– Mãe, já tens 65 anos. Está na altura de ires ao notário para passares a casa para a herança – criticava a minha irmã durante a visita

Ó mãe, já tens 65 anos. Está na hora de ires ao notário e tratares do testamento da casa atirava-me a minha irmã quando veio cá a casa.

A semana passada, a minha mãe celebrou 65 primaveras. Nada de grandes festas, ela queria só um jantar sossegado, em casa, rodeada dos filhos. Eu apareci com um ramo bonito de rosas, um roupão fofinho e uns chinelos a condizer que remédio, não é? E ainda pus, discretamente, 200 euros num envelope. Pode sempre dar jeito.

Mas lá está, nem sempre tudo corre como planeado: a minha mulher e os miúdos não conseguiram vir. O nosso filho estava de cama, a filha tinha campeonato de ginástica e a Rita foi despachada à pressa para Lisboa pela empresa. Valeu o desenho gigante que os miúdos fizeram com toda a família ao pé da casa da avó. Menos mal, que a arte, às vezes, fala mais alto que as palavras.

Entretanto, lá apareceu também a minha irmã mais nova, a Vera:

Olha, esqueci-me de comprar qualquer coisa para a mãe… diz-lhe que o roupão é dos dois, combinado?

Está bem, mas vê lá esqueceste-te logo do aniversário da mãe, e ainda por cima sessenta e cinco!

Ó Zé, tu não sabes a vida que eu tenho no trabalho!

A Vera, coitada, nunca foi muito desenrascada. Teve uma filha com uns vinte anos, doutro estudante cá do bairro, que depois desapareceu e nem para pagar pensão serviu. Enquanto eu andava nas obras, mandava-lhe sempre uns trocos para as fraldas da pequena e mais uns iogurtes, já que ela vivia sempre à rasca.

Até lhe arranjei vaga no infantário para a Cristininha e um emprego numa lojinha que o Manel tinha à procura de funcionária. Estava tudo montado, mas a Vera aguentou lá três meses e, zás, saltou fora.

Agora vai vivendo de biscates: ora faz unhas num salão, ora põe pestanas a senhoras do bairro. No último verão, foi para França lavar pratos e deixou a filha com a mãe. Veio de lá ao fim de três meses só com sete centenas de euros. Gastou-os num telemóvel para ela e um portátil para a menina. Eu, para o mês, faço mais do que isso mas também não paro.

A mãe ficou radiante de nos ver. Fez doces que nem numa boda minhota, e ainda veio a vizinha e a tia Orísia para ajudar à festa.

O problema foi que acabámos em discussão, como quase sempre. À Vera, lembrou-lhe discutir a herança ali mesmo ao jantar:

Ó mãe, já decidiste a quem vais deixar a casa?

Ó filha, essas coisas falam-se depois… Logo dividem por igual.

Por igual?! O Zé já tem casa dele e negócio montado. Eu continuo a pagar renda! Para que é que ele quer a tua casa?!

Falava como se a nossa mãe já tivesse um pé no outro lado! E sem vergonha nenhuma, com as visitas ali.

Vera, deixa isso agora. Não estragues o dia.

Então e quando é que falamos? Ó mãe, já tens idade, não deixes isto para amanhã! Vai ao notário e faz a escritura em meu nome.

A tia até se engasgou com o chá, só de ouvir tamanha lata. Eu perdi a paciência e confesso, peguei-lhe pelo braço e levei-a para a cozinha:

Está tudo bem contigo? Tens noção do disparate que acabaste de dizer? Já estás a enterrar a mãe?

Não ponhas o nariz no que não te diz respeito! Fui eu que criei a minha filha sozinha, ao contrário de vocês…

Sozinha?! Já nem te lembras das vezes que eu te trouxe dinheiro e a mãe ficou meses a tomar conta da Cristininha? Dou-te um chega para te acordares, olha que ainda partes alguma coisa!

Ficou ofendida, como se fosse a maior injustiça do mundo. Pegou na filha e foi-se embora sem nem dizer adeus à mãe. Ainda teve lata de ameaçar-me com tribunal, como se eu dormisse menos por causa disso.

A minha mãe anda de coração nas mãos, coitada. A Vera proibiu a Cristininha de falar com a avó, não atende chamadas, faz fita… tudo por causa da casa. A mãe baba de saudades, chega a chorar e quase que lhe dá um fanico.

Não sei mais o que fazer com a minha irmã. Uma mulher feita, mas com atitudes de quem ficou presa aos quinze.

E vocês, digam lá: acham que devia ainda tentar fazer as pazes ou vou mas é tomar um café, que bem preciso?

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– Mãe, já tens 65 anos. Está na altura de ires ao notário para passares a casa para a herança – criticava a minha irmã durante a visita