“MÃE, ENCONTREI UMA AVÓ! ELA ESTAVA NA RUA A CHORAR!” — DISSE O MEU FILHO. NAQUELA ALTURA, EU AINDA NÃO SABIA COMO ESSA SENHORA IRIA TRANSFORMAR AS NOSSAS VIDAS…

“MÃE, ENCONTREI-NOS UMA AVÓ, ELA ESTAVA NA RUA A CHORAR!” DISSE O MEU FILHO. NAQUELE MOMENTO, NEM SEQUER FAZIA IDEIA DE COMO AQUELA SENHORA IA VIRAR O NOSSO MUNDO DE PERNAS PARA O AR…

A sola das botas do Tomás, o meu filho de seis anos, decidiu arranjar vida própria e descolar-se logo nas únicas botas decentes para o outono. Veio da escola a arrastar o pé, com um andar meio cómico o típico estilo não quero que isto caia de vez. Eu, a mãe, comprei aquelas botas o mês passado e ele ficou triste, parecendo quase culpado pela tragédia do calçado. Sabia bem como a mãe andava sempre a correr entre dois turnos, terminando o dia a dormir ainda vestida no sofá. Não ia ralhar, coitado, mas ele sentia-se responsável “não consegui cuidar!”

O miúdo sentou-se no banco da paragem de autocarro a experimentar pressionar a sola, na tentativa de salvar as botas, quando ouviu um soluço baixinho. No extremo do banco, uma senhora de cabelo curto, muito arranjada no seu casaquinho, chorava baixinho em silêncio. Logo ali, uma grande mala de xadrez fazia-lhe companhia. Ela, vermelha de tanto chorar, tremia, apesar de nem estar assim tanto frio.

Tomás esqueceu-se do drama das botas. Aproximou-se devagar e tocou-lhe no braço:

A avó também ficou sem sola na bota? perguntou-lhe, compenetrado.

A senhora sobressaltou-se, olhou para aquele rapazito despenteado e deixou escapar um sorriso triste:

Oh, não, filho. O que se estragou foi mesmo a minha vida inteira… abriu-se toda, como uma costura mal feita

Chamava-se Nazaré Fernandes e tinha sessenta e oito anos. Trabalhou a vida toda como enfermeira, criando sozinha o filho, Hugo. Quando o filho casou, a Nazaré aceitou a nora como se fosse dela. Um mês atrás, Hugo apareceu-lhe todo convencido: Oh, mãe Bora vender o teu T2, juntamos os nossos tostões e compramos uma vivenda enorme! Vivemos juntos, ficas no campo, tratas do jardim Nazaré ficou radiante! Finalmente, uma família grande, alegre era o seu sonho.

A casa vendeu-se num ápice. O dinheiro? O filho foi logo tratar de tudo. E hoje de manhã enfiaram-na no carro, malas atrás, deixaram-na naquela paragem nos arrabaldes da Amadora e a nora, de sorriso gelado, avisou: Espere aqui só um bocadinho! Vamos buscar uns papéis e já vimos buscá-la. Claro que nunca mais apareceram. Ali ficou Nazaré, seis horas à espera, até perceber que não ia voltar ninguém. O telemóvel do filho? Desligado. O filho, carne da sua carne, atirou-a para a rua como quem despeja móveis velhos e ficou com tudo.

Não vão voltar?! abriu muito os olhos o Tomás. Mas não se abandona uma avó como um sofá velho! Venha lá para casa. Não temos mais que um quarto, mas a minha mãe é de coração grande e há sempre espaço! A mamã anda triste muitas vezes, mas é boa. O meu pai, bem só aparece quando se estica na bebida, grita e leva o dinheiro da mamã toda. Depois ela chora. Pronto, venha, eu falo com ela!

Nazaré hesitou, mas não tinha para onde virar. Dormir na rua, àquela idade, era condenar-se. Lá seguiu Tomás, desajeitado, com Nazaré atrás arrastando a mala.

A mãe do Tomás, a magra e cansada Céu, com umas belas olheiras de fazer inveja a qualquer coruja, quase caiu para o lado ao ouvir a história.

Valha-me Deus, como é possível alguém fazer isto à própria mãe? exclamou, já a pôr a água ao lume para o chá. Fique, D. Nazaré. Fique connosco.

Nazaré ficou. E mal pôs os pés naquela casa minúscula, tudo mudou. De repente, ao chegar do trabalho, a Céu já encontrava a casa a cheirar a pastéis de nata acabados de sair do forno, um tacho de sopa a fumegar, o chão impecável E Tomás até fazia os trabalhos de casa sossegado. As botas? Nazaré tentou salvar passando no sapateiro, pagou com um restito da sua pensão, que, milagrosamente, ainda tinha num cartão enquanto o filho não pensou em levar isso também.

Pela primeira vez em anos, Céu começou a sorrir. Ganhou cor, parou de estremecer a cada barulho, e até se deu ao luxo de comprar um vestido novo! Tornaram-se mesmo uma família.

Mas, como nas telenovelas, veio a tempestade: numa noite, uma pancada violenta à porta. Era o ex-marido da Céu, Jorge. A Céu empalideceu, abraçou-se ao Tomás.

O Jorge, de copo cheio, nem perdeu tempo, empurrou a porta e gritou:

Anda daí, mulher, passa-me cá o dinheiro! Sei bem que recebeste o subsídio!

Antes que a Céu abrisse a boca, veio Nazaré da cozinha, de olhar de quem não tem mais nada a perder, empunhando uma frigideira de ferro.

Saia já, grande urso! disse num tom cortante de meter respeito. Da próxima, vai ao hospital é com a frigideira marcada na testa e ainda o vou apresentar ao polícia do 2º direito, que já é meu amigo!

O Jorge ficou sem palavras. Acostumado a uma Céu apagada, aquilo foi quase um filme de terror uma senhora de ferro disposta a usá-lo, literalmente. Recuou, tropeçou no tapete e acabou a cambalhotar escada abaixo.

Nazaré, como se nada fosse, fechou a porta, voltou a chave, e sorriu para a Céu:

Agora vamos lá comer uma fatia de bolo de maçã com o nosso chá.

Tomás olhava para a nova avó com olhos de super-herói.

Mãe sussurrou, puxando a manga da Céu não fui genial em encontrá-la na rua? Agora ninguém se mete connosco!

A Céu abraçou-se ao filho e chorou mas, desta vez, chorou de felicidade a sério.

E vocês, acham acertado abrir as portas de casa a uma desconhecida? E será que o filho da Nazaré vai sentir o efeito bumerangue depois de tão grande traição?

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“MÃE, ENCONTREI UMA AVÓ! ELA ESTAVA NA RUA A CHORAR!” — DISSE O MEU FILHO. NAQUELA ALTURA, EU AINDA NÃO SABIA COMO ESSA SENHORA IRIA TRANSFORMAR AS NOSSAS VIDAS…