Mãe, o teu pai tinha razão quando dizia que algo não estava bem contigo! Agora vejo claramente que estás a perder o juízo. Já não tentaste procurar ajuda?
Lurdes Rodrigues ficou atónita ao ouvir o filho. Sempre fora um rapaz complicado, mas nunca lhe ouvira dizer à própria mãe, ao olhar nos olhos, palavras tão duras
Lurdes nunca imaginou que, depois de vinteecinco anos de casamento, seria ela a quem lhe coubesse iniciar a separação. Contudo, foi ela quem, um dia, percebeu que já não conhecia o marido que a havia escolhido.
Ao longo de décadas, pensava que conhecer alguém a fundo era impossível; porém, ao observar Duarte, viu que ele se revelara uma pessoa fria e insensível.
Num entardecer chuvoso, Lurdes encontrou na rua um cachorrinho tão magro que se podiam contar as costelas e os ossos. Quando o trouxe para casa, o marido levantou a voz:
Lurdes, já não tens nada para fazer, ou quê? bradou, a ecoar pelos quatro cantos do apartamento. Por que trouxeste essa miserável criatura para dentro?
Duarte, o que é que estás a dizer respondeu Lurdes, surpresa. Olha para ele! Está a parecer um esqueleto, só pele e ossos. Como podees deixaro assim?
Todos passam, mas tu não conseguiste? respondeu ele, sarcástico. És a mãe Teresa ou quê? És a mais séria de nós, não é?
Aquela noite Lurdes chorou longas horas, angustiada tanto pela condição deplorável do pequeno animal quanto pela frieza que Duarte mostrara. Ele nunca fora perfeito, mas ela sempre tentou ignorar os seus defeitos, convencida de que ninguém é perfeito.
Quando Duarte cruzou o limite, Lurdes não pôde conter o pranto: Como assim? Não é difícil ser simplesmente humano? Como podees deixar esse cão à mercê do mundo sem sequer lhe oferecer ajuda?
O marido, indignado, fez questão de sublinhar que aquele miserável lhe irritava os nervos:
Quando é que vais livrarte dele? Até quando teremos que tolerar essa cachorrice dentro de casa?
Chamavao cachorrice porque o animal era tão magro que tremia, mesmo com a temperatura do apartamento quente. Em vez de ajudar a erguer o pequeno ao chão e procurar-lhe um lar decente, Duarte refugiavase no carroçário da garagem, onde se juntava a amigos que também eram aparências vazias, fugitivos das suas próprias casas.
Voltava para casa tarde, embriagado, e recomeçava a recriminar Lurdes pelo animal que ela havia trazido. Ela, sentada na sala, pensou:
Pode ser que não gostes de animais, mas será que também te importas comigo? Não vês como me é difícil?
O dia a dia tornouse um fardo: Lurdes precisava faltar ao trabalho para levar o cão ao veterinário ou simplesmente leválo a passear. Tinha medo de deixálo só no apartamento com Duarte, cujo comportamento tinha mudado tanto ao ponto de beber.
Numa manhã, enquanto trabalhava, sentiu um aperto no peito, como se uma mão invisível lhe apertasse o coração. Alegou novamente mauestar e, ao regressar mais cedo, encontrou Duarte a levar o cachorro, Bimba, ao carro, como se quisesse livrarse dele de uma vez por todas. Não perdoou essa ação e entrou com o pedido de divórcio.
Por causa do cão? vociferou Duarte, gesticulando. Estás a perder a cabeça na velhice!
Lurdes ignorou o grito; não se considerava velha nem insana, apenas percebeu que não podia mais viver ao seu lado. Tinham um filho adulto, Miguel, que na altura morava com a namorada numa cidade distante. Curiosamente, Miguel se alinhou ao pai:
Mãe, estás bem? Como é possível destruir a família por causa de um cão?
Já não há família, filho suspirou Lurdes. Não me separo por causa do animal, mas porque o teu pai perdeu a humanidade.
Podemse ignorar os animais, mas infligir-lhes sofrimento nunca é aceitável! respondeu Miguel, mas as palavras não o convenceram. Ele acabou por cortar todo contacto com a mãe, alegando que o pai tinha ficado sem teto, pois o apartamento pertencia a Lurdes.
Duarte, por sua vez, preferiu não lutar pelos bens, pois a casa era dela por direito conjugal. O único bem que herdara dos pais era a antiga casa de campo, agora praticamente abandonada.
Lurdes, ao lado de Bimba, decidiu colocar o animal nas patas. Primeiro pretendia encontrar-lhe um dono, mas acabou por ficar com ele.
Se o escolhi, agora devo cuidar dele, disse à pequena bola de pelos.
Auau! respondeu Bimba, abanando o rabo, feliz por não ser abandonada.
Com o tempo, Bimba cresceu e Lurdes começou a visitar, nas horas livres, o abrigo municipal de animais de Lisboa, para ajudar aqueles que, como o seu exmarido, haviam sido deixados de lado.
Estamos com dificuldades financeiras, explicou a diretora do abrigo, Teresa. Não dá para pagar salários nem manter tudo.
Não faço isto por dinheiro, mas por causa, replicou Lurdes, determinando a sua presença duas vezes por semana.
Num desses dias, Bimba apresentoulhe um outro cão, um velho viralatim chamado Buraco. O nome, segundo os funcionários, refletia o hábito do animal de resmungar ao ser levantado para passear.
Lurdes já o conhecia, limpava a sua gaiola, mas ao observálo de perto percebeu que aqueles olhos cansados carregavam a mesma tristeza que antes viu nos olhos de Bimba. Sentouse ao seu lado, acariciouo a cabeça e abraçouo, desejando trazer-lhe alguma alegria.
Através de uma voluntária, soube da história de Buraco: havia sido abandonado há três anos, depois que o antigo dono o amarrou a um poste e partiu, acreditando que o cão voltaria. O animal vagou pelas ruas de Porto, à procura do seu dono que nunca regressou. Várias pessoas recusaramo; acabou por ser recolhido no abrigo porque havia um espaço livre.
Encontrámos um interessado, mas devolveuo ao fim do mês, dizendo que queria um cão normal, não um vegetal contou a voluntária.
Lurdes decidiu então que não deixaria Buraco sem lar. Publicou fotos em todos os portais de adoção, até que recebeu uma ligação de uma mulher que se interessou.
É um beagle? perguntou.
Sim, mas não é puro, respondeu Lurdes. Ainda assim, é um cão maravilhoso, apesar da idade e da tristeza que carrega.
A mulher aceitou, mas, dias depois, chamou Lurdes a dizer que precisava levar o cão de volta ao abrigo temporariamente, pois iriam à praia com os filhos e não havia quem o cuidasse. O abrigo, porém, não tinha vagas.
Vou cuidar dele enquanto vocês estão fora, ofereceu Lurdes prontamente. Dois semanas?
A mulher aceitou. Quando Buraco foi entregue à Lurdes, parecia ainda mais magro, como se fosse alimentado só uma vez por semana.
Ele não come? indagou Lurdes à tutora.
Não o forço a comer, ele simplesmente não tem vontade, respondeu a mulher. Um cão não deve ser coagido.
No mesmo dia, Lurdes levou Buraco ao veterinário. O diagnóstico foi grave: o animal precisava de tratamento caro. Desesperada, pediu à mulher um pequeno apoio financeiro, mas recebeu:
Não tenho dinheiro agora! Nem sabia que ele ficaria doente!
Lurdes, sem esperar tal resposta, decidiu assumir o custo do tratamento, mesmo sabendo que o próximo ano entraria na sua reforma.
Ao olhar nos olhos de Buraco, percebeu que não o entregaria a ninguém. Quantas vezes havia sido rejeitado? Quantas vezes tinha de sofrer? Quando o cão finalmente viu um pequeno brilho de esperança nos seus olhos cansados, soube que todo o sacrifício fora justo.
Mesmo com a separação e o filho distante, Lurdes sentiuse a pessoa mais feliz do mundo. Miguel acabou por aparecer, querendo conversar sobre o pai e, talvez, tentar reconciliála. Mas, ao ver dois cães a percorrerem a sala, não conteve a indignação:
Mãe, o pai tinha razão! Ainda estás sem juízo! Nunca procuraste tratamento?
Lurdes, surpresa, não sabia como reagir a tal afronta.
Que dizes? respondeu. Só porque tenho dois cães, achas que perdi a razão? Não há quem os ajude a não ser eu. Nem o teu pai eu deixaria entrar nesta casa, mesmo que não tivesse nenhum cão.
Então viverás sozinha! exclamou Miguel, batendo a porta.
Lurdes sussurrou:
Não estou sozinha, filho. Tenho ao meu lado amigos leais que jamais me trairão.
Alguns dias depois, a diretora do abrigo, Teresa, reclamou:
Se precisar, podemos levar o Buraco de volta ao abrigo.
Não, obrigada. Não o entregarei a mais ninguém; já o deixaram tantas vezes que não quero que volte a ser abandonado. Que ele viva tranquilo aqui.
Assim terminou a história de Lurdes, Bimba e Buraco. Quem ama os animais entenderá o seu gesto. Alguns poderão criticar a ruptura da família; outros talvez a defendam. E quanto ao marido e ao filho? Deixem a vossa opinião nos comentários.

