A idosa levantou-se da cama com dificuldade. Encostou-se à parede e chegou à porta. Na cozinha, pegou numa tigela com pão esfarelado e saiu para o quintal.
“Parece que estou a desenferrujar. As galinhas a cacarejar tanto. Será que as deixo ir para a horta? À noite não as apanharei mais. Ah, em que estou a pensar?! Não tarda nada, a minha nora manda-me para o lar de idosos.”
Abriu a porta do galinheiro. De lá saíram sete galinhas. Atrás delas, um galo caminhava orgulhosamente. A velha espalhou as migalhas no chão para eles. Dirigiu-se à casa de banho.
Ao sair, olhou para a sua horta.
— Gavina, — ouviu-se a voz da vizinha junto à cerca. – Ainda andas sempre atarefada? Já estás quase a chegar aos noventa.
— Como não estaria, Felícia? – a idosa aproximou-se da cerca. — Ainda está por colher a couve e a cenoura. Sorte ter o Miguel com a sua Irina ter tirado as batatas.
— Tens um neto muito bom!
— É difícil para ele agora sem o pai, — a idosa começou a chorar.
— Pronto, pronto, Gavina, já chega de lágrimas, — a vizinha tentou confortá-la. – O teu filho já não sofre mais. Passou um ano sem se poder mexer. Como achas que ele se sentia? Agora olha para ti desde o céu.
— Felícia, ele tinha apenas sessenta anos. Forte, como ele era! E em apenas um ano, secou todo e morreu.
— Em breve, também eu irei para junto do meu filho.
— Não te apresses, Gavina! Ainda vais a tempo. Vive um pouco mais!
— Sim, como vou viver aqui? As pernas já mal me aguentam, — a idosa suspirou pesadamente. – Está no final de setembro, e o frio está a chegar. Sozinha, como sobreviverei aqui?
— Mas tens a tua nora e netos.
— Oh, Felícia, do que estás a falar? O Miguel tem três filhos e a sogra vive com ele. A Joana, com dois filhos, vive num apartamento de um quarto.
— E a Catarina, a nora?
— Ela só pensa na minha morte. Quando fizeram os quarenta dias do Danilo, ouvi-a a dizer, acho eu, à Joana que planeava vender a minha casa e comprar-lhe um apartamento.
— Não concordes com isso, Gavina!
— A Joana é minha neta, que viva de forma decente.
— E tu?
— Vão acabar por me mandar para o lar de idosos, suponho. Sabes, Felícia, lá ao menos terei alguém a tomar conta de mim. Aqui já temo até acender o forno. E já nem lenha tenho. Vou congelar aqui, e ninguém saberá.
— Obrigada, Felícia! Bem, vou indo, — agitou as mãos. – Soltei as galinhas. Lá vão elas pela horta. Vou recolher os ovos!
A dona do quintal dirigiu-se ao galinheiro.
De manhã, sentiu Gavina que o frio aumentou. Não tinha vontade de sair debaixo das cobertas. Mas precisava!
Levantou-se, encolheu-se com o frio. Enrolou-se numa manta e saiu para o quintal. Mal teve tempo de alimentar as galinhas, o carro do neto já chegava à frente da casa. O neto costumava vir nos fins de semana, mas hoje era quarta. A velha percebeu que algo na sua vida estava prestes a mudar.
— Olá, avó!
— Aconteceu alguma coisa? – perguntou Gavina com cara fechada.
— Já chega de viveres aqui sozinha, — fez sinal para o céu. – O frio está a aproximar-se.
— E as minhas galinhas? E a couve e a cenoura ainda estão por colher, — lamentou-se a idosa.
— Avó, eu trato das galinhas. E agora vou apanhar a couve e a cenoura enquanto te preparas. Vá, despacha-te!
Gavina demorou-se para se preparar. Morou ali mais de sessenta anos, desde que o Manuel a levou para lá como esposa. E foi lá que o Danilo nasceu. Já se passaram quinze anos desde que o Manuel morreu. E agora o Danilo já não está. A idosa sentou-se num banco e começou a chorar.
Demorou-se sentada. Levantou-se de um pulo, olhou pela janela. O neto já tinha colhido toda a cenoura, cortava a couve. Uma boa colheita de couve. Que repolhos grandes. Suspirou fundo e começou a arrumar suas coisas.
“O que levar? Deixar tudo é uma pena. E não pode levar tudo consigo. E será que no lar de idosos permitirão tantas coisas? Levarei o álbum de fotos, para lembrar-me da vida. Precisarei reunir todos os documentos. Vão vender a casa, e se não acharem todas as papeladas? Devo levar roupa. Os novos donos virão – e tudo será descartado.”
— Avó, demoras muito? – interrompeu-a o neto. – Já colhi toda a cenoura e a couve. Levei tudo para o galpão. Voltarei no fim de semana para distribuir para todos.
O neto colocou os pertences dela no carro. Ajudou-a a entrar e partiu. Gavina olhava pela janela, despedindo-se da aldeia.
A cidade estava perto. Logo apareceram os prédios de cinco andares. O carro parou.
“Oh, chegamos à casa do Danilo, — ponderou Gavina, surpreendida. – Será que o neto me trouxe para me despedir da nora?”
— Olá, tia Gavina! – saudou-a Catarina sorrindo, até lhe deu um beijo na bochecha.
— Olá, Catarina! – mas pensou consigo. – “Tem medo que eu não lhe passe a casa, imagino.”
— Tia Gavina, libertámos um quarto para ti, onde o Danilo passou os últimos dias, — e a nora começou a chorar.
— E fizemos uma reforma nela, — empurrou a sogra para o quarto, — comprámos uma cama e um armário novos.
— Catarina, — a velha senhora, finalmente, percebeu o que a nora dizia. – Então não me vão enviar para o lar de idosos?
— Mãe, mãe, por favor, basta!
— Por que choram?
— Avó, de onde tiraste a ideia de que íamos vender a tua casa? – o neto riu. – Vamos torná-la um refúgio de férias para todos. Vamos passar lá o verão. E a floresta está bem ali.
O coração de Gavina encheu-se de alegria. Afinal, ela tinha netos tão bons.
“E que nora eu tenho! Como é que não notei isso durante quarenta anos?”






