Marta, e esses quilos a mais?

Lurdes, esses quilinhos a mais são um problema? insistia a mãe de Tiago, sem dar o braço a torcer.
Na minha opinião não tenho nada de excesso, muito menos se agrada ao meu futuro marido. Nem todo mundo tem de ser baixinho e delicadinho. Lurdes respondeu, provocando a irmã mais velha, Leonor, e a mãe de Tiago. O tom atrevido fez Leonor arder de ira.

Mãe! Compraste chá para emagrecer? E as sementes de chia? Por que puseste tanto azeite na aveia? São quilinhos a mais! Tiago, compraste novamente pão de fermento? Isso faz mal! Devo beber três copos de água toda manhã, senão o peso não baixa Onde está a minha água? eram as frases que Tiago escutava desde pequeno.

A mãe e a irmã de Tiago estavam perpetuamente obcecadas com a forma física. Leonor, já com trinta e oito anos, nunca se casara e lembrava um cavalo magro, curvado, de olhos eternamente famintos. A mãe lembrava uma agulha de tricô, sempre reta e severa.

Tiago cansarase de tanto drama e, por isso, sempre se aproximava de gente alegre, com boa vontade e apetite. Sonhava que a esposa fosse diferente da mãe e da irmã. E encontrou.

Chamavase Olívia. Lurdes O nome dela soava suave, agradável, como um pastel de nata recémsaído do forno. Não era gorda; porém, com 1,73m de altura, pesava 85kg. E cada quilograma parecia exalar saúde e bom humor. Seios bem formados, cintura fina, curvas femininas e bochechas rechonchudas que convidavam um toque. Tudo isso fez Tiago ficar sem palavras ao primeiro olhar.

Numa tarde, levou a irmã ao Banco de Portugal para tratar de assuntos. Leonor pegou o talão e sentouse na cadeira designada, enquanto Tiago perambulava pelo salão, à espera. De repente, ouviu um riso leve, como o tilintar de um sininho. Era discreto, porém contagiante; Tiago sorriu sem querer. Curioso, seguiu o som.

Riase uma jovem operadora que atendia um cliente idoso. O senhor dissera algo engraçado e a moça explodiu em gargalhadas novamente. Tiago não conseguia desviar o olhar. O cabelo dela ondulava como ondas do Atlântico, os lábios formavam um pequeno laço. Além disso, a postura era impecável, notável a olho nu.

Ele seguia no carro, ouvindo a conversa monótona da irmã, mas a mente já estava em Lisboa, na agência, ao lado daquela rapariga.

Tiago, estás a ouvir? perguntou Leonor, irritada.

Claro, Leonor, estou a ouvir. ele respondeu, esforçandose para focar no que a irmã dizia.

Estou a dizer ao meu pretendente que não como carne frita, só peito de frango cozido reclamava Leonor do seu atual paquerador. Tiago assentiu compreensivo, balançando a língua como quem diz esse cara não serve.

No dia seguinte, já ao crepúsculo, Tiago correu ao banco. O objeto do seu desejo estava lá, e ele exalou alívio. Quando o estabelecimento fechou, retirou do carro um buquê de rosas e dirigiuse à operadora.

Moça, não procura marido agora ou talvez um nora para a sua mãe? lançou, meio a brincar, e entregou as rosas.

O rosto dela ficou tão perplexo e engraçado que estourou numa gargalhada clara, aceitando as flores.

Nossa, que perfume! exclamou, afundando o rosto nas pétalas. Tiago apreciava cada instante.

Desde então foram inseparáveis. Às vezes a vida apresenta alguém e, ao conhecêla, percebese que já encontrou tudo o que precisava. Assim aconteceu com Tiago e Lurdes. Propôslhe casamento após um mês de namoro, e ela aceitou com alegria. Restava apenas conhecer as famílias.

Os pais de Lurdes receberam Tiago com mesa farta, pastéis de nata, risos e conversa animada. A mãe, Dona Maria da Conceição, belíssima e cheia de graça, beijouo nas duas bochechas, deixandoo corado. O pai, José Manuel, bateu-lhe no ombro como a um velho amigo e conduziuo à cozinha.

Fica longe das mulheres que te cansam. Mas não te preocupes, Lurdes, a minha esposa é gente boa! Há trinta anos a adoro. E a Lurdes, nossa joia, cuida dela, rapaz. disse José Manuel, fitandoo com atenção.

Sentaramse longamente à mesa, comeram tudo com apetite, riram alto, recontando episódios engraçados. Depois, Pedro, pai de Olívia, pegou a guitarra e todos cantaram juntos. Tiago sentiuse em casa, como se conhecesse a família há décadas.

Três dias depois, foram à casa dos pais de Tiago. No caminho, pararam numa pastelaria onde Lurdes comprou éclairs artesanais para as mulheres. Às cinco da tarde chegaram ao endereço.

Abriu a porta Maria da Conceição, mãe de Tiago.

Olá, meus queridos exclamou, surpresa ao ver Olívia, e ficou boquiaberta, segurando a maçaneta.

Mãe, também te adoro. Não vamos ficar na porta, vamos entrar? Tiago pediu gentilmente e, finalmente, adentraram a casa.

Claro, filho. Entrem, entrem E tu, és a Lurdes, não é? a mãe, tentando controlar a curiosidade, examinou Olívia da cabeça aos pés.

Sim, sou eu! Muito prazer. Lurdes apertou a mão de Maria da Conceição e entrou. A mãe de Tiago ficou a observar a moça, ainda surpresa.

Pai, Leonor, mãe, esta é Lurdes, a minha noiva. Já fizemos a proposta e o casamento está marcado. Esta é a minha família: irmã Leonor, mãe Maria da Conceição e pai José Manuel. apresentou Tiago a sua futura esposa.

O anúncio do casamento pegou a todos de surpresa; ficou um silêncio quebrado apenas pelo tilintar dos talheres.

Lurdes! Estamos muito felizes por vocês. Tragam o vinho! brincou José Manuel, aliviando a tensão.

Não, não comemos doces à noite. respondeu Maria da Conceição, afastando o prato de sobremesas.

Vocês não comem, nós sim! Vamos abrir a caixa e ver o que tem. Tenho certeza de que Lurdes trará coisas boas. interveio o pai, rindo.

Todos sentaram, relaxaram. Na mesa havia chocolate, petiscos leves e uma garrafa de espumante. Abriram a garrafa, brindaram, beberam um gole e o silêncio voltou a pairar.

Mãe, conheci os pais da Lurdes. São pessoas maravilhosas. Vão gostarse. disse Tiago, tentando quebrar o clima. Lurdes observava o copo, enquanto Leonor não tirava os olhos de Lurdes. O pai contou uma piada, todos riram e a tensão dissipouse.

Lurdes, não se preocupe, tenho um especialista que pode ajudar. disse Maria da Conceição repentinamente.

Problema? Não tenho nenhum. respondeu Lurdes, surpresa.

Então por que a sua mãe insiste em falar dos seus quilinhos a mais? reforçou a mãe de Tiago.

Na minha opinião não tenho excesso, ainda mais se agrada ao meu futuro marido. Nem todos podem ser feitinhos como vocês. Lurdes respondeu, provocando Leonor, que ficou vermelha de indignação.

Lurdes, são vinte quilinhos a mais! Isso faz mal à saúde. Quando engravidar, nem sei o que acontecerá advertiu Leonor.

Quando eu der à luz, ficarei ainda mais bonita, ao lado do meu marido e do nosso filho. E você, Leonor? Uma mulher tão esguia deveria ter um marido bonito e, no mínimo, dois filhos retrucou Lurdes, mordendo o pastel.

Leonor engoliu saliva, prestes a responder, mas José Manuel interveio, encheu os copos e fez um brinde.

Aos mulheres desta família, diferentes, mas tão amadas!

Saíram para a rua, caminharam por duas horas, olharamse, suspiraram em uníssono e, de repente, riram juntos, sem segredos.

Nunca imaginei que minha sogra me chamasse de gorducha.
Lurdes, és uma beleza, sabes disso! Perdoa a tua mãe e irmã; a família, infelizmente, não se escolhe.

O casamento ficou marcado para 25 de agosto. Nesse dia, familiares e amigos reuniramse no conservatório civil de Lisboa para celebrar a união. Depois da cerimónia, todos foram ao restaurante.

A noiva brilhava num vestido luxuoso que valorizava sua silhueta feminina. O noivo não tirava os olhos dela. A mãe da noiva, Natália, não deixava a filha de lado, exibindo o encanto das suas curvas. Os convidados, principalmente os homens, ficavam hipnotizados. A irmã de Tiago, Leonor, era uma cópia da mãe, só que mais jovem.

A música começou, os recémcasados dançaram o primeiro vals

e sob a melodia encantadora. A vista era de que, naquele instante, não existia mais ninguém no mundo senão eles dois. O público ficou em silêncio admirado.

Acho que a noiva poderia perder alguns quilinhos a roupa está grande demais comentou a mãe de Tiago, insatisfeita.

Como se diz em Portugal, palavra não sai pela boca, mas o eco volta. Natália tentou silenciar o comentário, mas já era tarde demais.

Muitos homens preferem mulheres normais, vivas. O teu filho, aliás, está entre eles. E tu, querida, tem cuidado para não se exceder, porque eu também sou mulher, embora delicada, mas nervosa. disse Natália, cruzando os braços e pressionando a postura de Maria da Conceição.

Ambas trocaram olhares tensos. O clima ficou carregado até que Pedro, pai de Olívia, interveio.

Meninas, já são amigas, não é? Mas devo roubar a minha esposa, querida Maria da Conceição! Natália, aceitas um baile? disse, puxando a esposa pela cintura e girandoa num vals. A música encheu o salão, rostos sorridentes, a festa cantava e dançava como na famosa canção popular.

Tudo indica que o casal viverá feliz, desfrutando dos bons momentos e acumulando dádivas Afinal, isso é o que realmente importa, não é?

**Moral da história:** o amor verdadeiro aceita a pessoa como ela é, com todas as suas diferenças, e assim se constrói uma vida plena e feliz.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Marta, e esses quilos a mais?