– Menina, quem estás a procurar? – perguntei. – Estou à procura da minha mãe, não a viram? – A pequena menina, de uns seis anos, olhou‑me atentamente.

19 de dezembro de 2024 Diário

Menina, a quem estás à procura? perguntei, tentando parecer tranquila.
Estou à procura da minha mãe, já a viu por aqui? Olhoume nos olhos uma pequena de cerca de seis anos, com os cabelos castanhos emaranhados.

Fiquei surpresa. Eu havia acabado de mudar para aquele prédio e, ao que eu soubesse, o apartamento à frente estava vazio há meses.

Mas ninguém vive lá, respondi.

A menina soluçou e sentouse nos degraus.

Tia, precisamos muito da mamãe! Só ela pode mudar tudo. O papá sentese muito só sem ela.

Fiquei sem saber como ajudar aquele ser tão frágil. Nunca fui mãe, então não sabia por onde começar Um abraço, um convite para um chá? Mas uma tia desconhecida não agradaria a criança. Nesse instante o telefone disparou. Pedi à menina que não fosse embora e corri atrás do aparelho. Quando voltei, ela já não estava mais ali; a rua parecia ter engolido sua pequena figura.

Fiquei com a imagem dela presa na cabeça a noite inteira. Decidi ligar para a minha casada, a senhora da porta ao lado, e perguntar quem eram os vizinhos do corredor.

Já não há ninguém a viver ali há alguns anos, respondeu Lúcia Silva, a síndica, por que perguntas?

Hoje chegou uma menina à procura da mãe

Lúcia fez uma pausa, como se fosse lembrar algo.

Deve ser a filha da Catarina ela já não está entre nós. O marido ficou sozinho, ainda carregando um bebé nos braços. Não conseguiu ficar neste apartamento, acabou por se mudar. Desde então a casa ficou vazia

Sabes que eles moram perto, se a menina voltar, levaa para casa, disseme Lúcia, ditando o endereço.

A história foi se apagando à medida que eu mergulhava no trabalho, entrando e saindo de casa em horários irregulares. Na véspera de Ano Novo, porém, voltei a ouvir aquele leve bater e soluços. Corri para a porta lá estava ela, a mesma menina de olhos cinzentos, chorando.

O que se passou? Onde está o teu pai? perguntei.

Está em casa, e eu ainda procuro a mãe, respondeua baixinho.

Lembreime de que tinha anotado o endereço. Corri buscar, pedindo à menina que esperasse comigo. Ela entrou, olhou ao redor e sentouse num pufe do corredor. Quando finalmente encontrei o papel que procurava, a menina já dormia, enroladinha como um bolinho. Leveia delicadamente ao sofá da sala, senteime e disquei novamente Lúcia.

Lúcia Silva, peço desculpa por incomodar. Lembrase da menina que vem ao apartamento vazio?

Essa sou eu. Queria levála para casa, mas enquanto procurava o endereço a menina adormeceu. Temo que o pai ainda a procure

Sabes, vivo perto dali. Vou lá agora, mantémte em linha.

Está bem, desliguei o telefone e, quase sem perceber, acariciei os cabelos rebeldes da menina, ajeitei a mecha que lhe faltava, e passei a mão no ombro.

Sempre sonhei em ser mãe, mas o destino parecia negarme. Eu e o meu marido tínhamos sido inseparáveis; chegou a hora de pensar em filhos. Primeiro, a esperança surgiu, mas logo perdemos o bebé. O stress no trabalho, as inspeções, as noites sem descanso Quando soube que outra gravidez estava a caminho, larguei o emprego. Porém, o destino outra vez foi cruel: o bebé morreu ainda no útero. Tentámos de tudo, mas nunca consegui ser mãe.

O marido acabou por partir, formando outra família onde nasceu uma filha. Eu cortei todos os laços amigos, conhecidos e vivi sete anos sozinha, a alugar apartamentos.

Os meus pensamentos foram interrompidos por outro leve bater à porta. Abraieia com o coração a disparar E não podia acreditar: no limiar estava o meu exmarido.

Rui? Como é que apareceste aqui?

Vim buscar a filha Rua da Saudade, 5, certo?

Sim, isso. Esta é a tua filha? Entra, está a dormir. Vou lá à cozinha fazer um chá. Nunca imaginei cruzar com alguém assim na porta do meu apartamento, mas a vida temnos deparado com surpresas inesperadas.

Não te vamos incomodar, posso acordar a Ana e levara para casa.

Deixa-a dormir. Que se passou? Ela vem bater à porta do nosso prédio há dias.

Rui cobriu os olhos cansados e começou a falar:

Há alguns anos vivíamos aqui com a Catarina. O apartamento foinos herdado do avô. Após o casamento, mudámonos. Catarina estava grávida e eu flutuava nas nuvens de felicidade!

Lembrome do dia em que tive de levar a esposa ao hospital. Ela chorava, estava angustiada

Ela seguroume as mãos e pediume que cuidasse da criança se algo lhe acontecesse. O parto complicouse e não conseguimos salvar a esposa.

Sinto muito, realmente lamento, lhe acariciei o ombro, vendo as lágrimas escorrerem novamente, como se carregasse todo o peso dentro de si, até que se derramaram.

Um pequeno pé infantil ecoou no corredor.

Pai?

Rui correu ao filho, abraçouo apertado.

Ana, eu estava preocupado Por que saíste sem dizer?

Só quero encontrar a mãe.

Vamos encontrála, mas primeiro vamos para casa.

Obrigada, Iara. Aqui deixo o meu número entregoume o cartão de visita liga se a Ana voltar. Moramos perto, ela já conhece bem o caminho.

Como soube o endereço? perguntei.

Ele mesmo mostroume, precisava de algumas coisas. Ana viu fotos da mãe nas paredes e, desde então, sonha com o reencontro. Eu dizia que a Catarina simplesmente partiu, mas que um dia voltaria.

Eles foram embora, mas alguns dias depois Rui telefonou. Reestabelecemos contato, passeamos três vezes ao fimdesemana no parque, café e cinema. Ana criouse um carinho por mim, chamandome de mãe.

Iara, disse ele certa vez, mudate para casa conosco. Já basta de viver em cantos alugados, a Ana sentete falta, perguntate sempre.

E tu?

Eu baixou o olhar, seguroume as mãos, os olhos marejados. Sinto falta de tudo Perdoame por tudo.

Desde então estamos juntos, criando o nosso pequeno tesouro a Giana. Cada dia agradeço ao destino por esse presente inestimável: ser esposa e mãe.

Mesmo que a Giana tenha uma irmã que nunca conhecemos, nada me impede de oferecerlhe todo o amor materno que ainda tenho para dar.

(Nota: o diário permanece íntimo, cheio de reflexões e memórias, adaptado à realidade portuguesa.)30 de dezembro de 2024 Diário

Hoje, ao abrir a porta do apartamento vazio, senti o mesmo frio que me recebeu na primeira noite, mas desta vez não havia medo, apenas curiosidade. A luz do sol que se infiltrava pelas frestas revelava um pequeno baú de madeira encostado ao canto da parede. Dentro, encontrei uma caixa de fotografias amareladas, um diário de capa azulmar e um colar de prata com um pingente de coração partido.

Folheei as imagens: Catarina, ainda jovem, sorrindo ao lado de um bebê recémnascido; Rui, com o rosto suado de felicidade após a primeira maratona; e, no último retrato, uma menina de cabelos castanhos, o mesmo brilho nos olhos que eu tinha visto na rua. As fotos estavam marcadas com datas que eu reconhecia 2018, 2019… O diário era ainda mais revelador. Nele, Catarina descrevia o medo de perder a própria vida, mas também a esperança de que a filha encontrasse, um dia, um lugar seguro, onde alguém a amasse como a própria mãe.

Fechei a caixa com delicadeza, sentindo o peso de duas histórias entrelaçadas. Quando bati a porta, ouvi o riso de Giana correndo ao corredor, seguida por Ana, que segurava o colar na mão.

Olha o que eu achei! exclamou Giana, os olhos cintilando.

É da mamãe da Ana respondi, a voz embargada.

Ana ficou em silêncio, os lábios tremendo, mas então, num suspiro que parecia libertar o peso de anos, ela abraçoume.

É como se ela nunca tivesse partido disse, apertando o colar contra o peito.

Naquela noite, sentamos todos ao redor da mesa da cozinha, o chá quente perfumando o ar, enquanto eu lia trechos do diário. Cada palavra, cada lágrima escrita, era um convite para curar feridas que jamais soubemos que existiam. Rui segurou a mão de Ana, e Giana, com a inocência que só as crianças têm, espalhou os brinquedos pelo chão, criando um pequeno altar de esperança.

Quando o relógio marcou meianoite, levanteime e fui até a varanda. O céu de inverno pintava estrelas cadentes, e, como se o universo respondesse ao meu pensamento, uma delas cruzou o firmamento, deixando um rastro luminoso. Fechei os olhos e deixei que o silêncio falasse. Dentro de mim, algo antes fragmentado agora pulsava inteiro.

Na manhã seguinte, ao abrir a porta do prédio, encontrei um pequeno envelope na soleira. Dentro, havia uma carta escrita à mão por Catarina, datada de poucos dias antes de desaparecer. Ela falava sobre o amor que sentia pela filha, sobre o medo de não ser capaz de protegêla, e, mais importante, sobre a certeza de que, se algum dia fosse preciso, ela deixaria um caminho de volta.

Liguei para Rui e, com a voz trêmula, li a última frase:

“Se o vento levar a tua voz, que ele leve também a lembrança de que nunca estarás sozinha.”

Ele segurou o telefone, respirou fundo e, depois de um longo silêncio, respondeu:

Estamos aqui, juntos, para sempre.

Fechei o diário, deixei o colar sobre a mesa e, pela primeira vez em anos, senti que o futuro não era um vazio, mas um caminho iluminado por memórias revividas e por um amor que se reconstruiu. Enquanto a porta se fechava suavemente atrás de mim, ouvi o som de duas risadas infantis ecoando pelo corredor, como se o passado tivesse finalmente encontrado a paz que tanto buscava.

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– Menina, quem estás a procurar? – perguntei. – Estou à procura da minha mãe, não a viram? – A pequena menina, de uns seis anos, olhou‑me atentamente.