Jovem sofisticada empurra um cão abandonado para dentro do carro e parte. Mas quem poderia imaginar?

Já viste em que é que ela veio hoje? Dizem que foi o pai que lhe ofereceu no aniversário.

E a mala? Aposto que custa uns dez mil euros!

Esquece a mala. Olha mas é para as unhas dela só aqueles brilhantes devem valer tanto como a minha bolsa de estudo mensal!

Marisa fez uma careta enquanto ouvia o burburinho das colegas. Beatriz Figueiredo, filha única de um conhecido promotor imobiliário do Porto, como de costume, sentava-se sozinha na última carteira, distraída a percorrer qualquer coisa num telemóvel dourado.

Os longos cabelos loiros caíam-lhe sobre os ombros em caracóis perfeitos, e a maquilhagem irrepreensível dava-lhe um ar de boneca de porcelana cara.

O que é que ela terá na cabeça?, pensou Marisa, lançando-lhe um olhar furtivo. Em dois anos de faculdade, Beatriz não gastou com ninguém mais do que algumas dezenas de palavras. Aparecia nas aulas em carros de luxo que pareciam mudar todos os meses, despachava os exames com excelentes notas e desaparecia, sem nunca se envolver na vida de estudante.

Aposto que só pensa em compras e marcas, resmungou Catarina, a melhor amiga de Marisa, percebendo o olhar dela. Uma betinha a típica. Ontem até a ouvi ao telefone, era só Paris para aqui e Milão para ali!

Marisa assentiu, mas algo dentro dela resistia a essa explicação tão simples. Por vezes, via nos olhos de Beatriz uma expressão estranha, como se olhasse através de todos, a pensar no que ninguém imaginava.

Lembras-te quando ela fez aquela apresentação sobre o impacto humano nas populações de animais selvagens? lembrou-se Marisa, de repente. Tema estranho para uma betinha, não?

Chance zero, desdenhou Catarina. Aposto que foi alguém do staff do pai que lhe preparou aquilo. Ela só pintou os lábios e foi ler.

Mas Marisa recordava o momento. Recordava como os olhos de Beatriz brilharam quando falou dos animais abandonados, como a voz lhe tremeu ao apresentar os números do abandono em Portugal. Naquele instante, foi quase outra pessoa viva, tão verdadeira.

Depois voltou a pôr a máscara da indiferença.

O encontro inesperado aconteceu numa friorenta noite de novembro. Marisa saiu a correr do shopping, com um saco das compras apertado ao peito, e ficou paralisada.

Mesmo à entrada, de cócoras, Beatriz Figueiredo alimentava um enorme cão de rua. Os dedos perfeitos, decorados com verniz cintilante, partiam com cuidado fatias de fiambre. O cão sujo, com o pêlo emaranhado e a coxear de uma pata devorava o petisco com avidez.

Calma, calma, não te engasges murmurava Beatriz, agora com uma voz surpreendentemente terna. Já não comias há muito, não era? Eu sei.

O vento batia-lhe no casaco caro, mas ela parecia não notar. Nem o frio, nem o chão sujo das calças.

E então tudo fez sentido para Marisa. Desaparecimentos das aulas, saídas misteriosas, telefonemas urgentes. Lembrou-se de já ter visto, de relance, um pacote de comida para cães na mala de Beatriz. Nunca ligou importância talvez tivesse um cão de raça em casa.

Depois de dar todo o fiambre, Beatriz pegou com delicadeza na cabeça do animal:

Sabes, eu percebo o que sentes. Sentes que ninguém vê quem tu és a sério, não é?

O cão soltou um ganido suave.

Lembro-me de pedir tantas vezes um cão aos meus pais, quando era miúda continuou ela, quase como se falasse sozinha. E o pai só dizia: Para quê, filha? Se quiseres, compro-te um cão de raça, com pedigree. Mas eu só queria um amigo de verdade. Um que gostasse de mim pelo que sou, não pelas prendas.

Marisa sentiu um nó na garganta. Viu ali não uma princesa de capa de revista, mas uma rapariga solitária, escondida atrás de um escudo de perfeição.

Chega de tristeza! anunciou Beatriz, erguendo-se e sacudindo o casaco. Vamos embora.

Para espanto de Marisa, o cão foi atrás dela, mancando. Sem hesitar, Beatriz abriu a porta traseira do carro impecável.

Anda, amigo. Vamos ao veterinário e depois logo se vê.

O que estás a fazer?! escapou-se a Marisa.

Beatriz olhou para trás e os seus olhos cruzaram-se com os de Marisa. Não havia ali embaraço nem desafio apenas uma tristeza funda e coragem?

Estou a fazer o que acho certo, respondeu, ajudando o cão a entrar. Às vezes é preciso apenas sermos nós próprios, mesmo quando esperam outra coisa de nós.

Sentou-se ao volante e partiu, deixando Marisa confusa e inquieta.

Na manhã seguinte, Beatriz não apareceu na faculdade. Nem no dia seguinte. Marisa dava por ela a olhar para o lugar vazio na última carteira, sempre a pensar: onde terá ela levado aquele cão?

À sexta-feira, a curiosidade venceu. Depois das aulas, abordou António, um dos poucos que falava com Beatriz.

Sabes da Beatriz? Não a vejo há dias.

Ninguém sabe, encolheu os ombros António. Dizem que foi para o estrangeiro. Mas tenho ouvido dizer que o carro dela anda parado para os lados das antigas fábricas.

Marisa lembrou-se então de uma chamada que captou ao passar: Agora não posso ir, pai. Tenho coisas importantes para fazer. Sim, mais importantes do que o desfile em Milão!

Como um puzzle a encaixar-se, tudo começou a fazer sentido.

Uma hora depois, Marisa chegava a um bairro industrial do Porto. Nem sabia bem o que fazia ali já tinha passado uma semana desde aquele episódio. Mas algo dentro dela afirmava que era o sítio certo.

Ao chegar, reconheceu o carro de Beatriz. Do recinto das traseiras vinham latidos animados.

Marisa espreitou por trás de um muro e ficou imóvel. No terreiro, dezenas de cães corriam, brincavam, deitavam-se ao sol. Grandes e pequenos, uns bem tratados, outros ainda magros. Ao centro, Beatriz de calças de ganga simples e um velho casaco, o cabelo preso num rabo-de-cavalo distribuía ração por tigelas.

Já sabia que ias descobrir mais cedo ou mais tarde disse ela, sem se virar.

Há quanto tempo isto dura? balbuciou Marisa.

Quase um ano, sorriu Beatriz, acariciando um cachorro ao colo. Comecei só a alimentar cães na rua. Depois tratei alguns doentes. Até perceber que precisavam de um abrigo. O pai deu-me dinheiro para um carro novo comprei este armazém. As obras fui eu que fiz, para aí todo o verão metida aqui.

Então era por isso que nunca ias sair connosco?

Exato. Estas roupas caras, os carros, as festas não sou eu. Era o sonho do pai, não o meu. Aqui sou verdadeira.

Beatriz virou-se e Marisa percebeu, finalmente, que aquele ar ausente era, na verdade, um reflexo de amor profundo por todos aqueles que ninguém quis.

O cão do shopping já tem dono, sorriu Beatriz. Aliás, quase todos aqui acabam por encontrar uma casa. Se contarmos as suas histórias, sem mentir sobre pedigree. Precisamos é de mais gente a ajudar alinhas?

Marisa, perante aquela Beatriz desconhecida mas autêntica, sentiu vontade de ficar. De fazer parte daquele pequeno milagre.

Então por onde começamos?

Começaram as duas. O tempo passou depressa. Marisa ia todos os dias ao abrigo, conheceu cada cão, tornava-se cada vez mais próxima de Beatriz.

Percebeu que por trás do estereótipo de menina mimada estava alguém generoso. Beatriz não só sustentava o abrigo com o próprio dinheiro, como mantinha uma página nas redes sociais onde contava as histórias dos patudos, honestamente, sem floreados.

As pessoas precisam de saber que vão adotar um amigo, não uma coisa, explicava ela. Assim são melhores donos.

Numa noite, as duas relaxavam num velho sofá. Lá fora, chovia. Os cães dormiam, silenciosos.

O meu sonho era montar um verdadeiro abrigo, grande, moderno, com equipa veterinária disse Beatriz, baixinho. Para cães, para gatos, com área de recuperação.

Porque não agora? Tens meios para isso.

O meu pai a voz dela tornou-se triste. Acha que isto são devaneios. Só quer que eu siga a empresa. Nem sabe do abrigo, pensa que gasto tudo em roupa.

O telemóvel tocou. Pai no ecrã.

Agora não posso, pai. É mesmo importante.

Marisa viu-a tremer e fez-se corajosa:

Se calhar devias contar-lhe. Mostrar-lhe isto. Ele pode querer ver-te feliz.

Beatriz ficou pensativa, depois acenou.

Tens razão. Mas preciso de ti amanhã. Não quero estar sozinha quando lhe mostrar tudo isto.

Claro que sim. Ele não te vai julgar. Isto é um projeto tão importante como qualquer negócio.

Beatriz abraçou-a com força.

No dia seguinte, Beatriz ligou ao pai. Marisa assistia, nervosa, aos preparativos.

Quando um Mercedes reluzente entrou pelo portão, Beatriz empalideceu, mas ergueu-se, resoluta.

O senhor Figueiredo, altivo, olhou em redor.

Portanto é aqui onde passas o tempo

É, pai. Este é o meu abrigo. Tratamos destes cães, arranjamos-lhes família, damos-lhes uma segunda oportunidade.

Fazes isto sozinha?

Com voluntários amigos. Pai, não é uma perda de tempo. Vem, quero mostrar-te.

Beatriz explicou tudo a cada cão, cada história de superação, o sonho de construir algo maior. Marisa notou o olhar fechado do pai a suavizar-se.

Então, um dos cães mais velhos, o Tuga, mancando, foi encostar-se às pernas do senhor Figueiredo.

Estranho igualzinho ao meu Neco, quando eu era rapaz.

O Neco? Falavas tanto dele!

Salvaram-me de uns miúdos no bairro, nunca esqueci aquele cão. O homem agachou-se e acariciou o Tuga. Sempre quis montar um abrigo, mas a vida os negócios

Endireitou-se, olhando com orgulho para Beatriz.

Acredita, tens tudo para fazer disto uma referência. Mostra-me os teus projetos pode ser um bom investimento.

Seis meses depois, o Amigo Leal abriu portas nos arredores do Porto um centro novo para acolher animais, com espaço, uma clínica veterinária e voluntários. Na inauguração, Beatriz e o pai cortaram juntos a fita, ambos descontraídos.

Sabes, disse Marisa a sorrir, conseguiste o que o teu pai tanto queria: és uma empresária de sucesso. Mas à tua maneira.

Beatriz espreitou o pai, agora a exibir orgulhoso o projeto à imprensa.

Sim, só era preciso coragem para mostrar quem sou de verdade.

Acariciou o Tuga, sempre ali ao lado:

Não é, amigo?

O cão latiu feliz, e todos sorriram.

Assim terminou a história da rapariga que escolheu ser autêntica. E das surpresas que podem existir por detrás de qualquer aparente fachada basta dar uma oportunidade ao que é genuíno para aparecer.

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