Luta Diária: Quando a Pia Fica Cheia e a Paciência se Esgota

Nicolau estava a lavar a loiça. Três dias a adiar, mas já não havia nem uma chávena nem um prato limpo. Assim, quando chegou do trabalho, nem se trocou. Colocou um avental e começou o trabalho. Queria até cozinhar um caldo verde, porque já nem se lembrava do sabor…

Os restos de comida estavam tão agarrados aos pratos que precisavam de ser demolhados. E as chávenas de café, umas dez. Será que não dá para lavar uma de cada vez? Um nó apertado formou-se na garganta. Tinha fome e o frigorífico estava vazio. E de repente, Nicolau sentiu o cheiro dos pastéis de Chica. Na casa deles, havia sempre o aroma da confeitaria, porque a esposa adorava cozinhar. Mal chegava do trabalho, já a cozinha cheirava a canela. Ou a baunilha. Já o misturador fazia barulho e o forno aquecia…

Mas o Nicolau de agora lembra-se assim, bem da esposa. O Nicolau de antigamente achava que ela não via nada além da cozinha e das crianças (o trabalho não contava). Para ela, era sempre a lavar roupa, a limpar janelas ou a aspirar tapetes. Do verão ao outono, a cozinha transformava-se numa fábrica de conservas. Nicolau não conseguia levar os frascos para o porão rápido o suficiente.

Numa dessas noites, ele chegou do trabalho, e na cozinha de Chica, como sempre, algo estava a ferver, e ela, sentada na beira da mesa – tinha este hábito péssimo – descascava maçãs e assistia a um concerto na televisão.

– Vou me divorciar de ti, – disse Nicolau surpreendentemente calmo, sem sequer cumprimentar.

A esposa estremeceu, mas não se virou.

– Tenho outra mulher, – explicou. – Estou apaixonado por ela e não posso mais te enganar.

Chica pousou a faca, virou-se lentamente para o marido com o rosto ruborizado do vapor e da notícia e disse docemente:

– Leva um pastel, porque são muitos.

Claro, Nicolau não levou o pastel, embora adorasse: com nozes e doce de leite… Pegou apenas o essencial e foi ter com uma mulher que não se parecia em nada com a sua Chica. Ela nunca usava, como Chica, jeans – só vestidos curtos e saias. Não usava ténis, só sapatos de salto alto. Dizia que ia ao salão de beleza como se fosse a uma importante reunião de negócios. E o mundo teria que esperar.

Chica nunca ia a salões. Não gostava de passear por lojas ou feiras. Quando precisava de algo, fazia uma lista e pouco depois voltava com sacos. Não lia revistas de moda, não bebia café, não pintava o cabelo, não fazia ginástica. Mas estava sempre linda, cuidada e esbelta. Com roupas justas e cabelo entrançado, parecia uma adolescente.

Mas Nicolau queria ao lado uma mulher verdadeira. E encontrou a Olívia. Agora ele mesmo passa a ferro as suas camisas, cozinha as suas refeições e lava a loiça. E à noite sonha com os doces e as tartes de Chica. Esses sonhos cheiram a baunilha e têm o riso de Chica…

Depois de pôr a cozinha em ordem, Nicolau foi para a sala. No sofá estava Olívia, deitada, apoiada nos cotovelos graciosamente. À sua frente havia uma revista e na mesa ao lado estavam mais três chávenas de café.

– Meu querido, que maravilha! O que faria eu sem ti? – cantou a esposa, estendendo os braços para ele. – Acabei de sair da manicura. Tão cansada! Vê só: não são unhas fantásticas? Parecem mesmo reais, certo? Vem cá, querido, deixa-me abraçar-te…

Nicolau sentiu-se mal. “Deve ser de fome”, pensou ele, e foi para a cozinha descascar batatas.

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