Já Não Restam Esperanças

Esperança já não há

Não quero o seu dinheiro! disse Rita, aborrecida, atirando as notas amarrotadas para o chão.

Olhe que o dinheiro é seu respondeu calmamente a dona do apartamento. E sinceramente, eu não tenho culpa do que aconteceu. Se faz favor, não faça escândalos, que ainda acorda os vizinhos.

Rita lançou um olhar furioso à mulher que estava à porta, virou costas e seguiu rapidamente para as escadas.

Mal saiu do prédio, sentiu tudo escurecer à sua volta. Arrastou-se até ao banco que havia ali perto e sentou-se, escondendo o rosto nas mãos. Chorou baixinho, quase sem se ouvir. E remoía-se de culpa pelo que fizera:

«Se eu soubesse que isto ia acabar assim, nunca tinha ido a esse casamento!»
*****

Ritinha, vou casar! anunciou-lhe ao telefone a amiga Gracinda. O casamento é daqui a um mês. E depois ainda temos o copo dágua e tudo! Vens, não vens?

Parabéns, Gracinda, fico mesmo feliz por ti! Mas Rita suspirou profundamente.

Pronto, então diz lá!

Desculpa, mas acho que não vou conseguir ir. Gostava muito, acredita mas

Como assim não vais? Na voz de Gracinda ouvia-se genuino espanto. Somos amigas desde a escola primária, passámos pelas passas do Algarve juntas e agora não vais ao meu casamento? Estás a brincar?

De maneira nenhuma te quero magoar! Só que aquilo vai durar para aí três dias, não é?

Pois claro! Três dias, vá, pede folga no trabalho, não tens problema.

O problema nem é o trabalho É o Eusébio.

O Eusébio?

O meu gato, ora. Não tenho a quem o deixar, e levá-lo comigo também não dá, percebes… Por isso

Nada disso, mulher! Tens de vir, pelo menos por mim! Arranja alguém que o fique a tomar conta, ou então mete-o num hotel para animais, há disso para aí. Se for preciso, eu própria ajudo a procurar.

Não sei, Gracinda

Tens um mês, ouviste? Não me falhes, não admito outra coisa!

Depois da chamada, Rita ficou pensativa. Por um lado, não queria aborrecer a melhor amiga. Por outro, o Eusébio deixá-lo sozinho era impensável.

Ele era um gato sociável, daqueles que ficava deprimido logo na primeira noite sozinho. Nunca na vida o deixaria só, mesmo com o stock de ração e água de um mês.

Pensou, voltou a pensar, até que decidiu: ia ao casamento, sim senhor. Para o Eusébio, arranjou uma senhora recomendada do bairro, Dona Manuela Alves, que fazia serviço de pet-sitting para gatos viu o anúncio na internet.

Leu todos os comentários antes de lhe ligar. A maioria dizia maravilhas, muita gente já lá tinha deixado os bichanos, e até referiam que Dona Manuela tinha sido enfermeira veterinária. Disso, Rita gostou mesmo: caso algo corresse mal, saberia cuidar.

A casa era um T3, com um quarto inteiro só para os gatos. Rita gostou logo do ambiente limpo, cheiro a ração, tudo arrumadinho. E Dona Manuela era simpática, faladora.

Estavam lá uns quatro gatos, por isso o Eusébio até ia ter companhia para brincar e nem notava a ausência da dona.

Vá, Eusébio, porta-te bem, está bem? Só são três dias Rita agachou-se e o gato ronronou-lhe nas pernas, olhar suplicante de quem queria colo.

Não se preocupe, menina, ele vai ficar óptimo garantiu Dona Manuela com um sorriso largo.

Espero bem que sim. Olhe, aqui tem o pagamento Rita estendeu-lhe duas notas de vinte euros. Qualquer coisa, ligue-me, por favor.

Claro, não se preocupe.

*****

Três dias voaram.

Gracinda estava radiante, Rita contente por ver a amiga dar o nó. O noivo parecia boa pessoa, daqueles que sabem fazer arroz de marisco.

Mas, verdade seja dita, Rita só pensava no Eusébio. Ligava todos os dias a Dona Manuela.

Boa noite, como está o meu Eusébio? Não lhe está a causar problemas, pois não?

Boa noite, Rita. Está tudo óptimo. Come bem, vai à casa de banho direitinho. Vai vir buscá-lo daqui a três dias, certo?

Sim… porque pergunta?

É só para confirmar, sabe? Há quem prolongue, e eu tenho de saber por causa de outros bichos. Mas não se preocupe.

Não, daqui a três dias, garanto. Por mais tempo nem conseguia, tenho tantas saudades dele.

Quando finalmente regressou a Lisboa, Rita ligou à Dona Manuela a avisar que ia buscar o gato.

Está bem cá espero suspirou a senhora do outro lado, num tom esquisito que deixou Rita com a pulga atrás da orelha.

«Ora bolas, estou para aqui a magicar só porque ela suspirou… O que podia ter corrido mal?»

Mas a angústia aumentava.

Ao chegar, bateu à porta. Dona Manuela olhou-a meio aflita.

O seu gato… fugiu.

O quê?! Como?!

Os vizinhos começaram obras, aquele barulho horrível. Os gatos assustaram-se. Fui pedir para fazerem menos barulho, e assim que abri a porta, o Eusébio pirou-se para o corredor das escadas. Nem vi como foi.

E porque não me ligou logo? Está a brincar comigo? gritou Rita.

Pensei que o encontrava sozinha! Já me aconteceu outras vezes, sempre os encontrei Publiquei logo no Facebook, mas até agora nada. Mas ainda vai aparecer, verá.

Não me diga para não desesperar! Jurou-me que cuidava bem dele!

Se quiser, devolvo-lhe o dinheiro.

Quero lá saber do dinheiro! exclamou Rita, atirando as notas já inúteis para o chão.

Essas são suas, lembre-se respondeu a senhora. E sinceramente, a culpa não foi minha. Não vale a pena esse escândalo, os vizinhos não têm de ouvir isto, pois não?

Rita lançou-lhe mais um olhar feroz, esgueirou-se pela escada abaixo e saiu porta fora.

Na rua, as pernas tremiam-lhe. Sentiu-se perdida. Sentou-se no banco da praça, as lágrimas a cair-lhe, sem conseguir acreditar na tragédia: “Para que fui a esse casamento? Porque é que deixei o Eusébio?”
Pensou logo naquele dia em que o tinha encontrado.

Também estava a chegar a casa depois de mais um interminável dia de trabalho, era véspera de passagem de ano 30 de Dezembro. Fora aí que, do nada, um pequeno novelo de pelo laranja saltou-lhe para as pernas.

Assim, sem mais nem menos, trepou-lhe pelas calças de ganga acima e foi parar-lhe às mãos.

Que raio! sorriu Rita, derretida. E, sem bem saber porquê, levou o gato para casa.

Passaram juntos o Ano Novo, os feriados, os fins de semana Ela ia dizendo à mãe:

Ó filha, arranja antes um namorado, não é gatos da rua! brincava Dona Rosa.

Olha, saiu-me o gato primeiro. O namorado, se vier, que saiba que é o número dois Rita ria.

No trabalho, partilhou a história com as colegas.

Meninas, aposto que os gatos têm radar: decidem aparecer sempre em dia de chuva ou vento, surgem de lado nenhum, olham-nos com uns olhos que pedem: “Leva-me contigo!” E pronto, já fomos, já temos um gato!

Rita, tu devias era escrever livros! riram as amigas.

Ninguém ali compreendia esse amor avassalador pelos gatos. Ainda. Porque «ainda» era palavra-chave.

Com a chegada do Eusébio, a casa de Rita ficou forrada… a pêlo, claro, mas também cheia de calor e aconchego.

Todos os dias, ao chegar, lá estava o bicho a miar-lhe pela porta, a esfregar o focinho peludo nas pernas dela, doido por um colinho no sofá ou, melhor ainda, para dormirem juntos na cama.

Agora, ninguém a esperava. Não havia ronronar na sala. Eusébio, o seu Eusébio, desaparecera.

Ou melhor, esperava que estivesse por aí, algures.

Mas onde? Não fazia ideia.

Não posso ficar parada! decidiu-se Rita, limpando os olhos. Tenho de o encontrar!

*****

Alô! Encontraram-no?! exclamou Rita, quase a gritar, assim que um dos muitos voluntários lhe ligou.

Talvez Uma senhora encontrou um gato igualzinho à descrição do seu Eusébio. Mandei-lhe a morada por mensagem, ela está à espera.

Muito, muito obrigada!

Rita agradecia de coração às pessoas que se envolveram na busca. Por si só, nunca teria conseguido metade.

Há mês e meio que andava nisto, em grupos de Facebook e foruns de animais perdidos. E, claro, as poucas fotos que tinha do Eusébio eram de quando ele era um bebé, nada actual.

Ao chegar ao prédio da senhora, Rita tocou à porta cheia de esperança.

Mas… não era o Eusébio. Parecido, mas não era. Lágrimas a quererem sair de novo.

Fique com ele murmurou a dona do gato, abraçando o bichano. E a si, menina, desejo-lhe boa sorte. Vai encontrá-lo, não desista, está bem?

Rita sorriu amarelo e saiu, sem querer chatear a boa da senhora com o seu mau humor.

Durante os meses seguintes, este filme repetiu-se. Tocavam-lhe, ela lá ia ver outro gato laranja, sempre convencida que desta vez era o certo e nunca era.

Filha, eu entendo, adoravas mesmo o Eusébio dizia-lhe Dona Rosa ao telefone. Mas tens de seguir em frente. Vem cá à aldeia, que a gata da vizinha teve uma ninhada, há para aí uns três ou quatro ruivos…

Obrigada, mãe mas outro não.

Passaram seis meses. Eusébio, nem vê-lo. Rita já só rezava para que ele estivesse vivo, mesmo longe dela.

*****

Como continuar a viver? Não sabia. Sentia-se completamente culpada. Bom, por causa de um casamento? Para quê foi? Se não fosse, nunca teria deixado o Eusébio em casa alheia. Agora nem sabia se estava vivo.

Nos fins-de-semana, incapaz de ficar em casa, onde tudo lhe lembrava o gato, Rita vagueava por Lisboa, entrava em quintais, espreitava por baixo dos carros. Já nem acreditava que o encontraria. Mas ia.

Um dia, deu por si às portas do Canil e Gatil Municipal, já fora do centro da cidade. «Se calhar a mãe tem razão devia trazer outro gato?» pensou.

Mas logo afastou a ideia.

«E se o Eusébio aparecer? O que iria ele pensar? Que o esqueci?» Estava prestes a afastar-se quando uma funcionária apareceu.

Bom dia, precisa de ajuda?

Rita hesitou.

Se está só a ver, venha. Não custa nada e talvez algum o cative, quem sabe!

Rita não queria, mas não conseguiu recusar.

Este é o Tobias. Ali ao fundo está o Fado. Tão bonitos, não são?

São, sim.

Entretanto, ali entre os cães e os gatos, sentiu-se mais leve. Como se aqueles olhares miúdos, cheios de esperança, lhe restituíssem algum alívio, mesmo sem ela perceber bem como.

E, ali, quem mora? perguntou, apontando para o último cercado.

Ah, esse é o nosso gato eremita. Ninguém lhe consegue chegar perto. Chegou há meio ano muito maltratado, tratámo-lo, mas nunca nos fez confiança.

Senti um aperto no peito.

Posso… posso vê-lo?

Vamos.

Quando se aproximaram, o gato laranja virou ostentativamente as costas, todo indignado.

Eis o nosso solitário. Faz sempre isto, nunca…

Mas Rita já não a ouvia. Só via e via o gato.

Eusébio? arriscou, baixo. Eusébio, és tu?

O gato virou-se devagar e olhou-a de lado.

«Devo estar a ver coisas»

Eusébio! gritou, desta vez com convicção. És tu! Vem cá, anda!

O gato não se mexeu. Apenas fixava-a, hesitante.

«Ela voltou? Ou vai-me voltar a largar?»

Lá da sua sabedoria felina, Eusébio ponderou E saltou para ela, num abraço apertado.

A funcionária rapidamente abriu o portão. Todos ficaram a olhar: Rita de joelhos no chão, o gato em cima dela, o mundo no seu devido lugar outra vez. Até as nuvens pararam um bocadinho para espreitar. E o sol sorriu.

Rita prometeu ajudar o canil dali para a frente, afinal, tinha-lhe salvo o Eusébio.

*****

No táxi para casa, Eusébio ia a ronronar desalmadamente, saltando do banco para o colo, como que a contar tudo:

«Que susto aquele barulho, e tu não estavas Fugi a pensar que te tinha de encontrar. Mas enfiei-me debaixo de um carro, magoei-me. Passou-se tanto, tanto, mas tu vieste Vais deixar-me outra vez?»

Parou de ronronar, olhou Rita nos olhos miudinhos e ela respondeu:

Nunca, Eusébio. Nunca.

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