Olha, deixa eu te contar o que aconteceu com a Alzira da Silva. Ela chegou àquele portão de ferro enferrujado da casa da família, encostou as costas na cerca de vime e deu uma boa respirada. Tinha corrido da autocarro como uma doida, já não lhe sobrava energia. Quando viu a fumaça cinzentaazulada a subir da lareira, passou a mão sobre o peito: o coração batia tão forte que parecia que ia arrebentar as costelas. Mesmo com o ar fresco, a testa estava encharcada de suor. Secouse num gesto rápido e empurrou a grade de entrada.
Com o olhar atento percebeu que o arrumebarraco estava todo remendado. O filho, o pequeno Artur, não lhe escrevia há tempos, mas não tinha mentido: a casa do pai ainda estava aí, como tinha prometido. Subiu os degraus da varanda num salto, pronta para abraçar o querido filho.
Mas a porta abriu para um desconhecido, carrancudo, com um pano de cozinha jogado à barra.
Estão à procura de alguém? perguntou com voz rouca, fitandoa.
Alzira ficou boquiaberta.
Onde está o Artur?
O homem coçouse a barba nervosamente, encarandoa sem nenhum jeito. Ele sabia que ela era a mãe de roupas gastas, casaco grosso, botins surrados, sacola cheia de manchas a imagem de quem vem de vida dura. Não era o tipo de quem sai a passear ao sol de verão; era quase como se ainda vestisse o uniforme do cárcere.
O Artur é meu filho. Onde está? Está bem?
Provavelmente sim. Vocês é que deviam saber respondeu, quase a fechar a porta. Artur Pereira?
Alzira assentiu, apressada. O homem teve um olhar compreensivo.
Vendilhe esta casa há quatro anos. Entrem, se quiserem
Não, não! ela gesticulou, quase a cair dos degraus. Pode dizernos onde o encontro?
Ele balançou a cabeça. Alzira desviouse para a cerca. Poderia ir à amiga Lurdes, mas Lurdes tem língua de prata e não ia poupar palavrões. E o coração de mãe sentia que algo terrível tinha acontecido ao filho.
A caminhar lenta até à paragem, mergulhou em pensamentos sombrios. O que será que se passou? Artur sempre foi confiante Há quatro anos, confiou num amigo e acabou metido numa fraude. Se Alzira não assumisse a culpa, ele teria cumprido muito mais tempo. Condenaram a mãe, já idosa, a cinco anos de prisão. Três dias antes libertarama por bom comportamento e ainda lhe pagaram a passagem.
Sentouse num banco de cimento e murmurou:
Onde estás, meu menino?
As lágrimas subiam aos olhos. O coração deu um salto quando, três anos antes, as cartas do filho deixaram de chegar. Agora os piores medos pareciam confirmados: até já tinha vendido a casa. Secou as bochechas com um lenço.
De repente, um carro preto parou ao lado. O homem sombrio, novo dono da casa, entregoulhes um papel:
Encontrei este endereço nos documentos. Se quiser, levoa à cidade.
Ela segurou o papel como se fosse um salvavidas.
Obrigada, rapaz, não se preocupe; dou conta. Reanimada, dirigiuse ao velho autocarro que já se aproximava.
Meia hora de subidas, apertos e perda de rumo na cidade. Finalmente chegou ao portão do terceiro andar de um prédio carcomido. Pressionou o interfone várias vezes, segurando a respiração. Eles iam abrir para lhe dar talvez uma notícia terrível. As lágrimas não paravam de cair.
Quando a porta se escancarou, a alegria foi imensa: o filho, despenteado, um pouco embriagado, mas vivo o Artur! Começou a soluçar, queria abraçaro, mas ele nem parecia feliz. Recou, mantendo a porta entreaberta:
Como é que me encontraste?
Sem saber como responder ao seu frio receio, Alzira ficou sem palavras. Artur virouse e empurroua para as escadas:
Desculpa, mãe, mas não podes ficar aqui. Vivo com uma mulher que odeia expresidiários. Arranja-te, não tenho um tostão.
Alzira tentou falar do dinheiro da venda da casa, mas a porta bateuse como um tiro ao coração. Não chorou mais. Cabisbaixa, desceu os degraus. Lurdes tinha razão: criara um patife. Tinha de admitir e aguentar as críticas, sem ter um teto.
De volta à aldeia, o destino fez-lhe outra armadilha: Lurdes tinha morrido há seis meses; a casa dela agora estava cheia de netos quase estranhos. Sob uma garoa fina, Alzira refugiose na paragem do autocarro a pensar no futuro.
Os faróis de um carro apareceram: era o mesmo homem, novo patrão da casa, que lhe gritou:
Sobe, estás encharcada!
Ela recusou, soluçando: não tinha onde ir, e aquele estranho parecia tão atencioso. Ele acabou por empurrála quase à força para dentro do carro.
Conversaram. Alzira contou a sua história amarga, omitindo apenas a visita ao filho por pudor. O condutor, o André, propôslhe ficar convosco, pelo menos um tempo. Assim, Alzira da Silva acabou por viver na velha casa que agora pertencia ao André. E ficou lá.
André trabalhava do alvorecer ao anoitecer: tinha uma madeireira que estava a prosperar; ela cuidava da casa cozinha, roupa, tarefas domésticas tudo com os eletrodomésticos modernos. André, ainda jovem e divorciado, ainda não pensava em formar família.
A presença dele era exatamente o que ela precisava: sob a sua asa materna, André, órfão criado nos lares de assistência, encontrou finalmente o calor de um lar. Cada vez que Alzira falava em partir, ele dizia:
Para onde vais? Aqui é a tua casa!
Pouco a pouco, o seu coração também se aquecia. Um filho de sangue não se troca, claro, mas André mostrava uma bondade rara, quase como um filho verdadeiro. Quando o inverno se aproximava, decidiu levarlhe o almoço na madeireira a poucos passos, e às vezes ele ficava tão atarefado que não voltava para comer.
Aquele dia trouxelhe um termo de sopa de feijão quente e uns bolinhos. Mandou embora um estranho do escritório, estendeu uma toalha limpa. André riu:
Alzira, és um general: nada de discussões! E se alguém se ofender?
Ela franziu a sobrancelha:
Queres contrataro como chefe de equipa? Dá para ver na cara dele: é um ladrão. Confia no meu instinto, o cárcere ensinoume a ler as pessoas.
Ele balançou a cabeça:
Vamos lá, mãe! Ele tem um currículo sólido. Não podemos confiar só na impressão.
Alzira tinha razão: um mês depois, a madeireira sofreu grandes perdas; o tal indivíduo furtava madeira à noite e desaparecia com um camião inteiro. André, cabisbaixo, admitiu o erro.
Ao recrutar nova equipa, decidiu: como a avó entende, ela ajudaria. Daqui em diante, Alzira assistia às entrevistas: André fazia as perguntas, ela observava, anotava um veredicto que depois ele lia. Folhas inteiras: bebado brigão, ladraço comprovado, vadio alcoólico tudo conciso e preciso.
E conseguia também reconhecer bons operários, ainda que um tanto desleixados. Contudo, num candidato hesitou: ficou a olhar o formulário, as mãos tremendo.
André viu o visitante: era o homem que tinha vendido a casa! Artur ficou boquiaberto, observando a mãe sentada ao lado do patrão, franzindo a testa, brincando com o chapéu. A esposa dele o tinha mandado trabalhar; a madeireira pagava bem. Não esperava encontrar a mãe ali; achavaa desaparecida.
No silêncio, André leu o papel do veredicto. Alzira escreveu duas palavras e saiu correndo. Artur deu um sorriso irónico: claro que o iam contratar, a mãe dele ia confessar por ele.
André leu em voz alta:
Tipo maldito. Sacudiu Artur como se fosse uma mosca. Fora! Confio no juízo da mãe.
