Manhã de sábado. Isilda desligou todos os despertadores e telefones. A jovem decidiu dormir bem, após uma semana muito difícil, cheia de eventos significativos em sua vida.
Isilda passava por uma fase complicada. Dizem que depois de uma fase ruim, sempre vem uma boa… Mas só tinha vindo fase ruim atrás de fase ruim.
Na terça-feira, Isilda foi demitida. Ela havia dedicado vários anos à empresa, e então, como um raio em céu azul: “Desculpe. Estamos reduzindo o quadro da empresa pela metade. Não renovaremos seu contrato.”
A mulher pensou que estivesse em um pesadelo. Ela esperava que, ao acordar, tudo voltaria ao seu devido lugar.
Um grito repentino de uma gralha trouxe-a de volta à realidade. A ave grasnava tão alto e estridente que ela quis tapar os ouvidos. Involuntariamente, olhando pela janela, a mulher viu a gralha… Ela estava empoleirada em um galho e olhava diretamente nos olhos dela.
“Isto é bizarro!” – sussurrou Isilda, saindo do escritório às pressas. Naquela mesma noite, Tiago veio vê-la. Eles estavam juntos há alguns anos e planejavam se casar.
– Acontece o seguinte… Não vou enrolar, vou me casar em breve. Desculpa. Foi assim que aconteceu.
E novamente aquele grito ensurdecedor foi ouvido. Isilda estremeceu e olhou pela janela. A gralha estava ali, fixando o olhar nela. “O que você quer de mim?” – gritou ela em desespero.
– Está tudo bem contigo? – perguntou Tiago assustado.
– Sim! Sai daqui! – ela apontou para a porta, mandando embora o ex-noivo.
Num piscar de olhos, ela perdeu o emprego e o amor da sua vida. “Vou dormir! Preciso descansar. Depois resolverei o resto.” Dormir, no entanto, não foi possível. O grasnar da gralha a acordou novamente. “Gra-gra” reverberava por toda a vizinhança.
Olhando pela janela, ela viu novamente aquela ave desagradável. Parecia que a gralha não tinha ido embora, permanecendo no galho a noite inteira. “O que você quer? Você me irrita!” – berrou ela. A gralha ignorou seus gritos e seguia perturbando a vizinhança. Eram 6 da manhã. Dormir bem tinha sido impossível…
Duas horas depois, sua mãe ligou:
– Como você está, filha? Não liga há muito tempo.
– Está tudo muito mal! – Isilda começou a chorar e, como quando era criança, contou tudo à mãe. Não esqueceu de mencionar a gralha também.
– Ela está te chamando para uma viagem! Você é necessária em algum lugar…
– Mãe, que besteira é essa? Que viagem? Necessária a quem? Todos me deixaram de lado!
– Minha querida, venha me visitar. Amanhã é Natal. Celebramos em família!
– Não quero estragar o humor de vocês. Preciso ficar sozinha.
Ela desligou o telefone e foi à cozinha preparar um café. Assim que entrou, o grasnar ecoou novamente. “Ele certamente quer me enlouquecer” – pensou.
Perto do almoço, uma antiga amiga de escola telefonou:
– Isilda, enfim te encontrei em casa. Não tenho mais teu celular.
– Olá, Margarida! Não te vejo há séculos!
– Pois então! É exatamente por isso que estou te ligando. Larga tudo e vem para a minha casa de campo! Decidimos nos reunir aqui, com toda a turma. A Maria, a Beatriz e o José também estarão!
– Na verdade, não tenho nada para largar. Foi o mundo que me largou… Ok, me passa o endereço!
Isilda seguiu o GPS. Faltavam 15 quilômetros para o destino. A princípio, o carro ia bem, mas no meio do caminho, o motor parou e o veículo estacionou.
Ela pegou o telefone, mas não havia sinal na floresta… “Mas que sorte a minha! Por que fui sair de carro?” – disse ela, desesperada. “Gra-graaa!” – escutou acima da cabeça.
“Meu Deus! Você também aqui? O que quer?” – dirigiu-se à gralha, que inflou seu peito, silenciosamente observando-a. O tempo escurecia. Desesperada, a mulher começou a buzinar, esperando que alguém ouvisse.
“O que fazer? Ir a pé? Mas não conheço o caminho!”
De repente, alguém bateu na janela. Surpresa, ela pulou. Era um homem de uns quarenta anos, usando um casaco grosso e carregando uma espingarda.
– Quem é você? – assustou-se.
– Simão. O guarda-florestal local. Você precisa de ajuda? Entendi certo?
– Sim! Estou presa. Pode me empurrar? – perguntou esperançosa.
– Senhora, você está bem? Aqui, precisamos chamar um trator. De outra forma, o carro não sairá daqui.
– Então chame! Qual é o problema?
– O problema é que a noite está chegando. Ninguém virá aqui no escuro. Vamos para minha casa. Amanhã chamaremos ajuda.
Isilda não tinha outra opção senão seguir o guarda. Ela notou a gralha seguindo-os em silêncio. “Pelo menos parou de gritar. Talvez tenha ficado rouca?” – riu.
Logo eles chegaram à casa do guarda-florestal. O fogo creptava suavemente no fogão, tornando o ambiente quente e acolhedor. Simão preparou um jantar simples e um chá de ervas.
– Vamos jantar. Depois você descansa, e amanhã pela manhã chamarei ajuda para tirar seu carro da neve, – disse ele.
– O que aconteceu com o tempo, não consigo entender? De onde veio essa nevasca?
– De onde? Hoje é a véspera de Natal! Sabe a lenda local sobre esta noite?
– Claro que não. Como saberia? – encolheu os ombros.
– Posso contar? É muito interessante!
– Conte… De qualquer forma, não há nada mais para fazer.
Simão começou a narrar uma bela história, uma lenda ou conto de fadas, apaixonadamente. Isilda ouvia encantada, sem interrompê-lo. O personagem principal da história era uma gralha preta. Ela fazia o bem: unia corações solitários, ajudando-os a se encontrar…
Na parte mais interessante, Isilda adormeceu na cadeira. Simão gentilmente a cobriu com um cobertor e saiu para fora.
“Ainda está aí?” – perguntou à gralha. “Obrigado, sempre sonhei com uma mulher assim!”
“Graaa” – respondeu a gralha, antes de desaparecer da vista.
Pela manhã, enquanto Isilda ainda dormia, Simão chamou ajuda e retirou o carro dela.
– O serviço está feito! – sorriu ele. – Agora vamos tomar o café da manhã, e levarei você ao seu destino. Siga-me!
– Obrigada! Simão, eu adormeci ontem e não fiquei sabendo o final da lenda… – disse ela.
Ela não queria deixar aquele lar acolhedor. – Você pode ficar comigo, e eu certamente contarei o final. Além disso, hoje é a Noite de Natal!
– Você me convenceu! Não posso deixar você sozinho! – sorriu Isilda.
“Gra-graaa” – a gralha girou ao redor deles e voou para longe. Estava satisfeita com seu trabalho. Mais uma vez, conseguiu unir dois corações solitários…






