Matilde, o que é isto? Tu deitaste fora os pickles da minha mãe?
Simão, claro que sim. suspira Matilde. Já estavam fermentados há séculos… e tão moles! Nem dava para comer
Ora, não era preciso tanto drama. Bastava tirares os de cima, os outros ainda davam para aproveitar, era só lavar. Olha que eu e a mãe comíamos conservas com as tampas inchadas e continuamos bem. Estes só estavam ali uns dias a mais. Não se pode estragar comida assim, Matilde, custa dinheiro!
Simão atravessa a cozinha de ar altivo e olhar crítico, murmurando para si mesmo.
Matilde suspira. Antes achava isto tudo engraçado. Recorda-se, sem querer, dos primeiros encontros
Um rapaz alto e sorridente aproxima-se pelo Jardim da Estrela, de camisa branca. Nas mãos leva um ramo de flores silvestres as preferidas da Matilde.
Simão! surpreende-se Matilde. Foste tu que apanhaste isto?
Claro! responde ele, a sorrir. Rosas toda a gente dá, não tem piada e são caríssimas. Antes vamos aos carrinhos de choque, prometo-te um passeio divertido.
O sorriso de Matilde ilumina-se enquanto o acompanha…
Agora, no presente, Matilde sacode os pensamentos e ouve Simão. Ele está mesmo a lavar os pickles. Já nada a surpreende. Antes pensava que não iam a restaurantes porque Simão gostava de passear não porque queria poupar dinheiro. E imaginava que o passeio na roda-gigante não era por serem os bilhetes mais baratos, mas apenas por cuidado com ela
Agora, anos depois, já com casamento e dois filhos, Matilde entende tudo. Só lhe restava aceitar. Ou revoltar-se. Ela escolheu o silêncio.
Na cozinha, serve a comida para os gémeos, Simão e ela. Arroz, hambúrgueres, salada só coisas simples. Nunca há luxos ali em casa.
Simão, o que estás a fazer? pergunta Matilde, cansada. O marido está a partir os hambúrgueres dos miúdos.
Só têm cinco anos, meia dose chega bem.
Com toda a seriedade, Simão volta a cortar a carne e retira um hambúrguer de um dos pratos.
Estás a exagerar
Achas?
Sim, Simão.
Também acho. Somos todos iguais nesta casa, Matilde diz ele, agora a cortar o hambúrguer de Matilde. E isto é carne de vaca! Está cara. E ainda por cima frita, que faz mal. Para a próxima fazes ao vapor, poupa-se óleo, que agora está um disparate. E não deixa resíduos na frigideira.
Os miúdos não gostam ao vapor.
Vão ter de gostar. Faz melhor diz ele, de forma conclusiva, terminando e saindo. Matilde olha para o prato com os hambúrgueres cortados e percebe que a sua paciência também tem limites…
Ao fim da semana, chega Dona Teresa, a sogra. E ao pé dela, Simão parece até generoso.
Matilde, querida, olha, trouxe novidades para os meninos! Que sorte a vossa avó nunca vem sem um presente!
Matilde, cansada depois do trabalho, força um sorriso e vai receber a sogra.
Dona Teresa entrega-lhe um saco.
Dona Teresa, isto são roupas para menina. observa Matilde. Só que, eu e o Simão, temos dois rapazes.
Oh filha, não interessa responde logo. Olha aqui, uma t-shirt da Kitty, tão fofa! O Alexandre adora gatos. E além disso, são pequenos, tanto faz se é cor-de-rosa, vermelho ou azul…
Está bem, Dona Teresa, obrigada. Depois vamos ver com calma
Matilde afasta o saco. Mais tarde vai despejá-lo no lixo. Roupa de menina, toda estragada. Nem para sair à rua com aquilo.
Simão, quando é que saímos daqui? Já não aguento viver com a tua mãe diz Matilde, em voz baixa, ao fechar a porta.
Que disparate! Quando conseguirmos juntar para comprar um apartamento.
Simão, porque não tentamos um crédito à habitação? Só vamos conseguir poupar quando formos avós!
Já falámos disso. É um disparate. Pagamos uma fortuna em juros. E aqui com a mãe até é prático. Ela cozinha, limpa, faz compotas
Estás a brincar comigo? grita Matilde, abaixando depois o tom. Os rapazes dormem no mesmo quarto da tua mãe! Agora têm cinco anos. E quando crescerem? Nem privacidade temos, nem fechadura na porta. E a Dona Teresa não deixa pôr. Diz que não é prático!
Já chega, apaga a luz! No fim do mês a conta da EDP vai ser de chorar…
Matilde amolece, afunda-se na almofada. Não aguenta mais.
No dia seguinte, a discussão rebenta de vez. Simão não deixa os miúdos verem “Boa Noite, Pequenos”. É um exagero, diz ele, e ainda por cima, caro… A gota final no copo de Matilde.
Chega chorava Matilde. Não aguento mais! Vou-me embora, levo os meninos. Vou para casa da minha mãe, eles têm pelo menos um quarto para eles!
Pega na mala com uma mão, e com a outra leva os filhos até à porta.
Alexandre, Santiago, vamos.
Matilde onde vais?! Simão congela. E a nossa família? E nós? Pensei que eras feliz
Aguentei seis anos disto. Tu e a tua mãe. Compramos shampoo em bidões, papel higiénico só do mais barato. Os miúdos brincam com restos de brinquedos teus e do teu irmão! Quero outra vida para os meus filhos. Prefiro ser despesista do que viver assim.
Dona Teresa, dramática, faz-se de aflita e impede o filho de ir atrás da mulher.
Ai, filho, o coração Deixa. Ela volta, sempre voltam. E afinal, quem é que a vai querer, com dois miúdos atrás
E Simão acredita. Acredita mesmo.
Matilde, o que estás a fazer? pergunta Leonor, mãe de Matilde. Deita o saco do chá fora e vai buscar outro.
Matilde volta à realidade e olha para as mãos a fazer o terceiro chá com o mesmo saco.
Como é que vocês sobreviveram? Sempre te disse para saíres dali. Isso não é vida É um sofrimento, uma patologia.
Pois, acena Matilde, a abanar de frente ao frigorífico. Lá dentro, queijo bom, de verdade. Enchidos, iogurtes Vou ter de guardar as gomas, senão os miúdos comem tudo.
Que comam! Para eles é que eu compro.
Mais vale guardar, não estão habituados a haver doces à vista. Podem empanturrar-se
Leonor abana a cabeça, dá um olhar triste e passa delicadamente a mão pelo ombro da filha.
Chega a noite e Matilde não consegue dormir. A cama é demasiado fofa, não range como a antiga, velha demais. Abre o frigorífico, contempla maravilhada. O leite lá em casa era sempre o mais barato, iogurtes eram proibidos, só kefir ou iogurte caseiro. O queijo só ao pequeno-almoço. Agora, corta pão, faz um belo pão com queijo e enchido. É desajeitado e grosso, mas tão saboroso Ninguém a julga. Pode morder sem ouvir sermão sobre a grossura da fatia de chouriço. Pega no iogurte, bebe mesmo da embalagem. Um regalo!
Santo Deus, como fui tão parvaQue maravilha não ter de poupar!
Seis anos assim? Sem comer o que queria, sem poder arranjar a casa, sempre de roupa herdada e as mesmas botas. Como?
Algumas semanas depois, tocam à porta. Matilde acabou de se levantar, é fim-de-semana, a mãe levou os miúdos ao parque.
Quem é? Simão?! O que fazes aqui?
O marido está à porta.
Matilde, volta Eu eu e a mãe vamos mudar. Não vamos ser tão forretas. Claro que gastar à maluca é pecado, mas vamos ouvir-te mais. Amo-te, Matilde. Volta, somos uma família, os miúdos
Não! Não! E volto a dizer: não volto! Os meus filhos têm quarto próprio, eu também. Têm desenhos animados mais do que quinze minutos, eu posso ter paz. Eles comem o hambúrguer por inteiro. Podem pegar numa goma e nós já não lavamos sacos de congelados! Comprei finalmente um robe decente! Estás a ouvir? Quero uma vida normal. O dinheiro é meu, gasto como quero. Basta! Adeus. O advogado trata do divórcio!
Matilde bate a porta e desaba num pranto. Nem sabe bem porquê. É por pena dela própria ou receio do futuro. Sim, vai ter de trabalhar mais, dar-se a mais trabalho para criar os filhos. Mas está pronta. Está pronta para tudo, menos para voltar atrás. Aquela não era nunca mais vai ser a sua vida.
