Jamais esquecerei a noite em que a minha sogra decidiu oferecer-me algo “muito especial”.

Nunca vou esquecer aquela noite em que a minha sogra decidiu dar-me algo muito especial. Era uma terça-feira tranquila e na velha cozinha pairava o cheiro a pão acabado de sair do forno. Cheguei mais cedo do trabalho e organizava as louças quando o meu marido, Rui, disse que a mãe dele ia passar lá em casa um instante.

Só vem deixar uma coisa acrescentou ele.

O tom dele era estranho. Um pouco tenso. Um pouco culpado.

A minha sogra, Dona Amélia, chegou dez minutos depois. Trazia uma caixinha envolta num papel castanho gasto, como se guardasse um verdadeiro tesouro.

Trouxe-te uma prenda disse ela.

Olhei para o Rui. Ele encolheu os ombros e fingiu estar absorvido pelo telemóvel.

Para mim? perguntei.

Claro respondeu ela com um sorriso. Agora és da família.

Essa frase, dita por ela, era sempre estranha para mim.

Sentámo-nos na sala. O candeeiro lançava uma luz quente sobre a velha cristaleira, onde repousava uma fotografia amarelada do casamento do Rui.

Abre insistiu a Dona Amélia.

Desfiz cuidadosamente o molho de papel e saquei uma pequena caixa de metal. No interior estava uma chave antiga.

Fiquei a olhar para ela, sem perceber.

É a chave da arrecadação do prédio explicou.

Fiquei sem palavras. Não entendi logo o significado.

E então?

A Dona Amélia recostou-se um pouco mais e sorriu de lado.

Acho que era melhor começares a guardar lá algumas das tuas coisas.

Fez-se silêncio.

Mas que coisas, Senhora Dona Amélia?

Ela encolheu os ombros.

As tuas tralhas. O apartamento não é grande.

Olhei para o Rui. Ele estava de pé junto à janela a olhar para a rua lá em baixo.

Rui? murmurrei.

Ele suspirou lentamente.

A minha mãe só pensa no lado prático das coisas.

Nesse instante, senti-me a partir por dentro.

Prático? repeti. Ou seja, já não posso ter as minhas coisas aqui?

A Dona Amélia fechou a boca com firmeza.

Não dramatizes também. Só precisamos de mais espaço.

Olhei para a chave, que parecia ainda mais velha e enferrujada na minha mão.

De repente lembrei-me. Há dois meses tinha dito algo semelhante à nora da vizinha. Uma semana depois, ela foi-se embora.

O meu coração apertou-se.

Isto é a sua maneira de me dizer que não me quer aqui, é?

Não disse nada disso respondeu ela, muito calma. Só dou uma solução.

O Rui acabou por se virar para nós.

Se calhar estamos todos a exagerar…

Fixei-o. Seis anos de casamento, e ali estava ele, espectador entre nós duas.

Rui disse, baixinho. Concordas com isto?

Demorou a responder. E foi só depois de um longo silêncio:

Só não quero discussões.

Aquelas palavras doeram-me mais do que tudo.

Levantei-me do sofá e deixei a chave sobre a mesa, ao pé da velha fotografia.

Sabem o que acho estranho? perguntei.

A Dona Amélia olhava-me intensamente.

As pessoas acham que quem é calado aguenta tudo.

Abri a porta do corredor e agarrei o meu casaco.

Para onde vais? perguntou o Rui.

Para um sítio onde ninguém me coloque na arrecadação como um caixote.

Ele quis seguir-me.

Não precisamos entrar por aí agora.

Olhei-o de frente.

Pelo contrário. Agora mesmo é que precisamos.

Dona Amélia soltou uma risada seca.

Sempre com as tuas novelas…

Virei-me para ela.

Não. Novela é tentarem apagar a minha existência da minha própria vida.

Abri a porta da entrada e saí para a escada.

Atrás de mim ficaram o silêncio, a chave velha e uma fotografia de família onde todos fingíamos sorrisos.

Às vezes, o sinal mais claro de que não pertencemos é o presente que nos dão.

Digam-me sinceramente se vos dessem uma chave para a arrecadação em vez de um lugar ao vosso lado… ficavam?

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Jamais esquecerei a noite em que a minha sogra decidiu oferecer-me algo “muito especial”.