Já chega das atitudes da tua mãe! Vou pedir o divórcio, acabou, ponto final! — disse-lhe a minha mul…

Já não suporto mais as atitudes da tua mãe! Vou pedir o divórcio, está decidido! disse-lhe, numa voz sem volta.

Lembro-me bem daquela noite em que a chave rodou na porta mesmo enquanto limpava os últimos vestígios da visita dela. Migalhas dos biscoitos de manteiga que ela trouxera “especialmente para o neto”, apesar de o Rodrigo ter apenas um ano e não poder comer tanto doce. Uma nódoa de café na mesa, porque ela, sempre que começava a gesticular a criticar o modo como crio o meu filho, acabava por virar a chávena.

Olá a voz do Miguel soou cansada. Atirou o casaco para as costas da cadeira sem sequer olhar para mim.

Fiquei em silêncio. Continuei a passar o pano na mesa, obsessivamente, mesmo já estando limpa. Por dentro fervilhava de raiva e mágoa. Três anos. Três anos de paciência.

O que se passa? perguntou ele finalmente, ao sentir o ambiente.

Atirei o pano para a pia e as gotas saltaram para os azulejos.

Já não suporto as atitudes da tua mãe! Vou pedir o divórcio, está decidido!

As palavras saíram sem aviso, violentas, como uma bofetada. Nem era minha intenção dizê-lo naquela altura, mas foi mais forte do que eu. O copo encheu, transbordou.

O Miguel ficou na mesma posição, de boca aberta, depois sorriu amarelo, nervoso.

Estás a falar a sério?

Já disse o que tinha a dizer o meu tom soou calmo, muito mais do que o turbilhão que sentia no peito. Junta as tuas coisas. Ou levo eu as minhas. Decide.

Ele entrou na cozinha, sentou-se à mesa e passou as mãos pelo rosto. Fiquei encostada à banca, de braços cruzados, a olhar para ele. Aquele homem, por quem casei há quatro anos de vestido branco, cheia de sonhos de começarmos uma vida juntos.

Leonor, vá lá, falemos com calma…

Com calma? ri-me. Calma foi o que tive hoje à tarde quando a tua mãezinha apareceu com a chave suplente que tu lhe deste sem me dizeres nada, para me dar lições sobre os congelados no frigorífico?

Ela só quer ajudar…

Ela só quer dominar a minha vida! levantei a voz. Toda a santa semana arranja maneira de se meter connosco, de criticar como limpo, como cozinho, como visto o Rodrigo!

Ele ficou silêncio, a olhar para a mesa.

Hoje disse… engoli em seco, até me custava repetir disse que eu era má mãe, à frente do Rodrigo. Ele é pequeno, mas percebe!

A minha mãe não queria…

A tua mãe nunca quer! bati com o punho na mesa. Só que acabo sempre por ser eu a errada! Não queria estragar o meu aniversário, mas passou o dia a elogiar a nora da amiga. Não queria magoar, mas na passagem de ano, diante de toda a gente, disse que eu só não trabalho porque sou preguiçosa!

O Miguel levantou os olhos, cansado. Não zangado, só cansado.

O que achas que deveria fazer?

Era aquela pergunta que eu esperava. E, por estranho que pareça, foi o que me arrasou por dentro.

Quero que me protejas! Pela primeira vez em três anos de casamento! Que escolhas a tua mulher à frente da tua mãe!

Estás a exagerar…

Eu? e perdi a calma. Ouvi o Rodrigo remexer-se no quarto apressei-me a baixar a voz. Estou a exagerar por causa do escândalo que ela fez por não irmos todos os fins de semana à casa de campo? Ou por exigir saber como gastamos cada cêntimo? Ou por querer decidir a creche do nosso filho?

Ela só tenta ajudar…

Acha? peguei no saco que ela trouxera. Olha, trouxe-me lingerie! Sem me perguntar nada! Porque, segundo ela, não tens gosto, tens de parecer mais apresentável para o meu filho!

Espalhei na mesa a vergonha: cuecas de algodão bege, três tamanhos acima do meu; um soutien cinzento, igual ao que a minha avó usava. O Miguel ficou vermelho.

Realmente…

Realmente?! Isto é humilhação! Não aguento mais! Acordo todos os dias a pensar: o que é que ela vai inventar hoje? Que crítica virá agora?

Andava de um lado para o outro, consumida de frustração e desilusão.

E tu… tu nunca me defendes. A mãe não queria, a mãe preocupa-se, ela faz o melhor. Quem me protege a mim?

Amo-te disse ele baixinho.

Amar não são palavras, Miguel. São gestos. É protegeres-me de quem me trata mal. Mesmo que seja a tua mãe.

Ele recostou-se na cadeira, olhou pela janela. Lá fora a noite de dezembro era negra.

Para ela é difícil aceitar que já sou adulto. Que tenho família própria.

Difícil é para mim! quase me engasguei com a fúria. Vivo em tensão, sem poder relaxar na minha própria casa! Porque a tua mãe pode aparecer e arruinar o meu dia quando lhe apetecer!

Vou pedir-lhe as chaves…

Não é das chaves que se trata! sentei-me de frente para ele, firme. É tu permitires que ela se meta. Nunca lhe puseste limites. Nunca protegeste esta família.

Passou um minuto. Só o som do frigorífico e do relógio preenchia a cozinha.

Eu não sei como…

Então escolhe. Ela ou eu.

Soou frio e definitivo. Não havia outro caminho.

Leonor, não é justo…

Não justo?! levantei-me. Não foi justo aguentar três anos as insinuações dela. Nem ficar calada quando disse, perante os meus pais, que casei contigo por interesse. Nem sorrir quando, no hospital, afirmou que o Rodrigo não tinha nada de mim!

Miguel levantou-se, tentou abraçar-me. Afastei-me.

Não vale a pena. Ou falas com ela hoje e pões regras, ou vou-me embora.

Leonor…

Basta. Cansei de ser sempre a culpada. De viver para agradar a ela, nunca suficiente para o seu menino. Quero viver a minha vida!

O telemóvel vibrou na mesa. O Miguel olhou para o ecrã vi-lhe o maxilar tremer. No visor apareceu: Mãe.

Atendeu.

Sim, mãe… está tudo bem…

E aí, dentro de mim, partiu-se o que restava.

Arranquei-lhe o telefone das mãos e ativei o altifalante.

…já lhe disseste? a voz da sogra saía pesada. Sobre o apartamento?

Olhei para o Miguel. Empalideceu.

Que apartamento? perguntei, dura.

Silêncio. Depois, uma melodia falsa:

Leonor, querida, isso não te diz respeito…

Sou a mulher dele. Diz-me respeito. Que apartamento?

O Miguel tentava recuperar o telemóvel, virei-me.

Estávamos a pensar… começou a sogra, a minha irmã Matilde vai vender o T2 dela. O primo Luís precisa do dinheiro porque a filha vai para a universidade em Lisboa…

O Luís. O tal primo que nos almoços de família só elogiava a esposa contabilista e menosprezava tudo o que eu fazia.

E então?

A mãe sugeriu… que comprássemos o apartamento. Com desconto.

E com que dinheiro?

Ele calou-se.

Com que dinheiro, Miguel?!

Com aquelas tuas poupanças… e eu juntava o resto…

As minhas economias. Os quinze mil euros que fui pondo de lado ao longo de cinco anos. Antes de casar já poupava. Trabalhava de dia e de noite, fazia de tudo. Sonhava abrir um salão de unhas. Cheguei a ter o plano de negócios pronto.

Falaram sobre isto os dois. Sem mim.

Leonor, percebe, é uma oportunidade! E o prédio é ótimo…

E eu? Os meus planos? Os meus sonhos?

O salão pode esperar…

Esperar?! Já estou há dois anos em casa, com o Rodrigo! Quero abrir o meu negócio antes dos trinta!

A sogra, pelo altifalante, disparou:

Leonor, filha, salões há muitos, tens um menino pequeno. E um apartamento é sempre investimento. Só a família pode oferecer estas condições!

Família repeti. Família, onde a minha opinião nada conta.

Pousei o telemóvel, olhando o Miguel nos olhos:

Ias dizer-me? Ou só ias mexer no dinheiro?

Queria falar primeiro…

Com quem? Já falaste com a tua mãe. E com o Luís. E comigo, para quando ficou?

A porta abriu-se de repente a tal chave suplente. Entrou a sogra, de casaco de vison, a cara corada do frio.

O que se passa? Miguel, porque é que ela está a gritar?

Atrás vinha a Matilde, cheiinha, com ar de quem acha que tudo lhe corre bem.

Olá, Leonor. Já agora trazemos as escrituras para veres…

Papéis. Já vinham com documentos. Sem avisar ou perguntar.

Saiam daqui disse, num fio de voz.

O quê? a sogra arregalou os olhos.

Que saiam da minha casa. As duas!

Falas assim comigo?! avançou, furiosa para mim. Miguel, ouves como ela me trata?

Mãe, talvez seja melhor deixarmos isto para depois… murmurou ele.

Depois?! ela virou-se para o filho. Dei-te tudo, criei-te sozinha depois do teu pai falecer! E agora, por causa desta… apontou-me o dedo desta ingrata…

Chega! gritei. Tão alto que até a Matilde recuou. Calem-se! Saiam, agora!

Leonor, estás nervosa a Matilde tentou parecer amável. Só queremos ajudar! O Luís precisa do dinheiro, vocês da casa, todos beneficiam…

Não preciso da vossa casa! Quero um marido que me respeite! Quero uma família onde não seja forasteira!

Pensa que és melhor do que nós?! ribombou a sogra. Bonita, jovem, achas que mereces tudo? Só casaste com o Miguel porque ficaste grávida! Se não, nunca entravas nesta família!

Silêncio.

O Miguel estava lívido.

É verdade? perguntei-lhe.

Ele ficou calado.

Miguel, é verdade? Casaste comigo só porque engravidei?

Eu… gostava de ti…

Gostavas. No passado. Assenti. Percebi.

Peguei na mala. Pus o telemóvel no bolso.

Leonor, espera… o Miguel deu um passo.

Não. Deixa as chaves na entrada. Vens buscar as tuas coisas amanhã, quando eu não estiver.

Não podes fugir assim!

Posso, e faço-o. Chega do teu teatro. Da tua mãe. Desta família.

A sogra tentou agarrar-me:

Vais abandonar o Rodrigo?!

Vou buscá-lo amanhã. Com a polícia, se for preciso. Hoje ele dorme em paz que, ao contrário de nós, não precisa destes dramas.

Saí e fechei a porta com força. A noite gélida bateu-me na cara; as pernas levaram-me pelas escadas abaixo.

Duas portas depois, ouvi a voz do Miguel:

Leonor, por favor, espera! Onde vais?!

Não olhei para trás. Descia, descia terceiro andar, segundo…

Vamos resolver isto! Falo com a minha mãe! Juro!

Primeiro andar. Porta. Fugi.

O ar frio cortava o peito, mas não quis saber. Nem lenço, nem nada. Só importava ir em frente. Longe daquela casa, daquelas gentes, daquela vida.

O telemóvel estremeceu. Era a minha mãe. Ignorei. Depois o Miguel. Outro toque sogra. Tirei o som.

Parei só no metro. Sentei-me num banco. As mãos tremiam do frio e da ansiedade. Ou de tudo junto.

O que é que eu fui fazer?

Saí de casa. Sem coisas, sem o filho, sem destino. Como nos filmes. Mas nos filmes as protagonistas encontram logo um novo rumo, um príncipe. Na vida real?

Na vida real, fiquei sentada num banco gelado em dezembro, sem dinheiro a carteira ficou em casa, só o telemóvel comigo. Não tinha para onde ir. Para a minha mãe? Vive num T1 com a minha irmã mais nova, Carolina, estudante ainda. Nem há espaço para mim.

Para a Marta? Tem marido e dois filhos pequenos, mal cabe ela lá.

O telemóvel vibrou. Mensagem do Miguel: “Desculpa. Amanhã falamos com calma.”

Com calma. Como se se pudesse debater aquele absurdo calmamente. O marido casou por obrigação. A sogra nunca me aceitou. Os meus sonhos são irrelevantes para todos.

Outra mensagem: número desconhecido Leonor, é a Matilde. Não fiques assim. A casa é boa. Pensa no Rodrigo, vai ter mais espaço. Liga, conversamos.

Conversamos. Eles querem todos falar menos comigo.

Levantei-me, segui para dentro da estação. Encontrei o passe no bolso, felizmente. Desci, entrei no metro. O calor e ruído envolviam-me como um cobertor. Deixei-me ir, sem saber para onde.

Sai na Baixa-Chiado. Apenas porque o nome me agradou. Caminhei um pouco pelas ruas. A cidade cheia de luzes, vitrines iluminadas, pessoas apressadas. Eu vagueava, invisível, perdida, indiferente à corrente.

Fui a uma pastelaria aberta. Pedi um chá, a carta funcionava. Sentei-me à janela. Vi a noite passar e pensei no Rodrigo. Vai acordar, chamar por mim. O que lhe dirão? Que a mãe os abandonou?

Doeu. Não. Não abandonei. Só preciso de tempo. Para saber para onde vou.

Veio uma empregada jovem, uns vinte e poucos anos, cara ainda mais cansada do que a minha.

Precisa de mais alguma coisa?

Não, obrigada.

Ela hesitou.

Desculpe meter-me, mas… está tudo bem consigo?

Sorri sem força.

Acho que não.

Quer conversar?

Estranha. Mas, talvez por ver que estava mesmo em baixo, ofereceu-se.

Acabei de abandonar o marido disse. Há pouco mais de uma hora.

Ela sentou-se à minha frente.

Estou de intervalo. Quer desabafar?

E contei-lhe tudo. Da sogra, da casa, do desabafo, do cansaço. As palavras saíram em cascata.

Ela escutou. Depois disse:

Eu também passei por algo parecido. Três anos atrás. A mãe dele mandava em tudo. Achei que ia melhorar. Só piorou.

E o que fez?

Fui-me embora. Sem nada. Dormi em sofás de amigos, depois aluguei um quarto. Custou, mas sabe? Respirei aliviada pela primeira vez em anos.

Tinha filhos?

Não. E você?

Tenho um. O Rodrigo. Só um ano.

Ela assentiu:

Torna as coisas mais difíceis. Mas resolve-se. Só não volte para o mesmo. Se voltar, nunca irá mudar. Eles pensam que nunca os vai largar, depois pisam mais ainda.

Terminei o chá. O medo apertava-me.

E se não aguento sozinha?

Quem disse que fica sozinha? sorriu. Tem amigos, família. E lembre-se, já deu o primeiro passo. Vai conseguir.

Troquei contactos com ela. Chamava-se Nádia. Uma simples empregada, que em meia hora me apoiou mais do que o Miguel em quatro anos.

Saí do café com o sol já a colorir o céu. Lisboa acordava. Peguei no telemóvel vinte e três chamadas. Do Miguel, da sogra, da minha mãe, até da Marta.

Enviei só uma mensagem ao Miguel: “Amanhã às duas, num sítio neutro. Sem a tua mãe. Falamos sobre o Rodrigo e o divórcio. Não me ligues mais.”

Suspendi o coração.

O futuro era incerto. Casa alugada, tribunal, guarda partilhada. Assustador? Sim. Mas muito menos do que viver o resto da vida naquela casa, entre quem não me respeita.

Andei pela cidade, fria e bela, e pela primeira vez em três anos senti-me livre.

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Já chega das atitudes da tua mãe! Vou pedir o divórcio, acabou, ponto final! — disse-lhe a minha mul…