Fui à casa da minha nora, cozinhei, limpei tudo, e mesmo assim ela não ficou satisfeita.

O meu filho e a jovem esposa dele moram num apartamento arrendado, bem perto da minha casa. Pedi ao meu filho uma chave suplente do apartamento deles. Se acontecer alguma coisa, gostava de a ter comigo pode dar jeito! Agora estou de férias e os dois trabalham, claro.

Então, aproveito e passo lá quando eles saem para o trabalho. Faço uma bela feijoada e umas bifanas, empadas e arroz doce. Afinal, o meu filho adora estas comidas tradicionais simples, saborosas e cheias de sustância. E, quando acabo, começo logo a arrumar e a limpar. A minha nora não é lá muito dada à limpeza.

As coisas deles ficam espalhadas pela casa, a loiça na banca parece um monumento às bactérias. Acho que vou mostrar à minha nora como se mantém uma casa decente. Quando chegam a casa, já está tudo pronto comida feita, tudo limpo, tudo no seu lugar, o meu filho devora o prato como se fosse o último do planeta Vida de sonho, certo? Pois Não exatamente. A minha nora está sempre com cara de poucos amigos. Quase não toca na minha comida, diz que é muito pesada, cheia de gordura e má para a saúde. Só come papas de aveia e saladas feitas de ervas esquisitas.

E ainda tem o desplante de me querer despachar, mal põe o pé em casa, como se estivesse incomodada com a minha presença. Ah, os tempos modernosNa última visita, enquanto apanhava uns talheres esquecidos, ouvi o riso dos dois vindo do quarto. Hesitei. Em vez de me apressar a sair, parei à porta, sem que me vissem, e escutei. Falavam dos seus planos viagens, livros, sonhos tão diferentes dos meus costumes. Senti-me deslocada, como uma peça que não encaixa numa nova engrenagem.

No caminho de volta para casa, com um tabuleiro vazio nas mãos, pensei naquilo que desejava para o meu filho: felicidade, amor, respeito. Talvez, para ele, isso estivesse nas papas de aveia, nas saladas caleidoscópicas, no riso cúmplice que só ela sabia provocar. E, de repente, entendi. Talvez fosse tempo de lhes devolver a chave e confiar, de verdade, que a casa deles saberiam construir.

Então, na manhã seguinte, escrevi um bilhete simples: Amor cuida-se em muitas formas. Estou aqui, mas agora do lado de fora. Se precisarem de feijoada ou de mim, sabem onde me encontrar.

E, pela primeira vez em muito tempo, a minha casa pareceu completa só com o meu cheiro de café e silêncio.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Fui à casa da minha nora, cozinhei, limpei tudo, e mesmo assim ela não ficou satisfeita.