Que pagamento em atraso? Vocês devem estar confundidos, não temos nenhuns créditos… Sim, os Silvas, sim, esta é a nossa morada, mas… Quanto?! Não pode ser. E em nome de quem foi feito o crédito? perguntava Leonor, já meio à toa.
Em nome de Tomás António Silva responderam-lhe.
Sim, é o meu marido, mas como é que ele…? Porquê? Leonor já se sentia completamente perdida.
Compreendo a sua preocupação o tom do desconhecido suavizou-se mas as regras são para todos: prazos perdidos, hoje é aviso e depois vêm outras medidas.
Leonor não se lembrava de ter entrado na sala ou de se ter sentado em frente ao computador: parece que o choque lhe tinha tirado o chão. Tinha de perceber de onde vinha aquela dívida.
Nunca vira nenhum cartão de crédito do marido, o que queria dizer que o dinheiro não foi para a família. Mas então para quê? Esqueceu o trabalho, porque só conseguia pensar naquele telefonema. Só descansou quando Tomás finalmente chegou a casa.
Para quem é que foi o dinheiro? Quem te pediu para fazer um crédito?
Não consegui evitar, já telefonaram… resmungou Tomás, resignado, e percebendo que escapara-lhe tudo, atacou: Que foi, que olhas assim? Foi para a mãe, pronto? Ela pediu ajuda, vive sozinha…
E para quê uma quantia assim tão grande? Nós vivemos com muito menos, e trabalhamos os dois!
Para férias, está bom?
Férias?! Foi para onde, para o Dubai ou Madeira?
A minha mãe criou-me sozinha, tem direito. Não esperava isto de ti…
Tomás desapareceu amuado para o quarto, atirou-se para a poltrona e virou costas. Era o seu número favorito para pressionar a mulher, mas desta vez o “drama da criança magoada” não colou.
Leonor simplesmente ignorou. A sogra já se intrometia na sua vida desde sempre. Amélia Conceição era especialista em pedir. Tudo começou quando Leonor se tornou namorada do filho. Mal a conheceu e viu-lhe os brincos nas orelhas, ficou logo toda entusiasmada a perguntar se os brilhos eram verdadeiros ou bijutaria.
Ao perceber que eram mesmo de prata verdadeira, logo exclamou:
Dinheiro deitado à rua, filha! Antes comprasses alguma coisa para a casa…
Foi prenda, Leonor ficou sem saber o que dizer a tamanha indiscrição.
Ah, assim está bem, e serenou, como se nada fosse.
Na semana seguinte, Tomás envergonhado pediu-lhe que não usasse os brincos quando fossem jantar a casa da mãe. Estava incomodadíssima, porque não tinha iguais e nem o filho lhe poderia dar uns parecidos.
Já naquela altura Leonor estranhou o comportamento. Mas estava demasiado apaixonada para pensar nisso. Depois veio o casamento. Amélia desfilou com um vestido lindo e um presente memorável. Só que, um mês depois, Leonor descobriu por acaso que Tomás tinha pago tudo. Senão, a mãe não ia sequer ao casamento!
E não passou muito tempo para virem exigências várias: Amélia sempre precisava de um plasma novo para acompanhar a vizinha, depois um secador como o da irmã, depois tratamentos de beleza e massagens… Tudo urgente! E chorava sempre que ouvia um “não”. Tomás não aguentava ver a mãezinha triste e corria a satisfazer-lhe os caprichos:
Mas é a minha mãe, como podia ser diferente?
Agora, tinha uma família para sustentar. O dinheiro mal chegava ao fim do mês, apesar de ambos trabalharem e ganharem bem. Leonor não entendia: onde se esfumava tudo? Sempre que questionava o marido, ele respondia:
Se calhar, meu doce, não sabes é gerir o orçamento. Devias aprender com a minha mãe…
Leonor não queria aulas da sogra. Desde o primeiro dia, via demasiado bem aquele tipo de sogra possessiva, e mantinha sempre distância.
Mas férias de luxo não era pedir já demais? O valor do crédito assustou: dava para liquidar três prestações do empréstimo da casa e ainda renovar móveis e comprar electrodomésticos! E ainda sobrava para celebrar tudo num restaurante de topo em Lisboa.
Tomás não parecia disposto a mudar: a prioridade era sempre a mãe. Até Leonor admitia também faria muito pela sua, mas… sem sequer falar? Se tivesse acontecido algo, de quem seria a dívida? Dela, pois claro. E Amélia, inocente como sempre.
Era tempo de fazer uma escolha. Era preciso conversar a sério. No mínimo, Tomás teria de explicar à santa mãezinha que os tempos de vida à grande acabaram. Mas discussão foi tudo o que conseguiu: Tomás irritou-se, atirando-lhe à cara que ela não tinha coração nem valores:
Eu paguei, nem sequer tens de te preocupar! E sim, a mãe só quer do melhor, não vai para parques de diversões baratos, tem de ser à grande. Eu devia-lhe isso, deu-me tudo na vida! Não consigo dar-lhe férias?
E não achas que as vontades dela não cabem no nosso ordenado? Já pensaste explicar-lhe?
Não quero saber da tua opinião: a minha mãe é sagrada!
Leonor percebeu: Tomás não ia mudar. E já percebia muito bem que Amélia gostava era de ter o filho colado a ela. Todos os dias o chamava, dizendo que morria de saudades, que a casa estava muito vazia… E lá ia Tomás, do outro lado da cidade, tudo para agradar a mãe.
Após um dia difícil, foram ambos trabalhar de trombas. Pela hora do almoço, Leonor sentiu-se mal, e colegas insistiram que fosse ao médico. E foi assim que ficou a saber que estava grávida. Era uma excelente notícia e, até pensou, uma oportunidade para reverem o orçamento doméstico.
Leonor festejou cedo demais. Tomás não achou piada nenhuma. Dizia que não estavam prontos e sugeriu interromper a gravidez. Depois foi a vez da sogra telefonar. Só que Amélia foi menos meiga:
Não quero ser avó, não pensem! Achas que é com um bebé que vais prender aqui o meu Tomás? Nunca! Ele não vai ficar contigo, nunca. Vais ver que ele vai-se embora, nem penses em segurar homem com filho.
E vai para onde? Donde tira essas ideias?
Sou mãe! Eu conheço o meu filho. Sempre à procura de melhor do que isto! Faz o que ele diz ou ainda ficas sem um tostão de pensão.
Leonor sentiu tudo a girar. Quando acordou, já estava no hospital.
Olha quem acordou, ouviu uma voz conhecida. Era Dona Graça, enfermeira no hospital e vizinha da sogra.
Dona Graça, nem sabia que cá trabalhava…
Ainda bem, minha filha! Nem saber é bom sinal sorriu, meia irónica. Mas diz lá, o que é que te aconteceu para vires assim direitinha parar aqui?
Quando ouviu a história toda, Dona Graça franziu o sobrolho.
Sai dessa família, Leonor, a sério. O Tomás nunca muda e a mãe dele faz sempre a vida negra a todas as mulheres que ele escolhe. É sempre tudo para ela, coitado do marido, foi-se cedo de tanto trabalho para lhe dar tudo. O Tomás, tal e qual, nunca a vai contrariar.
Mas… ele casou comigo!
Olha que foi milagre. Já houve muitas que fugiram logo depois do primeiro jantar lá em casa. Pensa no teu futuro. E diz-me lá, o que acha o grande Tomás de ser pai?
Depois de ouvir a resposta, Dona Graça murmurou umas palavras pouco simpáticas sobre meninos da mamã. E de repente, Leonor sentiu-se decidida. Ia avançar sozinha. Tomás, no fundo, já tinha escolhido.
No regresso ao trabalho, entrou logo com os papéis do divórcio. Tomás não insistiu para salvar o casamento. Não lhe contou mais nada da gravidez.
… Passou um ano desde que ficou livre. Leonor passeava relaxada com a filha pela praça do bairro.
Que surpresa, ouviu a voz da ex-sogra, Porque não deixas eu ver a minha neta?
Porque ela não é sua neta, respondeu Leonor, calma. Aquele bebé… aquele, como sugeriram, não nasceu. Esta é a minha filha, só minha. E já tem avó.
Mas como te atreves…
Atrevo-me, sim senhora. Precisa assim tanto de ser avó? Procure um melhor partido para o seu filho, quem sabe na próxima dá sorte.
Leonor saiu dali de sorriso nos lábios, ignorando as queixas atrás de si. Agora sabia que acertou em deixar para trás um marido dependente da mãe e uma sogra desmedida. E sim, tinha feito muito bem.
