Investi tudo no sonho dela, mas acabei sobrando na festa da vida
Por vezes, construímos palácios para quem não hesita em nos expulsar assim que terminam as obras. Esta é a história de Gonçalo um aviso desconcertante de que misturar amor e negócios é receita para desilusão, principalmente quando só um ama e o outro apenas usa.
CENA 1: Fim de um Percurso Surreal
Num bairro nobre de Lisboa, vitrines reluzem sob a lua e o ar cheira a tinta fresca e rolo de pão quente ao longe. Entre reflexos distorcidos, Gonçalo homem de trinta anos coberto de poeira e sonhos limpa com reverência a porta envidraçada da nova loja. Um sorriso cansado mas triunfal dança-lhe no rosto. Não era só um construtor: era o último soldado de um sonho para o qual doou cada euro que tinha.
Aproximam-se Andreia elegante, envolta em seda verde musgo e a mãe dela, cujos olhos frios pareciam interromper marés.
CENA 2: Felicidade Esfumaçada
Gonçalo volta-se para a amada, olhos transbordando luz dourada sonâmbula:
**Está tudo pronto, querida. Cada centímetro é como tu sonhaste. Amanhã, finalmente, abrimos as portas!**
CENA 3: Banho Gelado
A mãe de Andreia avança, lançando ao Gonçalo um olhar onde ecoa o Atlântico no inverno.
**Abrimos? Não me faças rir,** escarra ela. **Tu és só o empreiteiro. Tua obra terminou. Arruma as tuas ferramentas e desaparece, antes que cheguem os verdadeiros convidados.**
CENA 4: Punhalada Surreal
Gonçalo fica estático, boiando no absurdo do momento. Procura nos olhos de Andreia uma ponte, um gesto.
**Isto é a sério, Andreia? Eu dei tudo o que tinha por nós dois!**
Andreia desvia o olhar, depois enfrenta-o com frieza de granito:
**Sejamos práticos, Gonçalo. Tu não encaixas no perfil desta marca. A minha mãe tem razão, está na hora de seguires o teu caminho.**
CENA 5: O Sonho Afunda
O mundo de Gonçalo desmancha-se e reconfigura-se em geometrias estranhas de gelo. Lentamente saca do bolso um pequeno comando prateado e brilhante.
**Esqueceram-se de quem montou todo o sistema elétrico e segurança,** murmura, o polegar pairando sobre o botão vermelho rubi.
FINAL DA HISTÓRIA:
A mãe de Andreia esboça um sorriso seco: E então? Vais desligar a luz? Chamamos logo alguém e tudo se resolve em minutos.
Gonçalo fixa nela um olhar insondável:
**Não instalei apenas. Este projeto é meu código, sensores, tudo. O contrato de cedência de direitos nunca ficou assinado**
Com força, pressiona o botão.
Ecoa um estalo irreal. Pranchas de aço pesadas despencam sobre as montras, selando entradas sob o olhar assombrado dos maniquins. As luzes apagam-se todas de repente, como se Lisboa piscasse um olho ao contrário. Fechos eletrónicos disparam o edifício torna-se um bunker metálico.
**Que fizeste?!** grita Andreia, lutando com a porta fantasma. **Os investidores chegam daqui a meia hora! Abre já!**
Gonçalo, sem pressa, arruma o comando e pega na sua caixa de ferramentas:
**Se não pertenço à vossa imagem, os meus sistemas também não. Amanhã o meu advogado envia-vos a conta pelo direito de uso. Por agora saboreiem a escuridão. Não haverá festa.**
Sai sem olhar para trás, deixando as vozes delas a dissolver-se no ar pintado de luzes lisboetas. Já lá fora, convidados de fato e laço começam a juntar-se perante o misterioso casulo que, momentos antes, fora o núcleo do sonho de Andreia.
**Moral:** Nunca menosprezes quem cimentou o teu caminho. Sem ele, até o palácio mais caro é apenas entulho luxuoso.
*E tu: o que farias se fosses o Gonçalo? Escreve nos comentários!*Por entre murmúrios, Gonçalo caminha leve cada passo, um desapego. O azul noturno de Lisboa acolhe-o e, pela primeira vez em muito tempo, sente alívio. No silêncio fora do bunker, sorri ao notar que ninguém realmente conhece os códigos que erguem ou derrubam sonhos, excepto quem os cria.
Enquanto ruma ao café da esquina, o rumor dos convidados cresce, confuso e ansioso às portas seladas. Mas Gonçalo já saboreia um pequeno-almoço tardio, olhos postos nas estrelas e no jornal dobrado. No topo, lê-se: Jovem deixa legado invisível em bairro histórico. E por fim, percebe: não foi expulso libertou-se.
Porque quem investe amor sincero não perde, aprende a reconstruir para si, longe de festas vazias. Cada ferida abre espaço para fundações mais fortes, onde só cabem futuros genuínos.
Na próxima obra, a chave será só dele.






