FIFA: O Grande Espetáculo do Futebol – Paixão Nacional em Portugal

Fifrona

Olhem só para ela, toda arranjada! Gente normal, como se deve, vai de manhã ao trabalho, mas esta?! Em pleno lodaçal, de calças brancas!

É que ela nem põe o pé na rua! Anda sempre naquele carro dela! Parece um autocarro!

Olha, agradece que vai vestida! Já reparaste no que ela tem ao pescoço?

Ainda não. O que é?

Uma tatuagem! Isso mesmo! Quem faz uma coisa dessas?! Parece malta que já esteve presa, palavra! Tão nova e já assim, toda marcada! O que diria a mãe dela se visse?! Sem rumo, perdida… Uma alma sem dono…

O banco à entrada do prédio fervilhava, todas as vizinhas com olhos e linguados em cima da Júlia.

E que mais havia de fazer senão mexericos, se as sacas de compras jaziam ao lado dos pés e em casa só as esperava a mesma rotina de todos os dias? Ao menos ali, suspiravam e desabafavam, porque a vida era fartinha das mesmas voltas… Crianças, grandes ou pequenas, a comida, a limpeza… E onde estava a alegria? Poucos eram os momentos de alívio, porque, para o povo, a felicidade não dava a cara muitas vezes. Havia era trabalho, pensamentos, como alimentar os filhos e ajudar os que sofressem necessidade. Como levar mimos aos netos para dar um quentinho na alma ao beijar-lhes as testas macias. Só neles havia alegria… nos pequeninos. Mas nem todos podiam ter. Para a Dona Gertrudes, por exemplo, os filhos avisaram que não teria netos, porque hoje em dia já não é moda ter filhos, mas sim andar pelos hotéis do Algarve, que Deus perdoe, sem peso nenhum. Conseguem, não percebo como! Serão como aquela Júlia, filha da Natália…

Tão bem encaminhada parecia estar! Andava sempre séria, estudiosa, cumprimentava gente com educação. Agora, uma desfeita. Desde que ficou sozinha, nem sinal de se cuidar. Passa os dias fora, não pega em trabalho algum. Se ao menos estudasse, mas nem isso. A filha da Dona Augusta comentou que Júlia meteu-se em coisa que não se diz anda a fazer tatuagens! Dizem que abriu até um salão! Onde é que isto vai parar?

Quando o pai de Júlia reapareceu há uns anos, todos pensaram que ia pôr a rapariga na linha. Ensinar-lhe como viver. Mas qual quê? Comprou-lhe aquele carro horroroso, que ocupa meio estacionamento, e desapareceu, deixou-a entregue ao acaso. E ela, uma miúda ainda! Mal tinha feito vinte anos. Como se abandona uma rapariga dessas à sua sorte? Se calha levar para casa alguém que não deve, perdem-lhe o apartamento, a herança da mãe, e o diabo do carro também.

Olé! Já se foi ela! Para onde será? E porquê? Quem sabe! Nem olhou para trás! Uma fina! Com as calças brancas…

A Júlia, às queixas das vizinhas, pouco importava e menos tempo tinha ainda para pensar nisso. Os seus dias passavam a correr, e nem dois relógios chegavam! A mãe repetia sempre que Júlia tinha de aprender a organizar o tempo porque quem sabe lidar com o tempo, consegue de tudo.

Júlia, tudo depende disso. Uns correm perdidos e não fazem nada. Só se queixam, invejam quem dá conta de tudo. Mas o segredo é simples: saber tratar do tempo, conseguirás quase tudo.

Como se trata do tempo, mãe?

Não brinques com ele. Foca-te no que é importante. E reserva um pouco, não só para trabalho, mas também para lazer. Isso é crucial. Ninguém vive só das obrigações. Há de vir um dia em que, sem tempo de descontração, acabas mal.

Porquê?

Porque não és de ferro! Sejas incapaz de parar, depois ninguém aproveita. Tu, acabas cansada, amarga. Uma vida sem descanso é um sofrimento, filha. Dizem que só interessa é trabalhar, mas trabalho nunca falta farás uns, virão outros. Mas só descanso também não se faz nada. Decide quanto precisas e não passes desse limite. Vais ver que a vida corre melhor até eu descanso.

Júlia lembrava-se bem dos conselhos da mãe, mas metê-los em prática era outra conversa. Comprou um agenda, mas nem sempre bastava. Tanta coisa precisava de ser feita, quem podia escolher? Hoje, por exemplo, só conseguia ir a uma das três aulas porque dois clientes estavam marcados e ainda precisava passar pela casa da Catarina. Onde há Catarina, há Sara à mistura, e nunca é coisa rápida. Depois seguir para ver o Artur e ajudá-lo com as mudanças… ainda havia de conhecer os novos meninos, já que iam viajar na semana seguinte, e nem sabia ainda os nomes deles. Conseguir fazer tudo…

O trânsito em Lisboa lá se mexeu um pouco e Júlia acelerou. O carro correspondeu num conforto suave, quase como a tranquilizá-la. Não te rales, miúda, havemos de chegar. O teu tempo é precioso, para isso é que o teu pai mo deixou.

Júlia passou devagar a mão pelo volante.

Obrigada, pai.

Se alguém lhe dissesse, há uns anos, que ela agradeceria algo ao pai, Júlia teria rido com desdém. Tinha-lhe alimentado mágoas desde sempre.

A mãe, Dona Natália, nunca disse um mal dele. Bem pelo contrário, era sempre “O teu pai, que homem inteligente! E tu, Júlia, és a cara dele!”

Mas Júlia não compreendia como um homem inteligente era capaz de deixar um filho e ir-se embora sem nunca se voltar para trás.

Muitos anos amaldiçoou, e sentia-se envenenada por essa raiva, deixada por alguém que deveria cuidar dela.

No infantário, sentava-se ao lado, sozinha, enquanto as colegas dançavam com os pais nas festas. Tão revoltada que nem sabia chorar, só olhava com os olhos secos para o grupo a bailar.

Na escola, quando a magoavam, roía o lábio e revidava, mas invejava quem dizia: Vou dizer ao meu pai! frase mágica que punha qualquer um em sentido.

E na secundária, rompeu de vez com a melhor amiga, Joana, quando esta, numa discussão sobre a universidade, disse com displicência:

O meu pai paga-me o que quiser, seja que curso for. Se não tiver vaga em Lisboa, faço em Coimbra, só porque ele quer. E se conseguir entrar, ainda me dá um carro com o dinheiro que sobrou.

Amiga desde pequenina, Júlia percebeu naquela hora que não podiam continuar. Não foi inveja, foi mágoa: Joana sabia da sua vida, sabia o quanto Júlia sonhava com um pai. E era sempre a cutucar!

Na verdade, Júlia nunca invejou ninguém. Para quê? Ela e a mãe sempre tiveram tudo foram até a Espanha de férias, e sempre roupas bonitas, um bom telemóvel no aniversário dos dezasseis, prenda da mãe.

Mas eis que nesse mesmo aniversário, enquanto mexia na caixa do presente da mãe, apareceu aquele que ela, desde sempre, tanto quisera ver ao menos uma vez.

Fez um escândalo, lágrimas e gritos, não deixou que a mãe lhe tocasse:

És uma traidora! Por que é que ele está aqui? Não quero vê-lo!

Ela não podia saber que a mãe já tinha recebido as análises médicas e que, em breve, as suas vidas iam entrar naquelas alturas e descidas que não se esquecem nunca. O futuro seria líquido, incerto, como aquele pudim de morango que Júlia tanto odiava em miúda. Fossem bons ou maus os momentos, era preciso encarar o que havia para vir.

Um dia, a mãe reuniu coragem e chamou-a para junto dela.

A culpa de tudo, Júlia, foi minha. Por ter rompido com o teu pai e não te deixar vê-lo… Fui eu.

Porquê? Mãe, porquê? Que dor é essa que te fez tirar-me o pai?

Ouve… É difícil, mas explico-te.

E aí Júlia soube tudo.

Os pais casaram-se novos, sem grande juízo. Quando Natália ficou grávida, ouviu críticas das duas famílias. Júlia foi vista como um estorvo, um erro. O pai teve de deixar os estudos para trabalhar. A mãe, depois do parto, nunca mais acabou o curso. Acumularam-se cobranças, amarguras, tudo agravado por a bebé ser rapariga, não rapaz. E foi assim que Natália se mudou para casa de uma tia e o pai nunca soube que não voltaria a ver a filha.

Ele tentou contactar, mas eu menti… Disse que tu não eras filha dele…

Oh mãe, porquê?

Disseram-me tantas vezes… Que decidi aceitar.

Quem?

Todos… Júlia, perdoa-me… Agora sei que fui tola. Só queria proteger-te. Queria que crescesses sem ouvir o que ouvi. Queria evitar-te sofrimento… Agora vejo que errei, mas não sabia.

Júlia afastou-se, bateu o punho na janela, fez saltar terra preta do vaso de cato que Joana lhe dera, e aquelas pedrinhas eram como as palavras da mãe, espalhadas, sujando tudo. E como a terra, seriam difíceis de limpar.

Foi, limpou o parapeito. Depois sentou-se ao pé da mãe, olhos secos:

Conta tudo. Só a verdade. Não me mintas mais.

Não te minto…

Assim ficou a conhecer o resto da história. E, embora sobrassem mais perguntas do que respostas, percebeu que a vida é um bicho muito estranho. Hoje achamos tudo certo; amanhã, muda e lá temos nós de colar os cacos.

Nunca soube ao certo se perdoou a mãe talvez sim, embora faltasse essa paz total.

Só sabia uma coisa: estava grata por Natália não ter ficado em silêncio. Sabia que o essencial ficara trancado nas noites difíceis da mãe, nos momentos com o pai que a mãe, já vencida pela doença, aceitara receber. E nunca quis perguntar ao pai o que se passou nesses momentos. Não quis remexer o passado.

Tiveram de aprender a viver juntos: deixar Júlia com tia era impensável para o pai.

Vou embora se tu quiseres, mas só depois dos dezoito anos. Até lá, fico, mas não quero incomodar.

Agora é que não te vais esconder, pai! Faz-te ver! Fazes cá falta…

Natália, depois de todos os maus prognósticos, resistiu quase dois anos. Apesar de ser tempo duro, Júlia podia dizer que foram, ao mesmo tempo, os seus dias mais felizes e também os mais amargos. Custava aceitar como o tempo pode ser tirano e tão curto.

E foi aí que começou a desenhar. Não sabia porquê não começara antes. Rabiscava nos cadernos pela escola fora, mas nunca a sério.

Olha, não é nada mau!

O pai, ao ver-lhe os desenhos, assobiou de espanto. E mostrou as costas: uma tatuagem, cheia de cor e beleza.

Um amigo meu fez. Queres que fale com ele? Pode ensinar-te…

Quero!

E nem se deram conta quando Júlia desapareceu da vizinhança. Passou quase um ano no Porto com o pai, a aprender o ofício. Depois, decidiu:

Pai, quero ir para casa…

O pai compreendeu não tentou demover, pediu só que esperasse duas semanas e saiu. Quando voltou, ajudou a empacotar a tralha, e colocou na mesa da cozinha do apartamento de Júlia as chaves do carro.

É teu. E isto.

Uma pasta de documentos pousou do lado das chaves. Júlia ergueu a sobrancelha, intrigada.

Que é isso?

O teu salão. Vendi o meu apartamento e comprei-te um espaço no centro. Pequeno, mas já serve. O teu amigo Alex preparou os equipamentos. Está tudo a caminho. Trabalha, filha. Mas continua a estudar, sim? Precisas mais que o secundário.

Júlia ouviu como não acreditasse. Quando tudo estava pronto, e o vizinho Carlos, de barba grande, agora a fazer-se motard, enchia de elogios o novo atelier, ainda não acreditava que a vida entrasse nos carris.

O pai tratou do espaço, do restauro, da publicidade, e depois despediu-se.

Para onde vais?

Preciso de ir ajudar os meus pais, Júlia. Sabes que sim…

Sei. Mas queria que ficasses…

Também eu, mas tenho de ir.

Ficando sozinha, Júlia entregou-se de corpo e alma aos estudos e ao salão. A clientela crescia e, rapidamente, teve de contratar duas auxiliares.

E foi nesse vaivém que conheceu Catarina.

Chegou ao fim do dia, bem vestida, mas cansada, enquanto Júlia desesperava por um cliente atrasado.

Desculpe, menina posso falar com o responsável?

Júlia ergueu os olhos do computador e dos apontamentos da faculdade.

Fala com a mestre. Sou eu.

Anda cá, não brinques. Chama alguém adulto.

Júlia olhou melhor para ela: boa roupa, mas sinais de fadiga, unhas desalinhadas, olhar triste. Conhecia aquele olhar. Levantou-se, foi buscar o álbum dos desenhos.

Aqui está. Se gostar, diga-me o que pretende.

O nome… Aqui…

A mulher arregaçou a manga e mostrou o antebraço, palma virada para cima.

Quero ver todos os dias…

Ali acabou-lhe a força. Quando Júlia percebeu que a lágrima caía, só foi à porta e trancou, já o cliente tocava à campainha. Fechou as persianas.

Sente-se! disse, sem paciência. Vai custar…

Eu sei. Chamo-me Sara.

Júlia não perguntou mais. E só soube o resto do nome dois dias depois, quando cruzou Sara à porta do Hospital de São João, onde fora visitar uma tia.

A senhora?

Sim. Obrigada…

Gostou do resultado?

Muito. A Sasha também…

Ela…?

Era a minha filha.

E foi ali que Sara apresentou Júlia a Alexandra.

A pequenina, com um olho tapado por penso, conquistou logo Júlia, puxou-lhe a mão e disparou perguntas sobre esquilos no parque. Tinhas nozes, pipocas, sementes? Como ia alimentá-los então?

Não tenho…

Então? Em que mundo vives? Aqui há imensos! Quase todos os dias procuro-os com a mãe. Ela acha que os estou a engordar.

Não se preocupe, miúda. Eles não engordam, estão sempre ao salto.

Tu és esperta!

Nem por isso.

Porquê?

Ainda estou a estudar!

E Alexandra apresentou-se à adulta, solenemente.

Alexandra Sara Matos.

Bonito nome… respondeu Júlia, a pegar-lhe na mão sem magoar o penso. Júlia Andrade da Silva.

Agora já somos conhecidas!

O riso ecoou e, nesse dia, o rosto de Sara iluminou-se.

Na vez seguinte, Júlia foi já com os bolsos cheios de frutos secos.

A história da doença de Alexandra demorou a ser partilhada. Sara e Júlia foram formando laços, trompeçando medos e segredos, sempre com cautela e delicadeza.

É reversível?

Já não é sentença. Ontem… disseram que restava pouco a fazer, mas hoje chegou um novo cirurgião. O Artur… E garantiu que havia solução.

Então por que choras, Sara?

Operaram a Alexandra ontem. Está em reanimação… Empurraram-me para fora… Disseram para voltar amanhã. Tenho medo, Júlia… Medo que nunca tive… E não tenho com quem descarregar.

Sozinha? E o pai de Alexandra?

Abandonou-nos antes dela nascer. Eu nunca fui santa. Tive a Alexandra só para mim, escolhi alguém para ser pai, mas não era amor… Ele soube quando engravidei. Depois nunca mais apareceu. Entendes?

Não, mas isso não interessa. O que foi, foi. Agora é a Alexandra…

Sim, ela…

Cala-te com derrotas! Viste o que escrevi em ti? Júlia mostrou-lhe a tatuagem. Não tens direito de desistir! Fica de pé faz tudo para a tua filha não ser apenas uma memória!

Pára de gritar…

Sara, é hora de agir.

Sara chorou desalmadamente e Júlia, sentindo que aquele era o ponto de viragem, deixou-a descarregar, sem girar os olhos aos empregados que tentavam aproximar-se.

Tragam água, por favor.

Aquela noite passaram juntas no salão: conversaram, choraram, riram.

De manhã, foi Júlia a levar Sara ao hospital.

Vou contigo.

Mas tens tempo?

Sara, és um caso perdido… Júlia tirou do saco uma escova de cabelo. Toma. Penteia-te. Ou a miúda assusta-se!

No fim, a cirurgia correu bem. As mãos de Artur, que Júlia começou pouco depois a tratar apenas pelo nome, fizeram milagres.

Quando é que posso ver os esquilos? perguntava Alexandra.

Em breve! Vens comigo ao Porto, há muitos parques.

Porquê ao Porto?

Vais precisar de reabilitação, para treinar os olhos… O amigo da Júlia já marcou. Vens comigo.

Posso perguntar à Júlia depois!

O entusiasmo da miúda era o de quem já contava os dias para sair.

Mãe!

Sim, filha?

O Artur vem connosco?

Não pode, tem o hospital.

Eu posso! respondeu Alexandra cheia de confiança. Ele gosta da Júlia!

Mas que imaginação, menina! Sara, espantada, via como as crianças percebem muito.

Ninguém podia esconder o sentimento de Artur por Júlia, mas lá faziam conta que nada era.

Com a partida de Sara e Alexandra, Júlia percebeu que podia transportar mais crianças a precisarem de ajuda, e assim o fez, levando meninos a clínicas e consultas fora da cidade. Alex apoiou a ideia e, de repente, Artur assistia ao embarque de pequenos pacientes, todos levados por aquela jovem dos cabelos escuros e a tatuagem no pescoço.

Tudo pronto? A tua mãe está bem sentada? Vamos a isso!

O carro de Júlia virou lar ambulante, com tudo para entreter, desde snacks a tablets para ver desenhos animados.

Artur nunca perguntou porque fazia Júlia tudo aquilo, mas em silêncio admirava-a. Mas nenhum dos dois dava o primeiro passo.

Se não fosse Alexandra, talvez nunca tivessem avançado. Quando voltou da reabilitação, convenceu a mãe a irem visitar o hospital.

Para quê, Alexandra?

Quero dizer algo ao Artur.

O quê?

Ele entende.

E dito e feito, entrou no consultório dele e foi direta ao ponto:

Porque não dizes à Júlia o que sentes?

É complicado…

Complicado porquê? Gostas dela, ela gosta de ti.

Eu não tenho nada, miúda. Nem casa. Vivo num quarto perto do hospital. Ela já tem o que precisa, um belo carro, o salão…

E o amor, não chega?

Artur riu-se com a sinceridade, mas Alexandra não vacilou.

Logo depois, foi buscar a mãe e partiram para o salão.

Vamos, Sara!

Temos marcação?

Ela fica sempre feliz por me ver!

Nem cinco minutos andou lá Alexandra a convencer Júlia também.

Naquela noite, a fechar o salão, Júlia estava resoluta: não ia perder mais tempo.

Viu Artur ao fundo da rua, sombra já bem conhecida.

Olá.

E a música dos encontros começou.

Meses depois, o banco de jardim na rua de Júlia voltou a reboliço.

Arranjou namorado! Quem é? Traz bagagens, é bom sinal? Esperemos que não lhe faça a cama…

Mas parece boa pessoa!

Ai, Dona Gertrudes… tanta coisa bem parece e afinal…

Devia-se avisar o pai da Júlia! Que venham ver!

Já lá está!

A sério? Quando chegou?

Vi-o há dias. Vai haver história!

E houve!

Virou novela, desde o vestido branco que permitiu à vizinhança espreitar a tatuagem escondida nas costas de Júlia, até ao Artur, de olhar cúmplice para a noiva, com Alexandra de risota, declarando-se autora do negócio.

Sara não se continha, corria lágrimas de alegria.

Deixa-me chorar, sim? Estas são boas lágrimas!

Gente estranha apareceu, trazendo flores e abraços, quase como se fossem família.

Ninguém percebeu bem quem eram.

Ninguém entendeu por que motivo Júlia, antes de entrar no carro, arregaçou o vestido, trocou os saltos altos por ténis, e exigiu que só assim podia conduzir.

Nem por que Artur, sorridente, a pegou ao colo e lhe atou os ténis, que a precavida Sara fora buscar ao porta-bagagens.

Sempre a mesma coisa, ah! murmurava o banco do jardim, a ver os carros partirem.

É uma fifrona!

Ora é, sim senhora!

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