palavras. Depois, talvez porque se cansou ou se assustou, começou a hesitar. Chegou então ao verso:
Da escada respondeu o Vítor: A mãe é piloto? E então? Mas, por exemplo, a mãe do Gonçalo é (ali ficou atrapalhado, a tentar lembrar a palavra difícil) é con-dic-io-na-dor!

Na plateia ouviu-se um riso abafado. O Gonçalo ficou corado, baixou a cabeça, enfiou as mãos nos bolsos, fez beicinho, mas continuou:
E as mães do Tomás e da Vanda são

Condicionadores! gritou uma voz bem-humorada lá atrás.

Desta vez, não aguentaram e começaram a rir alto. O pequeno Gonçalo virou-se e correu dali para fora. Consegui apanhá-lo junto às escadas; estava encostado à parede, a esfregar com raiva as lágrimas com a manga. Aproximei-me daquele ouvido vermelhinho e disse-lhe que a pessoa que falou tinha sido parva, que fez uma piada sem graça. Perguntei-lhe se queria tentar de novo, agora para mim e para a mãe, e que se engasgasse eu ajudava.

Primeiro bufou e abanou a cabeça, mas ao fim de um momento disse que queria, que era mesmo para a mãe, só tinha medo. Prometi-lhe que ficava ao lado dele, a dar-lhe a mão, e que o ajudava se fosse preciso.

Aceitou. Confiei depois o Gonçalo à auxiliar, para limpar o rosto encharcado, e voltei para a sala. Quando acabou o número seguinte, pedi a palavra aos pais. Até hoje sinto o tremor nas pernas ao lembrar essa altura.

Disse:
O Gonçalo tem seis anos e passou a maior parte da vida em hospitais e centros de recuperação. Teve mais operações do que aniversários. Durante muito tempo, não conseguia sequer falar, mas este ano aprendeu: ganhou coragem para vir aqui declamar um poema, à frente de todos vocês. E quer lê-lo, não para todos, mas só para a mãe. Peço vosso apoio e silêncio para ele é verdadeiramente difícil e assustador.

De imediato reinou o silêncio. Trouxe o Gonçalo para junto de mim, com ele quase a arrastar os pés e olhar para o chão. Era um miúdo pequeno, forte, com o lábio inferior descaído. Entre lágrimas, mas determinado, ficou ali, calado.

Força, Gonçalo! gritou a mãe.

Vamos, Gonçalo! repetiu a tal voz divertida da plateia.

Ajoelhei-me ao seu lado e dei-lhe a mão.

É para a mãe, Gonçalo sussurrei.

Respirou fundo e começou de novo. Ao chegar ao verso Da escada respondeu o Vítor: A mãe é piloto? E então?, corou muito, mas prosseguiu:
– Mas, por exemplo, a mãe do Gonçalo é po-lí-cia! E as mães do Tomás e da Vanda são ambas en-ge-nhei-ras!

O Gonçalo lançou um olhar desafiante à plateia.

Nunca aquele salão ouviu um aplauso desses. Bateram palmas todos pais, crianças, educadores e funcionários. Alguns, de pé. Não conseguiu acabar o poema de tanto alvoroço.

Mas nem precisava, ele já tinha provado tudo o que havia a provar.

Depois da festa, a professora de música veio ter comigo.

Às vezes merecias um raspanete disse ela.

Desatei a chorar. Toda a tensão do dia caiu sobre mim. A professora bufou, fechou a porta e sentou-me.

Podias mesmo ter estragado o dia, mas… Aos vencedores não se julga. Tu e o Gonçalo hoje venceram. Limpa a cara e vai para junto das crianças.

Porque me lembrei deste dia treze anos depois? É que há pouco tempo encontrei a mãe do Gonçalo na rua reconheceu-me logo. Contou-me, orgulhosa, que o Gonçalo entrou este ano para a universidade, com bolsa, e passou com ótima nota em todos os exames à primeira. Sabe para que faculdade? Letras!

E ainda me deixou um recado do Gonçalo: Se não fosse aquele dia, tinha ficado para sempre preso à minha deficiência.

O que importa nesta história não é só a perseverança, o carácter O que importa, é que do miúdo marcado pela doença cresceu um homem inteiro. E isso só foi possível pelo apoio de todos. Que saibamos ser compreensivos e generosos uns com os outros!

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Na minha experiência como educadora, tive uma situação marcante: na minha turma estava o menino Nicolau, que nasceu com várias patologias — atraso no desenvolvimento, problemas cardíacos e, além disso, fissura labiopalatina (lábio leporino com fenda no palato).