Marido me comparou à própria mãe e perdeu: eu o convidei a regressar para a casa dos pais e experime…

Então porquê é que os teus pastéis de carne estão tão secos? Molhaste o pão em leite, Leonor? Ou despejaste só água na carne, outra vez? Duarte espetava o garfo na crosta dourada, desconfiado, como quem procura uma ratoeira no prato, em vez de carne.

Leonor ficou imóvel, agarrada ao pano da loiça, com o coração apertado numa mola, pronta a estalar. Ficara ali, frente ao lava-loiça, esfregando a frigideira, numa esperança tola de que aquele jantar decorresse tranquilo. Mas a esperança morreu antes de nascer.

Duarte, é novilho. Boa carne magra, comprada no Mercado da Ribeira, a caminho de casa. Juntei cebola, temperos, ovo. Não estão secos, são só carne respondeu de costas, a voz tensamente controlada.

Pois, claro levantou o dedo o marido, mastigando à força Carne magra. A minha mãe sempre põe um bocadinho de toucinho, sabes? E pão, daquele velho, que embebe em natas bem gordas. Assim os pastéis ficam tão leves, derretem-se na boca. Isto isto é sola de sapato, Leonor. Sinceramente, uma sola. Já devias saber fazer uma coisa tão básica, depois de catorze anos de casamento.

Com gestos lentos, Leonor pousou a esponja, fechou a torneira e limpou as mãos na toalha. Catorze anos. A ouvir o disco riscado: Mas a minha mãe Na casa da minha mãe A minha mãe fazia melhor. Primeiro tímidas dicas, depois conselhos, e agora uma comparação nua e crua, em que Leonor saía sempre a perder por goleada.

Virou-se para o marido. Duarte sentado à mesa, um mártir do paladar ofendido, tragando o que era, diziam, comida de cão. A camisa engomada por Leonor. A toalha branca lavada por Leonor. O chão a brilhar limpo por Leonor. Mas nada disso contava, pois o pastel de carne não era como o da mãe.

Se não gostas, não comas murmurou ela. Há arroz de pato no frigorífico.

Lá está, ofendida outra vez Duarte revirou os olhos e largou o talher estrondosamente. Só te quero ajudar, mulher. Quero que evoluas como dona de casa. Crítica construtiva. Se não disser nada, achas que já és a mestra-cuca. A minha mãe sempre disse: A verdade dói, mas cura.

A tua mãe, Dona Graça, Leonor deu dois passos à mesa não trabalha há quase trinta anos. O dia dela é pôr o pão de molho nas natas, picar carne de três maneiras, lustrar os mosaicos à cera. Eu, Duarte, sou a contabilista chefe. Hoje fechei o trimestre. Entrei em casa às oito, mas jantaste quente às oito e meia. Alguma vez pensaste agradecer ou só vais examinar as minhas falhas culinárias?

Já começa disse Duarte ao vento. Eu trabalho, eu canso-me. Todos trabalham. A minha mãe trabalhava e fazia sempre sopa, prato e sobremesa. E camisas engomadas, que até ficavam de pé. Ela sim, tinha mãos de fada. E tu fazes tudo em esforço. Falta-te aquela centelha, Leonor, falta-te calor de lar.

As palavras caíram que nem pedras no soalho. Falta-te centelha. Tudo em esforço. Leonor olhou verdadeiramente para o homem com quem vivia. Não era um marido, mas um rapaz enorme, suspenso nos calções da mãe, exigindo que outra mulher fosse rainha-serva.

A taça da paciência, cheia gota a gota fosse as meias atiradas ao calhas, fosse o arroz esquisito, fosse o pó detectado com guardanapo branco (oh, sim, Duarte adorava a cena do guardanapo) verteu.

Então, sou má dona de casa? perguntou, um estranho arrepio de calma a invadi-la, como se já tivesse sobrevivido à tempestade.

Não má Duarte baixou um pouco o tom, mas retomou logo o cavalo. Mediana. Podes melhorar. A minha mãe com a tua idade

Basta! Leonor ergueu a mão, cortando-o. Chega de minha mãe. Bem vejo não atinjo o padrão, não te dou o conforto ou o êxtase culinário da infância. E se calhar, nunca vou conseguir. Falta-me vontade, falta-me tempo.

O que é que propões, então? Divórcio por causa de pastéis de carne? Não sejas ridícula.

Não, ainda não. Proponho uma experiência. Já que Dona Graça é a medida de todas as coisas, porque hás de tu sacrificar-te comigo, uma incompetente, aqui? Seria injusto para ti, esse entendido sensível e exigente.

Estás a brincar, Leonor? O que é que queres?

Quero que vás viver onde te compreendem, apreciam e, mais importante, te alimentam como gostas. A casa da tua mãe.

Duarte teve uma gargalhada estrondosa:

Ah, muito bom! Vais pôr-me a andar, da minha própria casa?

A casa foi comprada em casamento, mas a hipoteca foi paga pelos meus prémios, e o sinal deram-no os meus pais respondeu Leonor implacável. Não te expulso. Sugiro um retiro. Um mês no Spa Dona Graça. Foste tu que disseste: Em casa da mãe é que é bom. Vai lá. Descansa dos meus pastéis secos. Fortalece-te. Eu pensarei se estude molho branco e pão embebido em natas.

Estás a falar a sério? o riso já se apagara na boca dele.

Totalmente. Estou esgotada, Duarte. Exausta de competir com o fantasma da tua mãe. Quero chegar a casa sem medo do garfo fora do ângulo. Prepara as malas.

Duarte saltou da cadeira com estrondo.

Muito bem! Achas que me vou perder? Lá estarei como rei. A minha mãe sempre avisou que tu não me tratavas bem, que emagreci e andava abatido. Vais ver como floresço! Vais passar mal sozinha, nem uma lâmpada sabes trocar, nem o cano do lavatório.

Chamo um técnico encolheu os ombros Leonor. Pagando, ao menos não me incomodam.

A partida foi ruidosa. Duarte atirava camisas para dentro da mala, trancava portas, murmurava sobre mulheres ingratas e tolas. Leonor ficou sentada no sofá, livro no colo, sem ler uma linha, e foi ouvindo o rebuliço. Tinha medo, sim, bem fundo, mas acima flutuava uma leveza há muito esquecida.

Vou sair! proclamou Duarte no hall, com duas malas e um molho de nervos. E nem sonhes que volto por um apito teu. Quando vires o que perdeste, vais ter de te humilhar!

Deixa as chaves na cómoda, disse ela, sem se mexer.

A porta bateu. Fez-se um silêncio estranho não zumbia, não sufocava. Era de veludo. Leonor foi à cozinha, olhou para o pastel inacabado do marido, atirou-o ao lixo. Depois abriu um vinho verde, serviu-se com calma e jantou queijo fresco com mel, sem pensar sequer que aquilo não era jantar de homem.

A primeira semana fluiu como um devaneio feliz. Ninguém a acordava gritando quero pequeno-almoço!. Nenhuma meia atirada ao chão. Nenhum canal mudado da novela para o futebol. Chegava do trabalho, enchia a banheira como queria e não ouvia bate-bate na porta: Dormiste, Leonor? Preciso da casa de banho!

Já a vida paradisíaca de Duarte revelou-se logo madrasta.

Dona Graça recebeu-o aos beijos.

Duarte! Meu filho querido! Ela pôs-te fora, a bruxa? Eu sabia! Sempre disse, ela não te chega aos calcanhares. Entra, está em casa. Mamã vai cuidar de ti, dar-te comida a sério.

Dois primeiros dias, tudo agradável. Ao pequeno-almoço, panquecas rendadas e quentinhas. Ao almoço, sopa vermelha, pastéis com toucinho e à noite, bacalhau com broa. A mãe rodopiava de colo em colo, sempre pronta a escutar as lamúrias do filho.

Mas ao terceiro dia, os detalhes começaram.

Habituado a algum espaço, Duarte resolveu dormir até tarde no sábado. Às nove em ponto, a porta da quarto dos hot wheels abriu-se.

Duarte, levanta-te, que o pequeno-almoço arrefece! Quem dorme até tarde nunca tem sucesso! Dona Graça abriu as portadas, deixando a luz cortar tudo.

Mãe, é sábado deixa-me gemeu Duarte, enfiando-se na almofada.

Nada disso! Horários são saúde. Fritei filhoses, tem de ser quente. E temos de arrumar a arrecadação, preciso de um homem!

Com esforço lá foi comer as filhoses. Só que depois, a programação cultural começou.

Vai, filho, estes jornais destes anos todos, tens de organizar: uns para a quinta, outros para o papelão. Depois, vamos às compras, preciso de batatas, cinco quilos, não aguento sozinha.

Mãe, dói-me as costas

Todos têm costas! Movimento é vida. Olha para ti, já tens barriga. A Leonor matava-te à fome com snacks de plástico. Vais ver como te endireito.

À noite, Duarte tentou ver um filme.

Duarte, baixa isso! Ando com dor de cabeça! ouviu da cozinha. E para que vês essa porcaria? Querias antes algo bonito, O Preço Certo ou uma gala!

Quero ver cinema, mãe! respondeu ele, quase a chorar.

Em casa tua mandas tu, aqui mando eu! sentenciou Dona Graça. Respeita quem te gerou. Tu nem imaginas o que trabalhei para te criar!

Duarte cerrou os dentes e desligou a televisão. Recolheu-se ao quarto, agarrou no telemóvel. Apeteceu-lhe ligar à Leonor, perguntar se estava bem. Mas calou o orgulho: Ela deve estar a lamentar a nossa sorte, tentou consolar-se.

A segunda semana agravou-se. Percebeu que a mãe, além de cozinheira, era censora.

Vais onde? perguntou ela, terça-feira, ao vê-lo calçar os sapatos.

Ao café, encontrar uns amigos, beber uma cerveja.

Nem penses! Amanhã há trabalho. Álcool faz mal ao homem. Quero-te em casa às dez. Fecho a porta por dentro, não vou levantar-me na madrugada para menino sair.

Mãe, tenho quarenta e um anos! soltou um urro.

Serás sempre o meu menino. Aqui, regem as minhas regras. Não tolero desordem, foi por isso que a tua mulher destruiu o lar.

Ficou em casa. Ouvia Dona Graça falar ao telefone para a comadre:

Voltou sim, Judite. Magro, nervoso. Aquilo não dava uma camisa a ninguém. Mas pronto, cá cuido eu dele

E Duarte pensou, já desconfortável, que a Leonor nunca lhe proibira de estar com os amigos. Pelo contrário: Vai, diverte-te, mas chega são, dizia. Nunca lhe acordava ao fim-de-semana a não ser se fosse preciso. E cozinhava-lhe com carinho, mesmo sem segredos de mãe.

E, curiosamente, a comida tornou-se problema. Dona Graça fazia tudo untado em banha, coberto de maionese, afogado em azeite. O estômago de Duarte, acostumado a refeições leves, começou a revoltar-se. Refluxo, peso.

Mãe, podemos fazer frango só cozido, simples? murmurou ele um dia.

Estás doente? apavorou-se ela. Comida de hospital?! Come o rancho, pus-lhe toucinho para engrossar.

No fim da terceira semana, Duarte estava em frangalhos. Entendeu, com horror, que amar a mãe e os seus pastéis era melhor ao domingo em visita rápida. Conviver era insuportável exigia submissão, relatório de cada passo, agradecimento sem fim.

Enquanto isso, Leonor floresceu. Inscreveu-se no pilates, reencontrou amigas num café, revolveu o quarto e livrou-se do cadeirão que Duarte tanto estimava, mas só servia para apanhar pó. Percebeu que não era trágico estar só. Pelo contrário, havia serenidade.

Uma sexta à noite, tocaram à porta. Leonor achava que era a transportadora da estante nova, abriu sem hesitar.

Duarte estava no patamar, de malas feitas e um ramo lascado de cravos tristes.

Olá disse, sem coragem de entrar.

Leonor encostou-se ao umbral, braços cruzados.

Olá. Esqueceste-te de alguma coisa?

Leonor podemos conversar?

Pensava que já tínhamos tudo declarado. Faltam ainda uns dias para o mês. Então e a vida no paraíso? Já engordaste? Dona Graça trata-te bem?

Duarte tremeu a boca.

Leonor, não gozes. Quero voltar.

Aqui não é o teu lar, Duarte. O teu lar é onde estão os pastéis de toucinho e os lençóis duros como tábuas. Eu sou… só uma mediania, lembras-te? Que procuras neste buraco sombrio?

Ele baixou as malas, suspirando fundo.

Desculpa. Fui um idiota. Não valorizei. Só agora percebi…

Pois não confirmou Leonor. O que mudou? Foste despejado?

Não, fugi. Não aguento. Ela comanda-me tudo. Não posso respirar! Só me dá comer gordura, tenho azia todos os dias! Critica até como escovo os dentes! Comi-te a paciência anos a fio Tu sabes cozinhar, Leonor! Só queria voltar a comer o teu creme de legumes só com alho, sem banha.

Parecia sincero. Aquela mãe perfeita tinha passado um ferro de passar pelo adulto independente.

Então, os meus pastéis já não são sola? sorriu ela, irónica.

Os melhores do mundo! Leonor, deixa-me voltar. Juro: nunca mais falo da mãe. Prometo! Agora sei o que é visitar e o que é viver. Agora sei o que fazias por mim. Estava mal habituado, mimado.

Avançou, mas Leonor estendeu a mão:

Espera. Pedires desculpa é bom. Compreender, ainda melhor. Mas não voltamos ao mesmo só porque choras. Daqui a mês e meio estarás outra vez a cheirar o pó atrás do sofá.

Não! prometeu Duarte, quase a chorar. Dou-te a minha palavra.

Palavra é vento, Duarte. Ficas à experiência: três meses. Se não gostares da comida, cozinha tu. Se a camisa ronca, passas tu. Eu não sou criada de ninguém. Pactuamos, partilhamos o peso. Tu cozinha ao fim de semana. E pelo menos, uma vez por semana, ligas à tua mãe e dizes-lhe o quão sortudo és comigo. Ela também tem de ouvir.

Duarte acenou com energia.

Nem sabia que cozinhava tão bem, Leonor! Faço arroz de pato no domingo, prometo. Mas deixa-me entrar!

E mais interrompeu ela. Sinto-me bem sozinha, aprendi isso. Não vou remexer nas tuas malas. Muito menos preparar jantar. No frigorífico tens ovos e tomate. Tu sabes fritar ovos?

Sei sim! vibrou ele, avançando. Com tomate até! Melhor refeição!

Nessa noite sentaram-se à mesa. Duarte devorou a omelete que ele próprio preparou (um pouco salgada, mas valente), e já contava as peripécias campestres da mãe, rindo-se de si próprio.

Acreditas que me obrigou a usar gorro para ir pôr o lixo? Com quinze graus lá fora! A meningite espreita!, gritou.

Leonor sorriu. Via que ele agora aprendera. Dona Graça, sem saber, salvara-lhes o casamento mostrou ao filho uma amostra do paraíso que só apetece visitar, não viver.

Ao sábado, Duarte passou o aspirador pela casa inteira. Calado, sem mas a mãe passa em cruz. Quando Leonor fez sopa, ele comeu duas malgas:

Está óptima. Obrigado por tudo, Leonor.

Um mês depois, Dona Graça ligou.

Então, já te fartaste? O meu badocha voltou para casa?

Eu aceitei o Duarte de volta, Dona Graça respondeu Leonor, serena. Ele manda dizer que tem saudades, mas aqui vive melhor. Isto aqui é democracia, não quartel-general.

Silêncio no outro lado. Mas Leonor sabia que ainda haveria mais chamadas, afinal é filho e mãe. Contudo, sabia também que entre sua casa e a sombra da sogra havia agora um muro feito de respeito e das lições amargas do paraíso.

Tudo se recompôs, aos poucos. Duarte cumpriu: nunca mais as comparações. Às vezes escapava um mas olha, mas ao lançar um olhar a Leonor, emudecia. Valorizou finalmente o lar, percebendo que dá trabalho, não é milagre. Leonor aprendeu: para guardar a família, não basta engolir e remendar arestas é preciso demarcar limites, deixar o outro experimentar. De facto, tudo se compara. E nem sempre o modelo perfeito resiste ao teste.

Se leste até aqui, obrigada. Se gostaste, partilha e segue o canal há muitos mais sonhos (e acordares) pela frente.

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Marido me comparou à própria mãe e perdeu: eu o convidei a regressar para a casa dos pais e experime…