Gata Linda, Mas Ninguém a Quis: Temperamento Difícil!

Ninguém queria adotar a Matilde… Uma gata arisca e desconfiada com estranhos, apesar de ser uma autêntica beleza! Para ela, todos eram desconhecidos, exceto a Beatriz, que cuidava da sua limpeza, trocava a comida, a água e a areia sanitária. Beatriz era a única a quem Matilde tolerava.

Quando Beatriz fazia a limpeza do “quarto” de Matilde, a gata simplesmente virava de costas e balançava a cauda irritada. É importante ressaltar em defesa de Matilde que ninguém sabia ao certo a sua história antes do abrigo. A encontraram na rua em um dia de frio incomum para Lisboa, quase -20°C!

A atenção de Luís, o varredor, foi deslumbrou pela gata magra. Ele começava sua ronda de limpeza cedo, antes das seis da manhã, pois gostava da tranquilidade; pouca movimentação de carros e ninguém o distraía. Surpreso, Luís percebeu que a gata, ao ser tocada pela vassoura, não tentou correr. Ao aproximar-se, viu que o pelo da gata estava congelado no chão. O gelo sob ela estava manchado de sangue. Luís ficou abalado!

Luís, um jovem introspectivo devido a pequenas dificuldades intelectuais, era de uma bondade sem medida. Deus presenteou Luís com compaixão para dar e vender. E como ele amava os animais! Afinal, esses bichinhos têm a alma pura, não é? Como não os amar? Maltratá-los era um pecado imperdoável, isso ele sabia de cor.

Luís cresceu com a sua avó, que o criou após o resgatar da filha sempre embriagada. Sua avó costumava alimentar gatos de rua, e Luís ajudava desde pequeno. Lembrava vividamente da mão enrugada da avó acariciando mais um gatinho desamparado enquanto dizia:

– Porque Santos da casa não fazem milagres e eles, coitados, só têm a proteção divina… Nunca lhe pagam a reforma como a você e a mim. Tem que se repartir o pão nosso de cada dia.

Luís apenas corrigia a avó com carinho, porque não era pão, mas sim arroz com peixe, mas a avó lhe explicava o ditado, acrescentando que gatos não comem pão. Claro, em tempos de fome, até uma crosta dura serve, mas não como alimento próprio para um predador!

Interrompendo seus pensamentos, Luís, entre lágrimas, correu para a copa aquecer a chaleira… Vinte minutos depois, com muito cuidado, conseguiu desprender a gata do gelo e a levou para a copa, onde estava mais quente. A pobre criatura manteve-se em silêncio, pairando um olhar exausto sobre ele.

Assim que deu oito horas, Luís voou até ao abrigo mais próximo! Ele era um conhecido voluntário, sempre bem-vindo. Luís adorava contribuir nas tarefas pesadas, como partir lenha para preparar as refeições e aquecer o espaço, ou descarregar carvão.

O abrigo sobrevivia exclusivamente com base no entusiasmo e em doações. Beatriz avistou o pacote ferido que Luís segurava e de imediato levou a gata para a clínica que sempre ajudava. O jovem varredor esvaziou os bolsos do uniforme, dando o que restava do seu dinheiro do mês. Tinha 20 euros.

– Aqui, é para a Matilde!

– Sabes o nome dela? – indagou a surpresa Beatriz ao lado.

– Não, eu que a chamei assim, posso? – perguntou Luís, tímido.

– Claro, claro… Só desejo que sobreviva!

A operação parecia eterna, ou talvez fosse só impressão dos jovens. Depois, o veterinário saiu e anunciou:

– Esta gata tem mesmo sete vidas, ou até mais! Ela sobreviveu a uma facada, imaginem! Alguém a esfaqueou e ela, a custo, chegou ao lugar onde finalmente foi encontrada. Caiu e o sangue prendeu os pelos ao pavimento. Se tivesse passado mais tempo, estarias agora a separar-lhe o corpo, rapaz…

– Vou levá-la ao abrigo. Quando posso, doutor Manuel?

– Que fique aqui uns três dias para tomarmos conta dela. Precisamos dar as injeções e agora temos espaço no internamento.

– Mil obrigados!

Com um gesto de mão, o doutor voltou ao seu posto. Ergueu a guarda, pegou um maço de cigarros com apenas cinco cigarros. Saiu pelas traseiras e acendeu um, puxando o fumo com avidez! Mesmo após tantos anos, ainda perdia a compostura ao confrontar-se com tal crueldade contra seres indefesos! Havia largado o vício há dois anos…

Matilde tornou-se residente do abrigo “Ronron”. A sua chegada gerou um impacto tão grande que logo surgiram voluntários dispostos a adotá-la. Mas Matilde não estava preparada para interação humana! Sibilava, arranhava e mostrava uma pata certeira a quem tentasse aproximar-se, revelando um “mau” feitio!

Foi então decidido que deveriam aguardar para lhe achar um dono, mesmo que se tratasse de alguém de boas intenções. Luís visitava Matilde frequentemente. Gostaria tanto de levá-la para casa! Mas onde? Luís morava num apartamento partilhado, em dois quartos após a morte da avó. E os vizinhos não queriam animais no prédio!

Precisava conformar-se com essa situação, enquanto afagava e alimentava gatos de rua. Com Luís, Matilde não bufava. Vendo-o, a gata parava e fixava o olhar no rapaz. Um vago eco parecia surgir nas irises verdes de Matilde. Ela farejava o ar e imaginava já ter sentido aquele odor anteriormente. E não era uma ameaça, bem pelo contrário. Mas a desconfiança sobrepunha-se, impedindo Matilde de aceitar os gestos de carinho. Silenciosamente, ela recolhia-se ao canto da gaiola e escutava o rapaz peculiar falar-lhe.

– Ah, Matilde, que susto passei por ti! Mas agora és linda, uma verdadeira princesa! Teu pelo brilha e a cor… nunca vi igual!

Matilde tinha a cor “chocolate” – um tom bastante incomum. Ela ouvia as palavras agradáveis dirigidas a si, mas olhava desconfiada. Luís sempre partia, prometendo voltar de novo…

Mesmo no nosso mundo tão materialista e prevaricador, acontecem milagres. O prédio de Luís foi alvo de um programa de reconversão urbana, e inesperadamente, Luís tornou-se proprietário de um espaçoso apartamento de um quarto! Logo após receber os documentos e chaves, não correu para as lojas de móveis como outros recém-mudados. Não! Ele entrou pelo abrigo adentro, passou direto por Beatriz e parou diante da gaiola de Matilde.

– Matilde, querida! Ganhei um apartamento, só meu! Queres vir viver comigo, Matilde? Vim aqui para te buscar! Por favor…

Por dois longos minutos, Matilde contemplou Luís. E então, mais um milagre aconteceu! Ela encostou a cabeça nas grades da gaiola, permitindo que Luís a acariciasse!

– Pois é… Nossa Matilde encontrou finalmente o seu príncipe! – riu-se Beatriz, testemunhando aquela transformação inesperada. – Prepara-te para mudar, Matilde!

É difícil acreditar na sinceridade e na bondade após traições e dor, mas se uma gata escolhe-nos, confiando-nos tal crédito de confiança, então somos verdadeiramente Humanos…

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